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"Sócrates foi contraditório e revolucionário", diz autor de biografia sobre ex-jogador

Por Elcio Ramalho

Considerado um dos maiores craques do futebol brasileiro e com papel de liderança excepcional dentro e fora de campo, o ex-corinthiano Sócrates ganhou uma biografia lançada na Inglaterra neste mês de março.

Escrito pelo jornalista escocês Andrew Downie, o livro Dr. Socrates - Footballer, Philosopher, Legend ( Dr. Sócrates, Jogador de Futebol, Filósofo, Lenda , em tradução livre) (Ed. Simon & Schuster) relembra a carreira do ex-capitão do Corinthians e da seleção brasileira de 1982, e destaca a trajetória política e engajada de um dos protagonistas do processo de redemocratização do Brasil e de uma experiência inédita em um clube de futebol: a democracia corinthiana.

Sócrates era importante, primeiro por que era um grande jogador, ex-capitão da seleção brasileira de 1982, que todo mundo lembra mesmo não tendo ganhado a Copa. Mas, para mim, fora do campo ele foi ainda mais importante porque era um jogador que fazia política, campanhas de ativismo. Não é um exagero dizer que Sócrates foi fundamental na transição que o Brasil fez da ditadura para a democracia. Isso eleva Sócrates para um outro patamar, acima de 99,9% dos outros jogadores”, afirma Downie.

O projeto de lançar a biografia começou, segundo o jornalista, em 2005, quando traduziu um livro sobre Garrincha, escrito pelo jornalista Ruy Castro. A editora propôs traduzir um livro de memórias feito pelo próprio Sócrates, mas publicação não avançou por problemas de direitos autorais que o ex-jogador não teria conseguido resolver.

“Desde aquele momento, ficou na minha cabeça que o Sócrates deveria ter uma grande biografia, que precisava ser reconhecido através de um livro”, disse Downie em entrevista à RFI Brasil. Em 2011, o jornalista, que é correspondente da agência Reuters no Brasil, chegou a conversar com o ex-jogador para trabalharem juntos no projeto, mas que não se concretizou por problemas de agenda.

Sem conseguir entrevistar Sócrates, Downie escreveu a biografia com diferentes fontes, entre elas, o livro de memórias do ex-jogador, que, segundo o jornalista , tinha “muito pouco” de futebol e ficou centrado em resenhas, artigos e pensamentos do “filósofo”. Downie também contou com a ajuda de um grande amigo de Sócrates, o jornalista Juca Kfouri, e com as entrevistas feitas com familiares, ex-companheiros de clube e amigos.

“Sócrates era muito contraditório. Um dos líderes dele era Fidel Castro, e deu até o nome de Fidel a seu último filho. Ao mesmo tempo, ele defendeu o retorno da monarquia ao Brasil. Acho que, no fundo, ele gostava de debates e de polemizar, principalmente se fosse regado a cerveja e com amigos do lado”, brinca o escritor.

Líder nato

Mas foi dentro de campo que sua autoridade começou a ser delineada. “Sócrates era um líder nato. Como capitão da seleção de 82, ele tinha um grande moral dentro de campo. Isso deu a ele muito poder também fora de campo. Ele usou esse poder para criar a democracia corinthiana e para lutar pelo fim da ditadura”, lembrou.

“Ele foi muito importante neste período porque estava falando não apenas para a torcida do Corinthians, mas para torcidas de todo o Brasil, quase diariamente, sobre democracia, representação, liberdade de expressão. Ele falava para gerações que nunca haviam votado porque a ditadura já tinha mais de 20 anos. Era revolucionário”, recorda.

Andrew destaca o papel do Dr. Sócrates como protagonista de uma experiência considerada única e inédita do futebol: a chamada “democracia corinthiana”, período em que a gestão do clube foi feita em estrita colaboração entre a diretoria e os jogadores. “Foi tão revolucionário que até hoje não foi repetido em nenhum grande clube do mundo. A democracia corinthiana foi tão espetacular que ainda estamos falando disso 35 nos depois”, garante.

Conhecido com “Magrão” e também“doutor”, por ter feito curso de Medicina, Sócrates se diferenciou e se destacou entre os grandes nomes do futebol brasileiro por sua postura de líder dentro de campo. “Tem poucos capitães com o nível dele em termos de moral e de liderança. Diferentemente do Dunga, que gritava e encorajava os outros jogadores em campo, Sócrates liderava com tranquilidade. Os outros jogadores o olhavam e o viam quase como um 'ser maior'. Esse é o ponto fundamental de Sócrates: a liderança e visão que tinha dentro de campo”, diz seu biógrafo.

Raí melhor que o irmão Sócrates?

Durante suas investigações, o jornalista percebeu que para muitos familiares e muitos brasileiros fãs de futebol, o irmão Raí é considerado melhor que Sócrates por ter conquistado vários títulos importantes como o Mundial de 94 com o Brasil, as Copas Libertadores de 1992 e 1993 e o Torneio Intercontinental de 1992. “Sócrátes não conquistou tantos títulos quanto Raí, mas o debate sobre quem foi o melhor deve pode continuar por muito tempo”, afirma.

No entanto, segundo Downie, o fato do “Dr. Sócrates” não ter conquistado o mundial de 1982 com a seleção brasileira - treinada na época por Telê Santana e considerada favorita e uma das melhores de todos os tempos - nunca o abalou psicologicamente e não gerou nenhuma frustração.
“Ele jura que não. Sócrates dizia que quando você ganha, já fez tudo, a vida fica mais difícil porque você não tem mais para onde ir. Ele achava ainda que quando você perde, você cresce e aprende mais como pessoa, você tem outros desafios. No final, ele viu como positivo o fato de eles não terem ganhado”, afirma.

Beber era “natural”

Em seu livro, Andrew Downie também relata que a relação de Sócrates com o álcool começou muito cedo, e, em parte, estava relacionada com sua timidez. “Quando ele bebia, ele se abria mais e era mais fácil superar a timidez”, explica. O fato de ter nascido e iniciado a carreira em Ribeirão Preto, uma cidade quente onde muitas pessoas tinham o hábito de se hidratar com cerveja também foi apontado pelo escritor como motivo para Sócrates encarar o consumo de álcool como “algo natural”. Depois de ter aposentado as chuteiras, o excesso evoluiu gradualmente para uma dependência, que o levou a vários problemas de saúde até sua morte, em dezembro de 2011. De acordo com Downie, Sócrates não teria se mostrado arrependido em relação ao alcoolismo.

“Ele dizia: eu queria viver, fazer o que queria do jeito e quando queria. Um dia me disse: se você me perguntasse se eu vivi (minha vida) pela metade minha resposta é não. No final ele estava feliz, não morreu pensando que deveria ter feito isso ou aquilo”, conta o escritor.

Andrew Downie diz que seu maior objetivo ao escrever o livro “Dr. Sócrates” era o de mostrar a mais leitores ao redor do mundo a dimensão de um atleta que muitos conheciam sobretudo como capitão da seleção de 1982 e como um jogador que também era médico, que bebia e fumava. “Muitos pessoas não sabem da democracia corinthiana, não sabem que ele foi fundamental na luta contra a ditadura. Minha intenção é mostrar essas outras facetas da personalidade do Sócrates para mais pessoas porque ele realmente merece”, conclui.
 

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