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Tecnologia digital transforma táticas no futebol

Por Alfredo Valladão

Nesse mundo globalizado, não basta possuir alguns jogadores geniais para ganhar uma Copa do Mundo. Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar são craques fora do comum, mas as suas seleções foram eliminadas. Hoje o talento está em toda parte. Cada ano, o “mercato” das transferências milionárias baralha o leque dos melhores jogadores entre os melhores times.

A Europa é o epicentro desse futebol-business, mas outros continentes já entraram no páreo. Poucos são os times nacionais que ainda têm atletas jogando no campeonato local. A qualidade individual está em toda parte. Não é mais o critério central para se impor. A vitória de escretes nacionais ditos “pequenos” tornou-se possível. Basta olhar para a tabela das semifinais em Moscou ou para times como a Islândia, a Rússia, a Croácia ou o Japão.
    
Antigamente, na época da dominação do Brasil, quem mandava era a habilidade com a bola. Claro, existiam esquemas para fases de jogo. Mas como dizia Mané Garrincha: “já combinaram com os russos?” A criatividade de Pelé, Garrincha Nilton Santos ou Didi bastava. A jogada ensaiada era um luxo para apimentar a partida. Só que o resto do mundo aprendeu a neutralizar a inventividade brasileira.

O futebol moderno são esquemas de jogo sofisticados. A ideia é construir um sólido bloco defensivo para impedir o adversário de marcar. E explorar contra-ataques rápidos com um meio de campo que controla a bola, destrói o avanço adverso e alimenta diretamente atacantes agressivos. O time sobe e desce o tempo inteiro. Futebol virou basquete.

O jogo coletivo e a condição física são transcendentais. Agora, o jogador mais importante é o técnico. Aquele que entende de tática de jogo. Aquele que sabe que cada partida é diferente e que o esquema de jogo tem que se adaptar a cada adversário. Não adianta ficar agarrado em gênios individuais. Primeiro a tática, depois a escolha dos jogadores que vão aplicá-la em campo.

Cada craque tem suas características, suas vantagens e defeitos. O treinador escolhe o jogador e sua posição em função da tática adaptada a cada partida. O atleta virou uma simples peça num esquema de jogo que muda constantemente. A Seleção de Tite entendeu parte da lição. Mas continua apegada à criatividade de um ou dois craques.

Neymar é único, mas não pode ganhar sozinho

O bloco defensivo melhorou muito, mas os zagueiros continuam correndo atrás dos atacantes adversos em vez de destruir as jogadas desde o início. E continuam levando gol de cabeçada. Falta uma filosofia de defesa e velocidade no meio-campo na saída de bola.

Neymar é único, mas não pode ganhar sozinho. Não é mais possível esperar que a outra seleção volte a se organizar na defesa para tentar marcar. É quase impossível. A vitória vem da desorganização do esquema do adversário e cada vez menos de um relâmpago de gênio. Hoje, muita gente já está tentando adivinhar quem vai ser o novo Pelé, Maradona, Messi ou Cristiano. Muitos falam do jovem francês Mbappé. Só que o garoto só pode ser decisivo em certas partidas e esquemas bem determinados. Quem decide se você é grande ou não é o técnico.

Economia digital transforma o jogo

Mas até essa predominância absoluta do treinador está ameaçada. A economia digital já está transformando o jogo. As estatísticas invadiram o campo, junto com o árbitro de vídeo: quantos passes, quantos chutes em gol, quantos bloqueios, quais as zonas do campo ocupadas, quantas faltas, pênalti ou não? Junto com a cientificidade do preparo físico e da medicina esportiva, isso permite uma avaliação personalizada de cada craque a todo momento.

Não vai durar muito tempo para que todos esses dados e esquemas de jogo sejam transformados em algoritmos e analisados por super computadores. No futuro o técnico será uma máquina digital acompanhada por um psicólogo para o bem-estar mental dos jogadores. As partidas vão ser chatíssimas, mas ninguém vai mais ganhar sem isso.

 

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