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Primeira boxeadora do Irã a disputar luta no exterior decide ficar na França para fugir da prisão

Por Elcio Ramalho

Sadaf Khadem já entrou para a história do esporte. Ela se tornou a primeira iraniana a participar de uma competição oficial de boxe e saiu vencedora. No entanto, as autoridades de Teerã emitiram um mandado de prisão contra a esportista e seu treinador franco-iraniano depois dela se apresentar num torneio.

Diante de 1.500 espectadores, usando um short e uma camiseta com o nome e as cores da bandeira do Irã, Sadaf superou na final a francesa Anne Chauvin e ficou com o título de campeã de uma competição disputada no dia 13 de abril na França. Nem todos festejaram essa conquista. O problema é que o boxe feminino não é oficialmente reconhecido no Irã.

Sadaf luta há três anos em clubes clandestinos no território iraniano, à margem de sua atividade profissional. Em entrevista à RFI, a boxeadora lamenta a posição das autoridades esportivas de seu país.

"A Federação Iraniana de Boxe [Aiba] ainda não autorizou o boxe feminino. A Aiba deve aprovar as roupas propostas para as competições pelo Irã, uniformes que sejam conformes ao Islã. As boxeadoras iranianas têm muito talento, levam jeito e espero que este combate ajude a promover o boxe feminino no Irã", explicou.

O presidente da Aiba, Hossein Soori, informou que a boxeadora não faz parte das atletas afiliadas à instituição e, por isso, suas atividades são de caráter privado. Ele considera as lutas de Sadaf meras "exibições". A boxeadora iraniana e seu treinador, Mahyar Monshipour, decidiram não voltar ao Irã depois da luta por serem alvos de um mandado de prisão. Os dois deveriam ter retornado ao Irã na última terça-feira, mas não pegaram o avião e continuam na França, alojados na cidade de Poitiers, a 340 km ao sul de Paris.

Treinador recebe aviso sobre mandado de prisão no celular

Sadaf é professora de fitness em Teerã e seu treinador, que tem a dupla nacionalidade, francesa e iraniana, tinha previsto acompanhá-la. Monshipour, de 44 anos, mora em Poitiers, mas tinha previsão de viajar para a cidade de Bam, no sul do Irã, onde fundou uma escola de boxe.

Campeão mundial por seis vezes no peso super leve entre 2003 e 2006, o treinador organizou a luta na qual Sadaf demonstrou seu talento. Ele disse ter sido informado na sequência, por meio de mensagens em seu celular, do mandado de prisão no Irã. No entanto, o treinador não quis revelar quem foi o emissor da mensagem.

Por meio de um comunicado do Ministério dos Esportes e da Juventude do Irã, a Aiba desmentiu qualquer sanção contra a dupla. A Autoridade Judiciária, encarregada da emissão de mandados de prisão, não se pronunciou. Mas Sadaf, de 24 anos, seria acusada de infringir a lei da República Islâmica que impõe a todas as esportistas o uso do "hijab", o véu islâmico sobre a cabeça, até no exterior. Seu treinador é suspeito de cumplicidade no caso.

Ele disse que a ideia de organizar a luta para Sadaf na França surgiu depois que o Comitê Olímpico Internacional (COI) obrigou todos os países que ainda resistem a tornar os esportes mistos, sob pena de excluir das competições as equipes masculinas.

Monshipour qualificou a presença de Sadaf em uma competição oficial como algo "histórico". Pela primeira vez, segundo ele, o combate de uma iraniana foi validado e registrado por três juízes de uma federação nacional. A boxeadora comemorou sua conquista e, depois de vencer a luta, desabafou: "Foi um evento importante, eu me dou conta agora e me sinto aliviada". Ela afirma ter sentido no ringue o apoio de seus compatriotas. "Senão, não poderia ter lutado como lutei", revelou à RFI.

Modelo para jovens iranianos

Antes desse combate histórico, Sadaf já era conhecida no Irã, onde dava muitos autógrafos para crianças e adolescentes nas ruas e centros esportivos. Agora, ela é vista como um símbolo de coragem e força de vontade.

O boxe feminino não é organizado no Irã, mas existe um projeto de criação de uma seção feminina na própria federação. As iranianas podem participar de outros esportes de combate, como judô, tae-kwondo, karaté ou kung-fu. Com sua conquista, Sadaf espera que as coisas mudem no seu país.

"Sonhei com este combate durante muito tempo e esforcei-me muito por ele. Espero que a minha iniciativa abra as portas deste esporte para as mulheres iranianas. Para mim, não é importante ser a 'primeira', mas poder continuar nesse caminho", afirmou.

Na França, a ministra dos Esportes, Roxana Maracineanu, disse que a luta de Sadaf foi muito bonita e simbólica para os direitos das mulheres. Ela lembrou que a iraniana teve seu visto para vir ao país e participou do torneio de acordo com as leis da República Francesa. Sobre o futuro da iraniana e de seu técnico, a ministra disse que irá acompanhar de perto o caso.

 

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