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Finais europeias só com times da Inglaterra: o que explica o atual sucesso do futebol inglês?

Por Elcio Ramalho

Duas remontadas históricas na Liga dos Campeões - do Liverpool contra o Barcelona e do Tottenham sobre o Ajax Amsterdam - garantiram uma final 100% inglesa na mais prestigiosa competição interclubes da Europa. Na quinta-feira, o Chelsea elimina os alemães do Eintracht Frankfurt nos pênaltis e o Arsenal goleia o Valencia por 4 a 2, colocando outros dois times ingleses na grande decisão da Liga Europa desta temporada.

Pela primeira vez na história do futebol europeu, quatro clubes ingleses vão disputar os títulos mais importantes do continente, uma situação inédita e reveladora do domínio incontestável dos clubes ingleses nos gramados. O que explica tamanho sucesso do futebol de um mesmo país na mesma temporada?

São vários fatores que, conjugados, colocam o futebol inglês em um patamar acima da concorrência, segundo jornalistas e especialistas. Entre eles, as mudanças patrocinadas pela federação local para melhorar a estrutura do esporte, a atratividade de um campeonato considerado competitivo e que busca reunir os melhores jogadores do mercado e, sobretudo, o poder financeiro, incomparável.

“É uma mistura de muitos fatores e o principal deles é o econômico. O curioso era não ter dominado há muito tempo, porque dominam amplamente em nível econômico. A superioridade econômica é de 3 para 1, comparado com a Espanha. Eles têm jogadores e técnicos estrangeiros, os melhores atletas vão jogar lá”, destaca o chefe do serviço de esportes em espanhol da agência AFP, Pablo San Román.  

A Liga Inglesa é, de longe, a mais cara do mundo. Só os direitos de transmissão de jogos para a televisão da temporada de 2016 a 2019 renderam cerca de €2,3 bilhões (R$10,2 bilhões) para a Premier League.  Os dirigentes adotaram uma política de distribuição igualitária para os 20 clubes da 1ª divisão. Tottenham, Manchester United, Liverpool, e Manchester City, por exemplo, receberam o equivalente a €160 milhões, mas os últimos da tabela não foram esquecidos. O Sunderland, último colocado da temporada passada, por exemplo, embolsou €116 milhões, ou seja, duas vezes mais do que receberam o PSG e o Mônaco, primeiro e segundo colocados do ano passado no campeonato francês.  

“É a Liga mais cara do mundo, que arrecada tanto interna quanto externamente, e é uma divisão igualitária, que faz com que os clubes tenham uma fatia dessa verba muito semelhante entre elas e isso ajuda a manter a Liga muito competitiva. Não há uma concentração de renda como acontece na Espanha, por exemplo”, compara Ulisses Neto, jornalista esportivo baseado em Londres desde 2010.   

Política de modernização

O sucesso atual dos clubes ingleses, segundo ele, também deve ser atribuído à política de modernização adotada pela federação local e pelos clubes que apostaram na contratação dos melhores jogadores de outros continentes, além de treinadores estrangeiros. “O Manchester City é treinado pelo espanhol Pepe Guardiola. O Liverpool, pelo alemão Jorgen Klopp. O Chelsea, pelo italiano [Maurizio] Sarri e o Tottenham tem [o argentino Mauricio] Pochettino. Isso mostra como os times se abriram para o futebol europeu e acabaram modernizando o futebol britânico”, afirma.

Ulisses Neto destaca ainda a estrutura dos estádios, a qualidade de vida oferecida aos jogadores e até o envolvimento da torcida como outros fatores determinantes para o sucesso da Liga Inglesa. “Nem todos os estádios são modernos, mas são super bem cuidados, com gramados impecáveis, o que não é uma realidade em todos os campeonatos europeus. Os atletas também citam o engajamento dos torcedores, com estádios sempre lotados em todas as divisões, e a atenção da mídia que não é tão invasiva quanto em outros países. Aqui, os jogadores conseguem ter uma vida mais natural, sem ser muito incomodados por torcedores nas ruas, além de serem, claro, muito bem remunerados”, acrescenta.

Os investimentos e a nova percepção começam a ser refletidos nas seleções da Inglaterra. Na última Copa do Mundo, na Rússia, a Inglaterra terminou em quarto lugar, entre os melhores da competição que não acontecia desde 1990. 

Andrew Downie, jornalista britânico da Reuters em São Paulo, afirma que o poder financeiro da Liga Inglesa é fundamental para o sucesso dos clubes em campo, e a preocupação de atrair os melhores para o país se reflete nas categoria de base.  

“Quando você tem o melhor em qualquer área, não só no futebol como em qualquer outra área, os locais vão aprender. Com os melhores jogadores dos Camarões, da Sérvia, da Austrália, da Argentina, num lugar só, um jovem inglês vai aprender muita coisa. Isso é muito óbvio no futebol inglês. E tem a questão do profissionalismo. Tem mais tempo e infraestrutura e seriedade na Europa. No Brasil, isso não pegou”, compara.

Ciclos

A Inglaterra já começa a colher os frutos de seus investimentos e preocupação com a competitividade no mais alto nível. A seleção principal foi semifinalista na última Copa da Rússia, o que não acontecia desde 1990. Os ingleses são os atuais campeões do Mundial Sub-20 da FIFA, título inédito conquistado em 2017.

Mas os jogadores das equipes de base, como das categorias sub 17 e sub 20, tem que lutar muito para conquistar um espaço nos melhores times, sempre preocupados em atrair os melhores talentos, de onde que que seja. O editor Pablo San Roman alerta para um obstáculo gerado pelo apetite financeiro dos clubes ingleses.   “O poderio econômico pode frear essa nova geração de jovens jogadores ingleses, que são bons e estão brilhando em categorias inferiores. É preciso ver se eles terão oportunidade, se essa necessidade dos clubes de ganhar vai dar chance a essas novas estrelas. Os clubes têm tanto dinheiro, tantos lucros com os direitos televisivos, que eles não têm necessidade de esperar que os campeões da categoria sub 20 estejam prontos. Eles querem buscar logo os melhores na Espanha, França, Bulgária, Sérvia, onde for, para ter uma equipe competitiva desde cedo”, afirma.  

Essa busca tem dado resultado para os ricos, eficientes e às vezes instáveis clubes ingleses. Downie lembra que neste esporte, os times  e as ligas nacionais vivem de altos e baixos, em um curto espaço de tempo.   

“Futebol é um ciclo. Há dois, nenhum time inglês se classificou para as finais da Liga dos Campeões e todo mundo dizia o oposto, que o futebol inglês estava muito atrás dos italianos, espanhóis e alemães. Acho pouco provável ter outros quatro times ingleses nas finais no ano que vem. O gol da classificação dos Spurs foi na última jogada - se não tivesse marcado, seria o Ajax na final. O Chelsea se classificou nos pênaltis. Se algum deles errasse, seria o Frankfurt na final. Uma pequena diferença e estamos falando de uma história global que poderia ser muito diferente dois minutos antes. Isso é que faz o futebol ser maravilhoso”, conclui Downie.

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