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Copa do Mundo feminina: Brasil atrai torcedoras pela primeira vez aos estádios

Por Elcio Ramalho

Sucesso de público dentro e fora dos estádios, a Copa do Mundo disputada na França já é considerada histórica para a evolução e visibilidade do futebol feminino. Para muitos torcedores, torcedoras e fãs desse esporte é a oportunidade de ver de perto e conhecer as 24 melhores seleções do mundo da atualidade, entre elas a do Brasil.

O time da Rainha Marta, seis vezes eleita melhor jogadora do mundo, e da experiente Formiga, que aos 41 anos disputa sua sétima Copa, tem atraído um público muito diversificado e, não raro, sem intimidade com o futebol feminino. No primeiro jogo da seleção brasileira contra a Jamaica, no domingo (9) em Grenoble, o estádio Dos Alpes recebeu mais de 17 mil pessoas, milhares delas com camisetas verde e amarela.

Uma torcida formada por muita gente que pisou pela primeira vez em um estádio, como a paraense Aline Acioli. Ele convenceu o marido a trazer os dois filhos pequenos, Davi, quatro anos, e Lise, de dois, para ver a seleção. Do futebol feminino, a única informação era de que a meio-campista Formiga é paraense, como ela. E ficou satisfeita de ver o público entusiasmado para acompanhar o jogo no estádio.

“Tem muitas famílias e muitas crianças, o que não via tanto no Brasil. Acho importante trazer meus filhos para enxergarem o futebol de uma forma ampla, que não é apenas aquilo que nos é colocado, que menino joga bola e menina boneca. Não, tem a opção que você quiser. O que escolher, vai em frente”, diz.   

Moradora de Grenoble, a francesa Camille também trouxe o marido e dois filhos pequenos de 6 e 4 anos para assistir o primeiro jogo da Copa na cidade. Para ela, é importante desde cedo incitar os filhos a apreciar o futebol feminino. “Eles gostam do esporte de modo geral e viemos para mostrar que o futebol não tem preferência sexual, que pode ser praticado por homens ou mulheres”, argumenta.

A arquiteta brasileira Fernanda Freitas, que se estabeleceu em Grenoble depois de uma temporada de quatro anos de estudos na cidade do sudeste da França, ficou surpresa com a quantidade de torcedores: “É a primeira vez, estou ansiosa e não sabia que ia ter tanta gente assim e fosse tão prestigiado. Estou surpresa”, admitiu.

Empoderamento feminino

As estudantes catarinenses Vanessa Dotti e Luiza Pienta, viajaram de Saint-Etienne, onde terminam dentro de um mês a temporada de estudos, para matar as saudades do clima brasileiro e, com as camisetas da seleção, assistirem pela primeira vez um jogo feminino no estádio. “Estou me sentindo em casa com essa festa. Pela primeira vez estão passando (na TV) no Brasil. É muito bom dar essa mesma valorização da Copa do Mundo masculina para a feminina”, diz Vanessa.

“Acho que é muito importante neste momento que estamos vivendo de representatividade feminina, de feminismo, essa Copa está dando uma visibilidade bacana e importante”, diz Luiza, que conhecia apenas Marta e Formiga. A partir deste Mundial, ela garante que vai acompanhar com mais assiduidade o futebol feminino do Brasil.

As estudantes catarinenses Vanessa Dotti (à dir.) e Luiza Pienta foram pela primeira vez assistir um jogo em um estádio de futebol. Foto: Elcio Ramalho/RFI

O casal Natália e Lucas Fernandes veio da Suíça para prestigiar a estreia da seleção brasileira feminina e ficou agradavelmente surpreso com o clima ao redor do estádio e do público. “ Pensei que estivesse vazio, fiquei impressionada com tanta gente, vi muito marketing valorizando o futebol feminino", disse Natália. "Estava acostumada no Brasil a ver jogos do masculino e tinha muito mais homens. Aqui tem muito mais mulheres e famílias. É um clima muito legal, estou gostando muito”, completou.    

“Tem mais mulheres do que no futebol masculino mas, mesmo assim, é muito animado. A atmosfera é tão boa quanto no futebol masculino”, comparou Lucas.

Mesmo antes da vitória da seleção sobre a Jamaica, muitos brasileiros já haviam comprado ingressos para o segundo jogo da equipe na Copa, contra a Austrália, em Montpellier, no sul da França.    

Guia turística vivendo há 16 anos na cidade, a brasileira Tatiana Righi participou de uma mobilização de compatriotas na região para apoiar o Brasil. “Eu acredito mais na seleção feminina do que na masculina. Pelo menos não tem quem fique caindo o tempo todo e ganhando milhões”, diz, ironicamente, em referência a Neymar, que ficou conhecido pelas quedas principalmente na Copa da Rússia. Ela confessou ter admiração particular pela jogadora Formiga, com seu recorde de sete participações em Mundiais.  

Rompendo preconceitos

A goiana Mirian da Silva se programou para ver pela primeira vez um jogo de futebol das arquibancadas de um estádio. “No Brasil nunca tive essa oportunidade. A sorte é que agora está na porta e tem que aproveitar. É a primeira vez, não posso perder”.

Morando atualmente em Montpellier para fazer um curso de guia de turismo para trabalhar na Guiana Francesa, ela aproveitou a presença da seleção para conhecer de perto as jogadoras. Na véspera da partida, Mirian foi no hotel onde estava hospedada a seleção e tirou foto com todas as atletas. “Fiquei emocionada. Eu não imaginava que elas iam ser simpáticas, simples, que podiam conversar, tocar e eu tocar nelas também. Muito gentil”.

Mirian enviou as fotos para a filha de 22 anos que ficou no Brasil, pois ela é fã da seleção. A partir de agora, ela promete seguir mais o futebol feminino. “Achei interessante e estou motivada, principalmente por causa da Marta que pode jogar a última Copa”, diz.      

Mirian da Silva aproveitou sua estada na França para assistir pela primeira vez um jogo de futebol feminino. Foto: Elcio Ramalho/RFI

O professor de Biologia da Universidade Federal de Pernambuco, Pedro Melo, e sua esposa Gabriele Torreiro Melo estão há dois meses em Montpellier para estudos e aproveitaram para conferir o jogo da seleção. “Demos a sorte de pegar a Copa”, diz Gabriele, que começou a se interessar pelo futebol feminino e sua importância para a luta das mulheres. “Não acompanhava, mas esse empoderamento delas tem sido diferente e único, de maior visibilidade”, comentou a bióloga.  

“O preconceito ainda é muito grande. Ontem ouvi muitas pessoas dizer que não iria m assistir porque era futebol feminino. (Disseram) Ah, mulheres! A adesão do público masculino ainda deixa muito a desejar “, reclamou.  

O marido, professor da UFPE, credita o desinteresse de muitos homens pelas comparações. “Não sei se é preconceito, mas muitos acham que a qualidade do jogo não é a mesma, tecnicamente não é igual, então acabam se desinteressando. Mas tem tudo para mudar”, aposta.

Mas ele tem uma admiração particular pela número 10 do Brasil. “Sou louco por futebol e fico entusiasmado de ver uma jogadora como a Marta, com a história dela, chegar onde chegou, contra tudo e contra todos. Ela é mais reconhecida fora do que no Brasil. A gente tem que torcer e vibrar muito”, destaca.

Além de brasileiros, torcedores locais também eram uma força para a seleção brasileira. Um grupo nove jovens francesas e portuguesas viajou de Bordeaux a Montpellier para assistir o jogo do Brasil contra as australianas. Vestidas todas com a camiseta do Brasil com seus nomes gravados nas costas, elas vieram torcer para o time de adoção. Jogadoras amadoras, elas fizeram questão de assistir a pelo menos um jogo feminino da Copa. “Portugal não está, então torcemos para o Brasil que também é o time do coração, falamos a mesma língua, é igual”, comenta secretária franco-portuguesa Mariana Cerqueira dos Santos, de 28 anos.

Sandra Andrade, professora de português em Lausanne, na Suíça, uma apaixonada por futebol que já acompanhou cinco Copas de futebol masculino, duas Eurocopas, além das finais da Liga dos Campeões no futebol e do Mundial de Clubes de 2012, viajou mais de 500 km de carro sozinha para ver a seleção brasileira em Montpellier.

Ela elogiou os franceses pela organização e estratégia de promoção do futebol feminino ao oferecer preços muito baratos, a partir de 9 € (R$ 39), para os jogos. Ela espera que o Brasil também faça mais pelo futebol feminino e aprenda com os anfitriões deste Mundial. “A França foi muito inteligente, incentivou o futebol feminino e acho que o Brasil vai ter consciência de que precisa melhorar a nível técnico, tático. O Brasil está perdendo muito em relação a países como Austrália, Estados Unidos, Noruega. A partir de 2019, esperamos que melhore”, opina.

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