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Sem favoritos, Volta da França "será a mais difícil da história"

Por Adriana Brandão

O a edição 2019 do Tour de France, ou a Volta da França, a mais prestigiada corrida por etapas do ciclismo mundial, deu a largada nesse sábado (6), em Bruxelas. É a 106ª temporada da história.

Até o dia 28 de julho, serão 21 etapas de um percurso de 3.460 km, com um recorde de passagens por montanhas e 54 km de contrarrelógio.

Vinte e duas equipes e 176 ciclistas, de várias nacionalidades, estão na competição. Nenhum brasileiro está na disputa. Para o diretor da prova, Christian Prudhomme, o percurso 2019 “será o mais difícil da história”. Sem a presença de vários favoritos, como o britânico Chris Froome ou francês Tom Dumoulin, que, machucados não podem participar.

Esta Volta da França será também a mais aberta dos últimos anos. Do pódio do ano passado, apenas o gaulês Geraint Thomas está na disputa e defenderá o título.

As três primeiras etapas acontecem na Bélgica, em homenagem ao ciclismo do país e seus campeões. O esporte é tão popular quanto o futebol. Os belgas participam da Volta da França desde o início da corrida, em 1903, e venceram várias edições, mas o mais celebrado de todos é Eddy Merckx, pentacampeão da corrida.

A edição de 2019 marca também um duplo aniversário: o centenário da camisa amarela, o famoso “maillot jaune”, que recompensa o vencedor de cada etapa, e os 50 anos da primeira conquista de Eddy Mercks na corrida francesa, em 1969. O ciclista belga, hoje com 74 anos, continua a ser um dos maiores atletas da história da Volta da França. Na opinião de Marc Madiot, o diretor geral da equipe francesa Groupama, no país do ciclismo, Merckx é rei:

"A Bélgica é o país do ciclismo. Comparando com o futebol, na Bélgica temos o público apaixonado como os torcedores do Liverpool", afirma. "Tem um conhecimento e um reconhecimento do público que existem em poucos lugares, talvez na região da Bretanha. E a Bélgica é sobretudo Merckx. Ele me lembra a minha infância, os meus primeiros passos no ciclismo”, diz Madiot.

Centenário do “maillot jaune”

Da Bélgica, o pelotão cruza a fronteira com a França no terceiro dia da prova, na segunda-feira (8), em direção ao leste do país. Em cada etapa, devido ao centenário do “maillot jaune”, edições comemorativas da camisa irão recompensar os vencedores. Serão 20 modelos diferentes, cada um deles ilustrado com a imagem de ciclistas campeões, a exemplo de Merckx, e monumentos que marcaram a história da prova, como o Arco do Triunfo, local de encerramento da corrida. Tradicionalmente, o Tour termina com os 127 km que separam Rambouillet da Avenida Champs-Élysées, em Paris, em clima de festa.

A primeira camisa amarela foi imaginada pelo fundador do Tour de France, Henri Desgrange, em 19 de julho de 1919, para o ciclista Eugène Christophe, que venceu a 11ª etapa daquele ano, na cidade de Grenoble. A cor foi escolhida porque as páginas do jornal “L’Auto”, que organizava a prova, eram amarelas.

Campeão brasileiro

O Brasil não tem nenhum campeão à altura de Eddy Merckx, mas um atleta brasileiro já fez história no Tour de France. O paranaense Mauro Ribeiro foi o primeiro, e ainda o único, representante do país a vencer uma etapa da prova francesa. A vitória foi em 1991, na nona etapa e na data simbólica do 14 de julho, Queda da Bastilha e dia nacional francês, e em uma época em que era raríssimo ver um brasileiro participando do circuito profissional de ciclismo.

“Para todo atleta de ciclismo, a Volta da França é a referência, a coisa mais importante que tem. Ser um atleta sul-americano em uma época em que o ciclismo era extremamente europeu e fazer essa façanha de ter vencido uma etapa da Volta da França, e ainda na data festiva do 14 de julho, foi uma coisa que me marcou e que marca até hoje a história da Volta da França”, lembra Mauro Ribeiro em entrevista à RFI.

O Tour de France é um evento excepcional e um dos mais importantes do calendário internacional, ao lado do Giro da Itália e da Volta da Espanha. A prova, desafiadora pelas dificuldades de seu percurso e charmosa pelas paisagens das várias regiões francesas, ajudou a popularizar o esporte em todo o mudo, apesar dos escândalos de doping que mancharam sua imagem no início do século 21. Hoje os controles são mais rígidos e, “apesar de casos esporádicos, a cultura do doping parece fazer parte do passado”, acredita Mauro Ribeiro.

A etapa brasileira do Tour de France

A Volta da França ajudou a popularizar o ciclismo no Brasil, onde o esporte cresceu muito desde a vitória do atleta paranaense nos anos 1990. Depois que parou de pedalar profissionalmente, o ex-atleta desenvolveu, com sucesso, o projeto da União Ciclista Internacional, “L’étape by Tour de France”, realizado há cinco anos em Campos do Jordão, com a participação de três mil ciclistas. O Brasil foi um dos pioneiros do projeto, inspirado e licenciado pela prova francesa, e que hoje é realizado em 15 países.

Mas o esporte no país é, principalmente, amador. O Brasil não tem atualmente nenhum atleta de nível “ProTour” para participar do circuito profissional, ao contrário de outros países da América Latina, como Argentina, Colômbia ou Equador, lamenta Mauro Ribeiro. Ele pede políticas de incentivo para o esporte.

“Em termos de gerações, base de formação e processos educacionais relacionados ao esporte de um modo geral, o Brasil está muito atrasado em relação a outros países, que entenderam que o esporte faz parte da educação e projetam trabalhos sociais junto às escolas. No Brasil, infelizmente, à própria confederação não tem recursos", constata Ribeiro. "Não é o ideal deles proporcionar um avanço estratégico para que as novas gerações pratiquem o esporte e, quem sabe, se tornem profissionais”, critica o ex-campeão brasileiro.

Um mapa do itinerário da prova de ciclismo Tour de France de 2019. ASO/Handout via REUTERS

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