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Autonomia para árbitros punirem clubes com derrota diante de atos racistas é um avanço, diz Observatório

Por Adriana Moysés

Entra em vigor na segunda-feira (15) o novo Código de Disciplina da Fifa. Mais conciso e principalmente mais claro, com 72 artigos em vez de 147 anteriormente, o novo regulamento reforça o princípio da tolerância zero ao racismo e qualquer forma de discriminação nos estádios de futebol. O texto amplia a abrangência do que pode ser considerado um comportamento discriminatório para qualquer ato relacionado com raça, cor da pele, origem étnica, gênero, deficiência, orientação sexual, língua, religião ou opinião política, explicita a federação.

Para Marcelo Carvalho, fundador e diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, a medida mais positiva adotada pela Fifa é a autonomia e a autoridade concedidas aos árbitros para agirem diante desse tipo de incidente. Com o novo regulamento, os juízes poderão suspender a partida e declarar perdedor o clube cuja torcida proferir insultos racistas nas arquibancadas. O árbitro terá de respeitar três etapas, incluindo duas advertências sonoras pelos autofalantes dos estádios, mas terá o poder de punir o time infrator.

A Fifa também passa a ouvir as vítimas, o que não acontecia antes. As denúncias chegavam pela imprensa ou pela súmula da partida. Com a entrada em vigor das novas regras, as vítimas poderão denunciar os atos de racismo que sofrem diretamente à entidade. Os jogadores poderão ser ouvidos presencialmente ou enviar um testemunho por escrito ao setor jurídico da federação, que irá analisar o caso.

Carvalho afirma ter percebido, ao longo do trabalho realizado pelo Observatório, que muitas vezes os árbitros se sentiam constrangidos quando percebiam uma atitude racista nos estádios. “Agora, eles serão obrigados a ouvir os jogadores, que muitas vezes reclamavam, mas não tinham sua queixa de fato considerada em sua reclamação”, explica. O especialista adverte que, para que os torcedores percebam que existe uma nova determinação, a Fifa precisará, quando for julgar um caso, ser rigorosa na punição. “Senão a mensagem enviada à sociedade é de impunidade diante do racismo”, destaca Carvalho.

Depois de publicar quatro relatórios anuais sobre a discriminação racial no futebol, entre 2014 e 2017, o Observatório nota que a maioria dos incidentes envolve torcedores. Os casos referentes a jogadores, treinadores e dirigentes, que protagonizam um comportamento racista ou discriminatório, são bem menos frequentes. Mesmo assim, esta prática passa a ser punida com até dez jogos de suspensão, contra cinco anteriormente.

Incidente na França revoltou ministra dos Esportes

No dia 13 de abril passado, a ministra dos Esportes da França, Roxana Maracineanu, condenou o ato racista visto na véspera, durante a 32º rodada do campeonato francês, na partida entre Dijon e Amiens. O jogo foi palco de mais uma cena lamentável que vem ocorrendo com certa frequência em gramados de futebol europeus. A vítima foi o zagueiro Prince Gouano, capitão do Amiens, que decidiu sair de campo após ouvir gritos imitando macacos na arquibancada. No entanto, o jogador decidiu não prestar queixa.

A partida foi interrompida aos 32 minutos do segundo tempo pelo árbitro Karim Abed a pedido de Prince Gouano que, irritado, começou a sair de campo dizendo para o banco de reservas de seu time: “Acabou, não jogaremos mais, vou levar meus jogadores para o vestiário”. Apesar da declaração, o capitão da equipe de Amiens decidiu, junto com outros jogadores, se aproximar da torcida rival para conversar. O autor dos insultos foi detido e o jogo continuou.

No Twitter, a ministra dos Esportes disse “apoiar totalmente Prince Gouano e todos os jogadores que têm a coragem de denunciar ataques e insultos racistas”. Ela também achou “reconfortante ver todos os jogadores reagirem, times se indignando e reagindo de forma coordenada”.

Posteriormente, a Liga Francesa Profissional acabou punindo o Dijon com a retirada de um ponto no campeonato por causa do incidente racista. Mas a sanção veio acompanhada de surcis.

Solidariedade entre jogadores é fundamental

De acordo com o diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, as punições brandas também são a regra no Brasil. Os clubes recorrem de suas condenações, enviando um sinal de impunidade à sociedade.

Mas, nos últimos anos, aumentou o grau de conscientização das equipes, que passaram a se mostrar mais solidárias em relação às vítimas. Carvalho considera muito importante esse apoio entre jogadores, para que o coletivo envie uma mensagem coesa aos torcedores, no sentido de que os atos de racismo são muito graves. "O Código de Ética da Fifa prevê que o esporte seja um ato de união, uma competição saudável, capaz de transmitir valores, principalmente aos jovens. Por isso, a Fifa está preocupada com essa questão racial", acredita.

Outras medidas

A luta contra a manipulação do resultado de partidas também foi simplificada no novo regulamento, e o Comitê Disciplinar é, agora, o único órgão competente para lidar com essa questão no âmbito da Fifa.

Além disso, outra grande mudança é que a Fifa reforça seu poder como principal órgão de governança do futebol mundial, atraindo para suas instâncias e ao Comitê de Disciplina as decisões financeiras e não financeiras de disputas entre clubes, jogadores, associações, treinadores e outras partes envolvidas no futebol. Nessa área, a Fifa vai impedir que clubes façam transferências de jogadores enquanto não tiverem acertado pendências e pago todas as suas dívidas.

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