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G20 perdeu boa parte de sua utilidade

Por Alfredo Valladão

Quando o G20 dos chefes de Estado foi lançado, há dez anos atrás, o mundo enfrentava a maior crise financeira internacional desde a Grande Depressão dos anos 1930. Hoje, com as economias gigantes – Estados Unidos e Europa - saindo do buraco, esse encontro perdeu o charme e boa parte de sua utilidade.

Na verdade, o G20, que junta 80% do PIB do planeta, nunca foi um organismo decisório, e nem um indício de democratização do sistema internacional. No início era apenas um mecanismo de diálogo, iniciado pelos Estados Unidos e a Europa, para disciplinar as reações das economias “emergentes” diante do vendaval financeiro.

Todos os comunicados finais das primeiras reuniões começavam com longos preâmbulos recitando o catecismo do liberalismo global: economia de mercado, livre-comércio, denúncia do protecionismo, liberdade de circulação de capitais, necessidade de reformas estruturais, além dos inevitáveis apelos ao “desenvolvimento sustentável e inclusivo”. Um catálogo de princípios seguido por medidas concretas para regulamentar melhor e ao mesmo tempo salvar o sistema financeiro global. E os vinte Estados membros, obedientes, assinavam em baixo.
    
Sem dúvida, uma catástrofe global foi evitada – mesmo se custou suor e lágrimas para populações inteiras e para muitos países que ainda não saíram do poço. Só que o mundo mudou. Os ditos “emergentes” perderam fôlego – inclusive a China – e descobriram que o crescimento dependia das exportações para os grandes mercados de consumo americano e europeu.

A revolução tecnológica da informação e comunicação está impondo um novo modelo econômico e social que favorece, de novo, as sociedades do Atlântico Norte. Hoje, são elas que estão carregando o crescimento global.

Para o velho “Primeiro Mundo”, as principais conversas e decisões acontecem cada vez mais no pequeno e antigo clube dos ricos: o G7. E esse grupo dos que estão na frente da nova economia global conectada está muito mais preocupado com as consequências domésticas desse jogo global: as desigualdades sociais e territoriais internas, os desempregados da “velha” economia, a chegada de centenas de milhares de imigrantes sonhando com uma vida melhor, movimentos populistas, nacionalistas e racistas que querem fechar as fronteiras e dar uma marcha ré na história. Pior ainda: a dificuldade da transição para um novo mundo interconectado também está ressuscitando pesadas tensões geopolíticas – na Ucrânia, na Síria ou na Coreia do Norte – e parindo governos ultranacionalistas e autoritários.

Sinais de alarme
    
O Brexit – a saída da Grã-Bretanha da União Europeia – e a eleição de Donald Trump com o seu slogan “Primeiro a América”, são sinais de alarme. A tentação de olhar só para o próprio umbigo sem se preocupar com os problemas globais que afetam a todos, pode trazer de volta os tempos dos egoísmos nacionais e das guerras de todos contra todos.

O G-20 de Hamburgo foi a demonstração dessa perigosa evolução. Sem dúvida, mais uma vez, foram repetidos os princípios que deveriam reger as economias abertas e o desenvolvimento sustentável. Também ficou claro o objetivo comum dos países membros: “gerir os desafios dos tempos e arquitetar o mundo interconectado”.

Mas o que valem as boas intenções sem a anuência da maior potência mundial: os Estados Unidos de Donald Trump? Dezenove membros reiteraram seus compromissos para com o Acordo de Paris sobre a mudança climática, mas tiveram que engolir a despedida dos Estados Unidos e até um menção sobre a importância de combustíveis fósseis. O protecionismo foi condenado, mas falou-se mais de “comércio justo”, defesa comercial e “excesso de capacidades”, do que de ‘livre-comércio”.

Na verdade, o G20 de Hamburgo serviu mais para os encontros e acordos bilaterais entre os dirigentes dos Estados Unidos, Rússia, China, Japão e Europa do que para criar um consenso multilateral sobre o que fazer com o mundo. Todos os outros países membros, sem cacife para apitar, foram reduzidos ao papel de meros espectadores ou pedintes.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, assina uma crônica de política internacional às segundas-feiras na RFI

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