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Catalunha declara vitória da "independência", sem apresentar resultado das urnas

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Carles Puigdemont declara vitória no referendo da independência. Catalan Goverment/Jordi Bedmar Pascual

Pouco depois das 22h30 deste domingo (1º), o presidente da Generalitat da Catalunha, Carles Puigdemont, declarou a vitória do “Sim” no referendo, já anunciando que o próximo passo será a declaração de independência.


Fina Iñiguez, correspondente da RFI Brasil em Barcelona

“Devido precisamente à anormalidade desse referendo, a contagem dos votos vai ser demorada”, anunciou o porta-voz da Generalitat (o governo catalão) Jordi Turull, uma hora antes do fechamento das seções eleitorais.

Turull dirigiu duras palavras ao governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy. Classificou a ação policial como um “autêntico escândalo internacional" e disse que "para confiscar o material (eleitoral), tudo isso não era necessário".

O porta-voz agradeceu o comportamento do povo catalão: "Um povo que ama e defende pacientemente a democracia", e previu: "Tudo nos faz sentir que, devido à tendência que estamos observando, esta noite podemos contar os votos aos milhões".

Turull avisou que o governo de Rajoy “vai ter que responder perante os Tribunais Internacionais pela violação dos direitos humanos”, depois de ter classificado a atuação de Madri como “a vergonha da Europa”. Ao todo, foram fechadas 319 seções eleitorais, enquanto 844 pessoas precisaram de atenção médica.

Em cheque, a credibilidade da contagem

Além das seções fechadas, a polícia conseguiu interromper várias vezes a conexão à internet que permitia às seções eleitorais comprovar o recenseamento universal, anunciado pelo governo catalão 45 minutos antes da abertura das seções.

O recenseamento foi planejado, segundo o porta-voz Turull, para permitir que as pessoas pudessem votar em qualquer seção eleitoral da Catalunha, independentemente do seu local de registro, mostrando apenas o documento de identidade.

O governo catalão acredita que ao redor de 3 milhões de pessoas participaram do referendo, ainda que devido às condições que marcaram a jornada não possa garantir o número exato de eleitores que compareceram às urnas. Até as 23h30 deste domingo, a contagem ainda estava em andamento.

Durante a noite, milhares de pessoas se concentraram na praça da Catalunha, no centro de Barcelona, para acompanhar a contagem dos votos através de um telão.

Greve geral dia 3 de outubro

O partido anticapitalista CUP (aliado do governo catalão) e os representantes das organizações Assembleia Nacional da Catalunha e Omnium Cultural já anunciaram uma greve geral para a terça-feira, 3 de outubro, em protesto contra a ação policial e judicial que tentou impedir o referendo da independência.

Guarda Civil e Polícia Nacional

Após o Tribunal Constitucional ter suspendido a votação, cerca de 10 mil membros da Guarda Civil e da Polícia Nacional chegaram à Catalunha para dar apoio à polícia regional catalã, os Mossos d’Esquadra, nas ações para impedir o referendo, segundo informações do governo, em Madri.

Os Mossos mantiveram uma atitude vigilante, sem, no entanto, intervir na interdição das seções eleitorais e na apreensão de urnas e cédulas. Essa “passividade” dos policiais catalães fez com que seis juízes abrissem processos contra eles por não terem impedido a votação do referendo, conforme ordenou o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha (TSJC).

Depois que imagens de violência policial e pessoas feridas deram a volta ao mundo através da imprensa e das redes sociais, o governo catalão fez questão de deixar claro que o excesso de força fora empregado pelo aparato de segurança do Estado espanhol (a Polícia Nacional e a Guarda Civil), e não pela polícia catalã, os Mossos d’Esquadra.

Reação do governo espanhol

Às 20h, o premiê espanhol Mariano Rajoy fez uma declaração oficial dizendo que seu governo tinha agido “dentro da lei”. O primeiro-ministro convocou todas as forças políticas parlamentárias para, nesta segunda-feira, “iniciar o restabelecimento da normalidade institucional”.

No seu discurso, Rajoy não se referiu aos episódios de violência, mas agradeceu às forças de segurança do Estado, a Polícia Nacional e a Guarda Civil, “por terem cumprido a sua obrigação, obedecendo à justiça”.

Rajoy considera que os responsáveis do que aconteceu neste domingo “são, única e exclusivamente, os que promoveram a ruptura da convivência”, referindo-se aos dirigentes da Generalitat, o governo da Catalunha.

Reação internacional

As violentas imagens da repressão policial provocaram indignação de diversos políticos e celebridades, como o jogador do Barcelona e da seleção espanhola Gerard Piqué. O craque catalão se emocionou e não conseguiu conter as lágrimas ao ser indagado sobre o que estava acontecendo na Catalunha e sobre a decisão do FC Barcelona de realizar o jogo deste domingo sem público. Piqué declarou que jogar num estádio vazio foi a sua experiência profissional mais difícil.

Entre os políticos que expressaram preocupação sobre os acontecimentos deste domingo em Barcelona estão o primeiro-ministro belga Charles Michel, a primeira-ministra da Escócia Nicola Sturgeon, o líder do Partido Trabalhista britânico Jeremy Corbyn, o ex-ministro da economia grego Yanis Varufakis, o ex-primeiro ministro independentista da Escócia Alex Salmond e representantes da esquerda francesa, como Jean-Luc Mélenchon e o socialista Benoit Hamon.

Em Londres e Edimburgo, centenas de pessoas se concentraram nas ruas em protesto contra as agressões policiais na Catalunha, que foi destaque na imprensa internacional.

O jornal norte-americano The New York Times denunciou o "caos na tentativa da Espanha de bloquear a votação na Catalunha". O Washington Post contou "500 feridos, incluindo 12 policiais". A rede de notícias CNN chamou os eventos de Barcelona de “vergonha da Europa”.

Na Europa, o jornal britânico The Guardian falou em "violência contra os votantes catalães", enquanto a rede de TV BBC contava "mais de 700 feridos no referendo da Catalunha".