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"Barcelona provoca e Madri bate"

Por RFI

O referendo independentista catalão não tem mais nada que ver com o resultado das urnas. E não é só porque a Justiça espanhola e as forças policiais do governo central apelaram para a intransigência e a repressão. Esse pseudo-plebiscito, convocado pelo governo da Catalunha, a Generalitat, não é só ilegal do ponto de vista da Constituição espanhola.

A jornada dita “eleitoral” foi feita com locais de voto ad hoc, com pessoas votando em grupos, com boletins impressos em casa, sem mesários da oposição, sem controle de uma autoridade eleitoral independente, sem um censo universal e sem observadores estrangeiros. Em outros termos, essa jogada referendária do presidente pró-independentista, Carles Puigdemont, não cumpre nenhum requisito que confira um mínimo de legitimidade ao voto.

Convocar um referendo nessas condições foi uma maneira de mobilizar os partidários da independência e amedrontar os que são contra. Praticamente só os primeiros foram votar. Portanto o resultado só poderá ser favorável à secessão, mas sem nenhuma garantia quanto ao número de participantes. Nada disso tem a ver com uma decisão democrática.

Puigdemont sabe perfeitamente que esse processo de votos fajutos não vai legitimar uma ruptura com o Estado espanhol. Todas as sondagens dos últimos anos dão uma maioria de catalães contrária à independência. Mesmo se há um amplo consenso para renegociar com Madrid o regime de autonomia da região.

As eleições parlamentares na Catalunha em 2015, dominadas pela questão da independência deram uma maioria de votos contra a opção independentista. Mas uma aliança bizarra entre a extrema-esquerda anticapitalista e a direita nacionalista conseguiu uma pequena maioria de cadeiras que permitiu a composição de um governo cujo o único programa é a independência.

Manobra cínica

O referendo é portanto uma manobra cínica para acirrar a divisão da população catalã, instalando ódios políticos até no seio das famílias, e fortalecer a imagem dos independentistas como vítimas pacíficas da arrogância e da repressão do governo central espanhol.

A ideia de Puigdemont é criar uma indignação nacionalista para poder realizar eleições antecipadas que deem uma maioria clara aos partidários do “bye-bye Espanha”. E contar com a simpatia da mídia internacional, horrorizada com a violência nas ruas de Barcelona.

O problema é que a Generalitat está brincando com fogo. Não há hipótese que Madrid aceite o desmembramento do país – e ainda de maneira unilateral. Pior ainda, o governo central de Mariano Rajoy foi incapaz de administrar as reivindicações catalães sem recorrer à truculência e à violência.

Madri sabotou cinicamente um acordo que já estava pronto e que dava uma série de novas vantagens à Catalunha. Quanto mais o governo catalão apelar para a provocação pura e simples, mais o governo central vai endurecer. E é claro que não pode haver solução sem uma negociação de boa fé que respeite a dignidade e as aspirações – que não são todas ilegítimas – de um parte significativa da população da região autônoma, assim como aqueles que querem continuar sendo espanhóis.

E Mariano Rajoy está longe disso. Ainda não foi capaz de apresentar alguma ideia factível para lançar um tal diálogo. Barcelona provoca e Madrid bate. Isso é uma receita para mais violência.Só que a Europa não pode aguentar uma nova guerra civil espanhola, mesmo se ainda não chegamos neste ponto. Seria uma catástrofe para todo o continente. Existem movimentos secessionistas em vários países europeus: escoceses, corsos, flamengos, bascos e por aí vai.

Independência catalã pode fragmentar país

Na própria Espanha, a independência catalã poderia provocar a fragmentação do país. Nenhum dos Estados europeus está disposto a abrir esta caixa de Pandora que poderia destruir suas próprias nações. Nenhum quer dar qualquer legitimidade às tendências secessionistas e a União Europeia já se pronunciou contra qualquer declaração unilateral de independência.

Na verdade, a situação está completamente bloqueada e ninguém sabe como sair desse beco sem saída. Os dois lados estão cada vez mais radicalizados e por enquanto, até os outros grandes partidos, que poderiam ser a turma do deixa disso, preferem ficar em cima do muro.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI

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