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Libération destaca batalha de professora argentina contra pesticida glifosato

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Argentina utiliza mais de 250 milhões de litros de glifosato por ano em suas plantações, diz Libération desta quinta-feira (9). Fotomontagem RFI liberation.fr

No dia em que representantes da União Europeia não conseguiram mais uma vez alcançar um acordo sobre a renovação da licença do pesticida glifosato, o jornal Libération traz uma matéria sobre a batalha de uma professora na Argentina contra essa substância suspeita de ser cancerígena, mas protegida pelo forte lobby da gigante americana Monsanto.


Em uma matéria produzida por Mathilde Guillaume, enviada especial do Libération à cidade de Basavilbaso, no nordeste da Argentina, o diário ressalta o perigo do glifosato, "o herbicida que aniquila tudo"

Em pleno coração do pampa, 700 escolas rurais dividem espaço com os milhões de hectares de campos de soja, milho e algodão transgênicos. A repórter explica que Argentina utiliza mais de 250 milhões de litros de glifosato por ano - sendo o maior consumidor deste produto no mundo. 

Segundo a reportagem do Libération, uma lei do país - que teoricamente deveria proteger os agricultores expostos a essa substância - proíbe que aviões despejem o glifosato a uma distância menor de 3 mil metros do limite das cidades. No entanto, para as residências isoladas nos campos, esse limite passa a 50 metros. Os moradores dessas regiões deveriam ser prevenidos da aplicação do pesticida nas lavouras com 48 horas de antecedência, mas raramente a regra é respeitada. 

Vômito e queimaduras em alunos

A jornalista escreve que em 4 de dezembro de 2014, a professora Mariela Leiva dava aula em uma escola de Basavilbaso, quando um avião despejou 500 litros de glifosato em uma plantação ao lado da escola. Consciente da ilegalidade da situação, a professora filmou a pulverização, que não tardou a provocar vômito e queimaduras nos alunos.

Ao tentar advertir os pais - todos agricultores - Mariela percebeu uma forte resistência. "A pressão dos donos das plantações é grande para que eles se calem", diz a professora ao Libération, que, com ajuda de uma associação ambiental decidiu liderar o combate contra a utilização do glifosato na região, essencialmente governada por proprietários de campos de soja. 

Processo durou três anos

Na Justiça, o processo durou três anos. Entrevistado pelo Libé, o advogado Mario Arcusín diz que os acusados nem cogitavam a possibilidade que o caso fosse adiante. "E, portanto, a lista de infrações era longa: além da pulverização ilegal, a empresa de fumigação não tinha licença e nem o avião não estava habilitado para a tarefa", escreve o jornal. 

No dia do julgamento, Mariela conta que os insolentes acusados chegaram em clima de festa, sentaram na primeira fileira da sala do tribunal e tinham toda a certeza de que sairiam ilesos. Mas a encenação de nada serviu: a decisão histórica anunciada em 2 de outubro apontou contaminação ecológica e lesões por negligência, além de uma pena de 18 meses de prisão para os três acusados. 

Embora considerada leve, a decisão é fundamental para a luta contra o glifosato na Argentina. Desde então, várias outras escolas rurais denunciaram ações ilegais similares nas plantações do país. "As línguas começam a se soltar", conclui o jornal Libération.