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Árpád Schilling encena desencanto e ruptura em “perfomance dos Bálcãs”

Por Márcia Bechara

Um dos criadores mais importantes do teatro europeu, o diretor húngaro Árpád Schilling, 43 anos, estreou em Budapeste em 3 de novembro “As far as the eye can see”, fábula contemporânea que encena a desagregação do leste europeu pós-queda do Muro de Berlim e um retrato visceral da sociedade dos Balcãs, entre desencanto, desemprego, medo dos refugiados e feridas de guerra.

De Budapeste para a RFI Brasil

Uma caixa cênica italiana iluminada apenas pela luz de serviço. A nudez do palco é absoluta, sem trilha sonora, um minimalismo que vai dos raros objetos cênicos às entradas e saídas de cena – as mesmas portas utilizadas para a entrada do público no Centro Trafó de Arte Contemporânea em Budapeste, na Hungria.

Se a investigação cênica atual extrapola em milhões de decibéis a presença clássica do ator, é nas histórias humanas de cada um dos integrantes do elenco de “As far as the eye can see” que o diretor húngaro Árpád Schilling aposta suas fichas, criando, através de portraits, metonímias de uma velha Europa desencantada.

“É um espetáculo humanista, porque você não vê vídeos e outros recursos estéticos, mas apenas oito pessoas no palco, por isso a peça se aproxima das pessoas. Talvez alguns especialistas queiram discutir o lado formal deste trabalho, mas para as pessoas em geral, fora do ambiente profissional do teatro, é uma boa maneira de se aproximar da situação. Porque a peça não deseja acusar pessoas, mas se você estiver ou conhecer alguém em uma situação parecida, temos que conversar sobre isso”, diz Schilling.

“Democracia não é só sobre votar, ou só sobre liberdade, democracia é um trabalho. Você tem que controlar, você tem que se manifestar, você tem que fazer sindicatos, você tem que conversar”, insiste o diretor.

“As far as the eye can see” termina uma temporada de sucesso no Leste europeu. “A reação foi muito boa, ganhamos alguns prêmios em Montenegro, de direção, o trabalho como um todo, fizemos um grande tour”, diz Schilling. “A peça foi apresentada na Eslovênia, Croácia, Bósnia, Sérvia, Montenegro [e também na Hungria], ou seja, todo mundo da ex-Iugoslávia convidou esse trabalho para ser apresentado. Me parece que é uma ‘performance dos Balcãs’, sobre como estamos agora”, acredita o diretor.

Espetáculo "As far as the eye can see" Duško Miljanić

Sonhadores em fuga

Em cena, personagens levam os nomes dos atores na vida real: Varja (Ðukić), Dejan (Ðonović), Aleksandar (Gravanić), Srđan (Grahovac), Dušan (Kovaćević), Jelena (Simić), Zoran (Vujović) e Nada (Vukčević) se multiplicam para compor 25 retratos de Montenegro e dos Bálcãs. São personagens de fuga, de espelhos múltiplos com seus homólogos ocidentais, perdidos no que parece uma grande zona industrial desafetada (como na cena “Warehouse”, depósito em inglês).

Eles são também jovens de classe média que desejam fugir para Estocolmo, para trabalhar precariamente em fast foods chineses. Ou uma mulher de 50 anos que purga a participação de sua geração na guerra dos Bálcãs. Um ministro corrupto. Carregadores de uma empresa de mudanças, que, demitidos porque a empresa passa por um downsizing, decidem assaltar um banco e fugir para... Kosovo. Um operário-clown que sonha com uma espetacular máquina alemã que corta e cozinha legumes com mais de 50 sabores e velocidades. O gozo da solução simples num deserto de possibilidades concretas de futuro.

Machismo e violência contra a mulher

Espetáculo "As far as the eye can see" Duško Miljanić

No meio da violência masculina, personagens femininos surgem como contraponto crítico. “Numa sociedade como a húngara existe uma enorme pressão nas mulheres. Em Montenegro também. Engraçado que não seja assim na Polônia, por exemplo. Me contaram que a posição feminina lá é muito forte, me lembro agora da incrível e imediata manifestação das mulheres contra a lei que discriminava o aborto. Mas numa cultura política como a húngara, as mulheres não têm muitos direitos. É a cozinha ou os filhos. Como disse o atual governo [de Victor Orban]: ‘não precisamos de imigrantes, precisamos de mais crianças [húngaras]. Essa é a missão das mulheres aqui. E é uma pressão por todos os lados, exigimos que elas sejam mais fortes, que elas se posicionem”, afirma Schilling.

“Somos nós, homens, que precisamos falar mais sobre masculinidade, sobre o medo que sentimos de perder nossas posições de poder. Porque é exatamente isso que vai acontecer”, diz o diretor, casado com a atriz húngara Lilla Sárosdi e pai de uma menina. “A reação de medo dos homens em relação às mulheres é a mesma desse governo. São, na verdade, fracos. É por isso que tentam puxar a mulher para esse lugar do passado, é a maneira mais fácil de evitar uma comunicação real com elas”, conclui Árpád.

“Lembro da reação radical da ministra da Nova Zelândia ao jornalista que questionou como ela poderia ter seu terceiro filho e continuar a comandar o país. Ela disse – estamos em 2017, você não tem o direito de me fazer essas perguntas. Foi sensacional. De Shakespeare aos dias de hoje, podemos ver, atrás da enxurrada de personagens e problemas masculinos, o sofrimento das mulheres, e não falamos realmente sobre isso”, defende.

O diretor húngaro Árpád Schilling em seu escritório, em Budapeste, em 6 de novembro de 2017. RFI/Márcia Bechara

Diretor premiado no Ocidente

Homem de teatro precoce, Árpád Schilling ocupa a cena europeia de teatro desde os 17 anos, primeiro como ator, e depois muito rapidamente como diretor, influenciado por referências como Brecht, Shakespeare, Büchner e Tchecov. Com a companhia Krétakör, fundada por ele em 1995, Schilling encenou alguns dos espetáculos que o tornaram famoso na Europa, como “Baal”, de Brecht. Em 2008, ele é sagrado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo Ministério da Cultura da França.

Nos últimos anos, no entanto, abandonou as luzes de grandes centros da Europa Ocidental, como Paris, e intensificou seu trabalho em sua terra natal, a Hungria. Opositor ferrenho do que chama de políticas populistas do primeiro-ministro húngaro Victor Orban, e um de seus principais críticos, Schilling enumera os problemas-chave da região.

“Jovens querem ir embora, não conversamos o suficiente sobre a guerra, não conhecemos direito a responsabilidade de nosso país na guerra, não sabemos direito como podemos cooperar com outros países, não sabemos como administrar nossos planos, não temos estrutura institucional, temos um grande desemprego, não sabemos direito o que fazer, mas temos medo dos refugiados e de outras pessoas, porque não sabemos qual será a solução, no final é um grande punhado de problemas de Montenegro. Se você assistir à peça, você tem um panorama dos problemas no país, economicamente, politicamente falando”, afirma Schilling.

Schilling não poupa críticas tampouco à sociedade húngara: “é uma sociedade que reclama o tempo inteiro, desde o Comunismo. Victor Orban, com seu paternalismo, deu permissão para essa sociedade reclamar. Victor Orban pode ser um problema como primeiro-ministro e líder político, mas você precisa entender a sociedade que está atrás dele. Se analisarmos a sociedade recente, podemos entender porque este tipo de liderança pode comandar esse povo. Temos aqui um ditado que diz que, durante a tempestade, é melhor submergir, desaparecer”, critica o diretor.

O fantasma do populismo

O diretor Árpád Schilling, que vem de uma experiência em um teatro na Transilvânia, onde trabalhou com os atores sobre temas relativos aos traumas causados pelo Tratado de Trianon, no pós-guerra, dirige-se agora para um novo desafio no teatro de Saint-Polten, na Áustria. O tema já parece estar definido embora ainda seja “segredo de Estado” e a chegada da dramaturgista do novo espetáculo vem para finalizar o bate-papo com a RFI Brasil.

“Então, 27 anos depois da queda do Muro de Berlim, a primeira reação é que talvez não tenhamos trabalhado suficientemente nesta ruptura. Podemos trabalhar com os refugiados, na integração de diferentes pessoas, mas ainda não entendemos nossos cidadãos. Não estamos felizes, temos muitos problemas, mas não conseguimos expressá-los, e é esse o momento em que populistas podem ganhar terreno”, sinaliza Schilling, num último aceno, antes de se despedir.

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