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Coalizão austríaca confirma ascensão da extrema-direita na Europa

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"Não permita que os nazistas governem, nem que possam novamente marchar", diz faixa, em Viena, onde manifestantes protestaram contra a aliança dos conservadores com a extrema-direita. REUTERS/Leonhard Foeger

Desde os anos 2000, a extrema-direita vem ganhando terreno na paisagem política europeia. As eleições nacionais de 2017 confirmaram a tendência na França, na Alemanha, na Áustria e na Holanda. O sucesso dos partidos populistas, eurocéticos e hostis à imigração, acelera a recomposição do cenário político, gerando, ao mesmo tempo, atritos entre os próprios extremistas, divididos por ideologias mais ou menos radicais.


Os partidos de extrema-direita têm alcançado várias marcas históricas, mesmo que não tenham conseguido nenhuma vitória em nível nacional. “Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a extrema-direita não era tão popular na Europa”, constata o pesquisador holandês Cas Mudde, professor da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos.

Na Holanda, o Partido da Liberdade (PVV) de Geert Wilders tornou-se, em março, a segunda força do parlamento, atrás dos Liberais, com 20 das 150 cadeiras, um ganho real de cinco deputados.

Na França, a presidente da Frente Nacional, Marine Le Pen, chegou ao segundo turno das eleições presidenciais, na primavera europeia, quase dobrando o número de votos que se pai, Jean-Marie Le Pen, havia alcançado em 2002. Outro choque foram as eleições legislativas alemães de setembro com a surpreendente ascensão da extrema-direita, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que entrou no Bundestag com 16,6% dos votos, contra 4,7% nas eleições de 2014.

Copo quase cheio

Os resultados de Marine Le Pen e Geert Wilders, que acreditavam na vitória, podem ter oferecido a breve ilusão de uma fraqueza da extrema-direita, mas “o copo, definitivamente, está três-quartos cheio para as forças nacionalistas”, estima o cientista político francês Patrick Moreau.

O Partido da Liberdade da Áustria (FPO), o mais velho da família nacionalista europeia, recebeu, nas eleições de 15 de outubro, um número de votos muito próximo do seu recorde histórico (26%), permitindo-lhe, agora, nomear três ministros (Interior, Defesa e Relações Exteriores) no novo governo de coalizão com os conservadores do Partido Popular Austríaco (OVP).

“Cada país conta uma história diferente, mas atrás do sucesso da extrema-direita, encontra-se sempre a noção de insegurança, real ou imaginária, ligada ao fluxo migratório, ao terrorismo ou às incertezas econômicas”, observa Mabel Berezin, professora de sociologia da universidade americana de Cornell.

O bode expiatório

O sucesso da extrema-direita em países prósperos como a Alemanha e a Áustria confirma “as análises que mostram, há décadas, que a imigração é uma preocupação-chave do eleitorado de extrema-direita”, explica Cas Mudde.

A Alternativa para a Alemanha e o Partido da Liberdade da Áustria conseguiram avançar significativamente nos países que mais receberam refugiados em 2015, alimentando o debate sobre o custo dessa ação solidária e a capacidade de integração dos recém-chegados. 

Mas a presença dos imigrantes não influencia somente a performance da extrema-direita, que se beneficia de um forte ressentimento popular contra as elites políticas, econômicas e culturais.

Se não podem vencê-los, juntam-se a eles

Marginalizar, copiar ou cooperar? O que podem fazer os outros partidos, sobretudo os conservadores, perante o ressurgimento da extrema-direita? Como se adaptar a este novo cenário, que, na teoria, reflete uma tendência real do eleitorado?

Na Áustria, a escolha do jovem conservador Sebastian Kurz, do Partido Popular Austríaco, de competir contra o FPO, pautando a sua campanha na segurança, na luta contra a imigração, na posição do islamismo na sociedade austríaca, foi, com certeza, o fator que facilitou, agora, a aliança do seu partido com a extrema-direita.

“Kurz foi muito longe nesse alinhamento ideológico com a extrema direita do FPO, uma estratégia que pode funcionar desde que ele não perca de vista a identidade do seu próprio partido”, alerta o cientista político austríaco Thomas Hofer.  

Na Bulgária, o partido de centro-direita do primeiro-ministro Boiko Borisov também governa, desde março, com uma coalizão de partidos nacionalistas.

Na Hungria, a política cada vez mais xenófoba do conservador Viktor Orban, permite, paradoxalmente, que o partido de extrema-direita Jobbik, que passou a moderar o seu discurso, se apresente agora como principal alternativa a Orban.

Na França, as alianças com a extrema-direita ainda são um tabu entre os partidos conservadores, assim como na Alemanha e na Holanda. Mas a direita francesa acaba de eleger um novo líder, o quarentão Laurent Wauquiez, que já foi acusado de se aproximar da pauta extremista da Frente Nacional de Marine Le Pen.

Cas Mudde prevê, entretanto, que os partidos tradicionais que tentem imitar a extrema-direita só alcançarão resultados de curta duração, pois eles ainda subestimam o sentimento antissistema do eleitorado.

O difícil gerenciamento do sucesso

As turbulências internas sofridas pela Frente Nacional e pela Alternativa para a Alemanha depois dos seus sucessos eleitorais ilustram as dificuldades de se apaziguar, de maneira duradoura, certas divergências internas, às vezes profundas, ligadas às posições ideológicas ou às rivalidades individuais.

O ano de 2017 viu também a eclosão do partido populista e eurofóbico dos Verdadeiros Finlandeses, que tem sofrido a reprovação popular desde que chegou ao governo, em 2015, numa coalizão com centristas e conservadores austríacos.

“A posição de aliado minoritário é sempre a mais desconfortável”, nota Thomas Hofer. O FPO precisou de muitos anos para se recuperar das perdas eleitorais provocadas pela sua primeira coalizão governamental, entre 2000 e 2007, com os conservadores austríacos.

“Partidos como o Liberdade da Áustria tem um DNA de oposição, que não evolui facilmente para uma atitude de governo”, lembra Hofer.

(Com agência AFP)