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Crise espanhola revela sintoma dos novos tempos da globalização

Por Alfredo Valladão

Papai Noel não baixou na Catalunha. Depois de semanas de psicodramas políticos que racharam a população, as eleições regionais não foram um presente, nem para o Estado espanhol, nem para os partidários da independência.

Sem dúvida, os três partidos separatistas conseguiram tirar da cartola uma estreita maioria de cadeiras no parlamento catalão. Mas perderam claramente o voto popular. Uma maioria da população, os “constitucionalistas”, votou a favor da manutenção da região na Espanha. E “Ciudadanos” – o partido mais abertamente contrário aos independentistas – angariou o maior número de sufrágios e de cadeiras. Na verdade, a sociedade catalã continua dividida em duas partes quase iguais e nenhuma tem condições de impor o seu ponto de vista à outra.

A proclamação unilateral de independência feita pelo então governo de Carles Puigdemont, atropelando a Constituição espanhola e até as próprias leis do estatuto de autonomia catalão, saiu pela culatra. O resultado imediato foi a fuga de milhares de empresas, uma queda substantiva do turismo, um aumento do desemprego, enormes manifestações de rua dos prós e contra, e finalmente uma intervenção direta de Madri. Hoje, parte dos líderes independentistas estão na cadeia ou no exílio. Mas o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, também perdeu credibilidade. Convocar eleições rapidamente era uma tentativa para restabelecer democraticamente, no parlamento catalão, uma maioria contrária à secessão. Nada feito. E o próprio partido de Rajoy, o PP, afundou completamente. E agora?

Impasse

Todo mundo sabe que a única solução é uma negociação. Mas o Estado espanhol pode negociar muita coisa, salvo o desmembramento do país. Quanto aos separatistas, que sentiram na pele que a via unilateral não é possível, a única discussão é como proclamar a independência de maneira legal. Vai ser difícil conciliar. Além disso, o campo independentista está bastante dividido e não vai ser fácil compor todas as facções – que vão da esquerda mais extrema à direita mais tradicional. Pode até acontecer que não tenham condições de nomear um presidente da Generalitat e um governo catalães. Pior ainda: vários representantes eleitos estão exilados ou presos e, portanto, não podem assumir o lugar no parlamento. A maioria de cadeiras é virtual. Mariano Rajoy já declarou que só está disposto a abrir tratativas se for com o futuro presidente da região e não com um Puigdemont exilado em Bruxelas. E mesmo assim, só se a Constituição espanhola for respeitada integralmente. Se a queda de braço continuar e não houver governo regional, outra eleição vai ter que ser chamada em abril 2018. É mais crise – e braba – pela frente.

Se a moda pega

Quem não está achando graça são os outros europeus. Na Europa existem centenas de pequenas regiões que têm cultura e caráter próprios. E dezenas que estão flertando com pedidos de mais autonomia. A crise catalã está dando ideias à muita gente. Claro, na União Europeia sempre existiu forças que apregoam uma “Europa das Regiões”, que aliás já estão representadas em Bruxelas. Só que governar uma Europa com 27 Estados membros já é difícil. Imaginem uma União composta por centenas de regiões! E aliás, os próprios movimentos independentistas fazem promessas irresponsáveis, jurando que suas regiões vão ser muita mais prósperas e livres se saírem de seus respectivos Estados nacionais. Sem nunca explicar quanto vai custar estabelecer todos os serviços básicos desses Estados: defesa, segurança, inteligência, diplomacia, regulamentação, garantias monetárias, etc. A menos que a Europa vire um super-Estado central e longínquo: coisa que nenhuma região quer.

A crise espanhola é portanto só um sintoma dos novos tempos da globalização, com os governos perdendo rapidamente os meios de resolver os problemas domésticos e redistribuir riquezas no âmbito dos territórios nacionais. O esvaziamento dos Estados centrais é o principal motor das reivindicações autonomistas e separatistas. Regiões ricas que se recusam a continuar partilhando riqueza e não querem mais se solidarizar com as mais pobres. Uma fragmentação que só pode acabar mal.

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