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Clínicas de desintoxicação digital contra vício na internet aumentam na Europa

Por Letícia Fonseca

A ideia de que ficar offline por um período faz bem à saúde vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo. Na Europa, cresce o número de hotéis, spas, retiros e até mesmo clínicas de reabilitação especializada que exigem que os hóspedes deixem seus aparelhos eletrônicos na recepção. Em troca, os estabelecimentos oferecem programas longe do mundo digital, privilegiando o contato com a natureza, caminhadas, sessões de ioga e meditação e até aulas de surf.

Correspondente da RFI em Bruxelas

Esta quarta-feira, 28 de fevereiro, é o Dia Mundial Sem Facebook, a rede social mais famosa do mundo, que conta com mais de dois bilhões de usuários. A iniciativa é lançada por um grupo de especialistas em tecnologia da Sillicon Valley, região da Califórnia que abriga as maiores empresas do setor. O objetivo é sensibilizar as pessoas sobre os perigos do vício nas redes sociais. Para tentar diminuir a hiperconectividade, a desintoxicação digital ou "digital detox", uma tendência criada nos Estados Unidos, tem se espalhado pelo mundo e avança na Europa.

Aprender a se desconectar é a essência da desintoxicação digital. Imagine ficar dez dias sem qualquer conexão de internet. Nada de wi-fi, nem qualquer tipo de tela, seja um aparelho de TV ou um simples celular. Não se trata de uma campanha contra o uso da internet, mas um processo para ajudar as pessoas a se conectarem mais com a vida real e menos com a virtual.

Nas últimas duas décadas, o número de pessoas com acesso à internet no planeta aumentou em mais de 1.000%. Porém, o grande problema é quando as pessoas perdem o equilíbrio e transformam o virtual em compulsão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) deve passar a considerar o vício em jogos eletrônicos como um transtorno mental em seu próximo relatório. A dependência em games, assim como em outras atividades no mundo digital, tem uma explicação: a reação bioquímica que acontece dentro de nosso cérebro e que gera a liberação de um neurotransmissor chamado dopamina, responsável pela sensação de prazer, bem-estar e recompensa.

Nomofobia: a angústia de ficar desconectado

Nomofobia é um termo novíssimo que traduz a angústia de ficar sem acesso a um celular ou computador. Esta expressão, criada a partir dos diminutivos em inglês "No Mo" ou "No Mobile", surgiu na Grã-Bretanha, país com maior índice de usuários conectados no mundo, ou seja, 94% da população. Estudos recentes mostram que um terço dos britânicos consultam as redes sociais e e-mails nos primeiros cinco minutos após despertarem. E o mais alarmante: um em cada três acordam durante a noite para checarem seus celulares.

Passar literalmente horas em frente de uma pequena tela, pulando do WhatsApp para o Facebook, do Instagram para o Messenger, verificando os e-mails a cada cinco minutos. O pior é que muitos não se dão conta da dependência. É uma grande ironia. As mídias sociais e celulares que foram desenhados para conectar as pessoas estão, na verdade, fazendo com que elas se isolem cada vez mais.

Recentemente, Chamath Palihapitiya, ex-vice presidente do Facebook, se declarou "tremendamente culpado" por sua colaboração na criação de "ferramentas que destroem o tecido social". Palihapitiya criticou as curtidas tão desejadas nas redes sociais "os laços baseados em feedbacks rápidos e cheios de dopamina estão dilacerando a sociedade".

Riscos para crianças e adolescentes

Há vinte e cinco anos era perfeitamente possível viver sem estar conectado à internet. Hoje, pensar em uma vida na qual as relações não passam pelas redes sociais é quase como ver um filme de ficção científica. A dependência não atinge apenas os adolescentes; cada vez mais crianças são consideradas viciadas no mundo digital.

Recentemente, a Unicef chamou atenção para uma situação sem precedentes: "um entre cada três utilizadores de internet no mundo é uma criança" e mais, muitas crianças têm uma "pegada digital antes mesmo de aprenderem a falar ou andar".

De acordo com as recomendações da Academia Americana de Pediatria (AAP), as crianças antes dos dois anos de idade devem ter zero contato com as telas, uma hora diária até os seis anos, e depois cabe aos pais determinar a quantidade de tempo, com discernimento e monitoramento do conteúdo acessado pela criança. O próprio Steve Jobs, criador da Apple, afirmou em várias entrevistas que não deixava os filhos usarem iPhones ou iPads. Outra estrela da tecnologia, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, também limitou o uso do smartphones dos filhos.

Países adotam medidas de proteção aos usuários  

Difícil fugir da hiperconectividade, considerada a síndrome da vida moderna. O Brasil tem 120 milhões de pessoas conectadas e é o quarto país em número de usuários de internet, ficando apenas atrás de Estados Unidos, Índia e China. Em países como Japão, Coreia do Sul e China, a dependência digital já é tratada como questão de saúde pública. Não faz muito tempo o governo japonês criou acampamentos de desintoxicação digital para ajudar 500 mil adolescentes a reduzirem o vício de estar online.

Além de sintomas de depressão, diminuição do desempenho escolar, distúrbios do sono, o vício em internet pode levar ao isolamento social. Quem passa muitas horas em frente às telas corre maior risco de ter alterações de humor e aumento de ansiedade.

A França, na contramão desta tendência tecnológica, foi pioneira ao reconhecer o direito dos profissionais se desconectarem do trabalho. Desde o ano passado, uma nova lei francesa proíbe as empresas de mandarem e-mails para seus funcionários depois do fim do expediente. Segundo o governo francês, essas medidas foram designadas para "garantir o respeito ao período de descanso e o equilíbrio entre trabalho, família e vida pessoal".

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