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Morte de mercenários russos na Síria cria mal-estar para o Kremlin

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Combatentes do regime sírio na província de Deir Ezzor. George OURFALIAN / AFP

A Rússia não reconhece a existência de mercenários enviados à Síria, mas um incidente recente com as forças americanas, que causou a morte de vários deles, começa a criar constrangimento para o Kremlin.


Daniel Vallot, correspondente da RFI em Moscou

Sabe-se muito pouco a respeito dos mercenários russos contratados para combater na Síria. Mas desde o dia 7 de fevereiro, surgiram alguns indícios capazes de gerar de desconfiança. Um bombardeio da aviação americana na província de Deir Ezzor matou vários mercenários russos quando eles tentavam se aproximar de uma posição mantida por curdos sírios. Uma das vítimas foi o ex-militar russo Vladimir Loginov, de 51 anos. A reportagem da RFI pôde conversar com o filho dele, Dmitri, que sabe pouco sobre as circunstâncias da morte do pai.

Segundo Dmitri, as autoridades russas não deram nenhuma explicação à família. Colegas de seu pai contaram que o grupo tentava tomar o controle de um poço de petróleo quando foi surpreendido pelos bombardeios americanos. "Não sei nada mais além disso", declarou Dmitri.

Até hoje, Moscou só confirmou a morte de cinco mercenários em enfrentamentos na Síria. Mas segundo fontes paramilitares, mais de 200 russos já perderam a vida em combates no território sírio. O Kremlin não divulga informações sobre o assunto, porque continua sustentando a versão de que nunca enviou tropas terrestres ao país aliado.

Grupo privado recruta mercenários

Rouslan Leviev, fundador do Conflict Intelligence Team, um coletivo que recenseia as perdas militares russas no exterior, afirma que Moscou tem o objetivo deliberado de minimizar as perdas sofridas no conflito sírio. Por isso, a Rússia recorre à contratação de mercenários e utiliza para isso o grupo Wagner, uma empresa privada que também operou na Ucrânia a partir de 2015.

Segundo estimativas da imprensa russa, de 1.500 a 2.000 mercenários são mantidos pelo poder russo na Síria. Mas Leviev ressalva que a função desses homens evoluiu desde o início da intervenção militar.

No começo, eles participavam de combates diretos; hoje, são encarregados de manter a segurança de instalações petrolíferas e de gás na província de Deir Ezzor. No início, os recrutados eram ex-militares que combateram no Afeganistão e na Tchetchênia. Atualmente, os recrutas têm menos experiência e são contratados diretamente pelo grupo Wagner. Um número importante deles vem da região do Donbass, na fronteira russo-ucraniana. A média de tempo de treinamento militar que recebem é de um mês.

Os mercenários que aceitam trabalhar para o grupo Wagner são atraídos pelo dinheiro e são, na maioria das vezes, provenientes de regiões pobres da Rússia. Eles têm consciência do risco, mas o ganho financeiro compensa.

As baixas ocorridas no início de fevereiro deixaram os familiares das vítimas revoltados. Dmitri Loginov ainda não sabe quando ele irá recuperar o corpo do pai, morto no bombardeio americano. Ele considera que, como cidadão russo, seu pai deveria ter a existência reconhecida, e a família receber uma ajuda financeira do Estado após sua morte em missão.

Na classe política, algumas vozes começam a se rebelar contra essa situação, recomendando ao Kremlin que reconheça a existência de mercenários enviados à Síria. Deputados apresentaram recentemente um projeto de lei ao Parlamento russo, sugerindo a criação de um estatuto específico para esses combatentes.