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Agente neurotóxico russo pode causar outras contaminações na Inglaterra

Por Maria Luísa Cavalcanti

O comitê de segurança nacional britânico Cobra faz nova reunião de emergência nesta terça-feira (13) para avaliar a crise deflagrada com Moscou após o envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha Yulia, no último dia 4, em Salisbury, no interior da Inglaterra. O agente neurotóxico identificado no ataque pertence ao grupo "Novichok", de uso militar e desenvolvido pela ex-União Soviética nos anos 1970 e 1980.

Da correspondente em Londres

A tentativa de assassinato do ex-agente secreto russo em solo britânico ameaça comprometer o futuro das relações entre Londres e Moscou. A primeira-ministra Theresa May exige que as autoridades russas expliquem seu papel no ataque até o fim do dia, sob pena de tomar medidas de retaliação. Os Estados Unidos dão apoio ao governo britânico na queda de braço com Moscou.

Os agentes "Novichok", identificados no caso, causam desaceleração do ritmo cardíaco e compressão das vias respiratórias, conduzindo à morte por asfixia. Segundo especialistas, as armas químicas dessa família são mais perigosas e sofisticadas que o gás sarin ou a substância VX, utilizada no assassinato do meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un.

Na noite de segunda-feira, May afirmou ser muito provável que o governo russo seja o responsável pelo envenenamento de Skripal e da filha dele. O uso desse agente neurotóxico específico indica que Moscou é diretamente responsável pelo caso ou ao menos permitiu que a arma química caísse nas mãos de cidadãos com intenções maliciosas.

Moscou reagiu denunciando "um número circense e uma provocação" da parte de May. Mas outro sinal de um possível envolvimento russo é a semelhança entre este caso e o do espião Alexander Litvinenko, um dissidente que foi envenenado com um agente radioativo em pleno centro de Londres, em 2006. Antes de morrer, Litvinenko deixou declarações acusando diretamente o presidente Putin. Os dois responsáveis pelo assassinato eram ex-agentes dos serviços secretos russos, que ainda estão soltos e atuando nas altas esferas da política russa.

Assim como Litvinenko, Skripal foi acusado de trair o governo russo quando passou a atuar como informante para o serviço secreto britânico. Em 2004, Skripal foi descoberto e detido pela Rússia. Ele cumpriu pena até ser libertado, seis anos depois, como parte de uma troca de espiões entre os dois países. Desde então, ele vivia na cidade de Salisbury, no interior da Inglaterra.
 
Medidas de retaliação
 
O Reino Unido dispõe de certos atributos para poder atuar individualmente ou ainda como parte da União Europeia para tentar pressionar ou mesmo retaliar contra a Rússia. Atualmente, o bloco europeu mantém o congelamento de bens e a proibição de vistos contra indivíduos e empresas russas como parte de sanções adotadas após a anexação da península ucraniana da Crimeia pelos russos, em 2014.

Os britânicos também podem expulsar do país diplomatas e agentes russos, ou ainda endurecer o acesso dos vários oligarcas russos que possuem propriedades e outros bens em solo britânico. O governo do Reino Unido tem também o poder de tirar do ar o canal estatal russo RT. Os britânicos poderiam ainda levar a questão à Otan, já que consideram o ataque contra Skripal como “uso ilegal da força” pelos russos.
 
População revoltada com risco de contaminação

No domingo, uma semana depois do envenenamento, as autoridades britânicas alertaram a população de Salisbury para os perigos da contaminação pelo agente químico usado no atentado. O alerta foi recebido com revolta pelos cidadãos, que criticaram a lentidão dos serviços de segurança em identificar a substância e entender os riscos que ela representa.

O local onde Skripal e a filha foram encontrados permanece isolado, assim como um restaurante e um pub que eles frequentaram naquele dia. As autoridades estão pedindo que as pessoas que estiveram nas imediações lavem todos os seus pertences.

Os maiores especialistas em armas químicas do país acusaram o governo e os serviços de inteligência de não terem informado melhor a população nos primeiros dias após o ataque.

Skripal e a filha permanecem hospitalizados em estado grave, mas estável.

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