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Rússia Vladimir Putin Militar

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Patriotismo e potência militar russa alimentaram campanha de Putin

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O orgulho da potência bélica russa adubou a retórica patriótica de Putin. REUTERS/Anton Vaganov

Mesmo sem fazer campanha, Vladimir Putin contou com uma característica frequente do povo russo: o apego de seus compatriotas ao país e à vontade de defender sua nação, inclusive militarmente. Seja por meio de um parque temático ou da fabricação e venda de armas, o orgulho da potência bélica russa faz parte da cultura popular e adubou a retórica do presidente, que deve se reeleger neste domingo (18), já no primeiro turno, graças à imagem de “defensor” da pátria.


Enviado especial a Kubinka

A cerca de uma hora de Moscou, depois de enfrentarem a estrada de Minsk, crianças e adultos aproveitavam, na manhã desta véspera de eleição, de um programa em família. Neste sábado (17) ensolarado, com os termômetros na casa dos 10 graus negativos, meninos e meninas corriam para todos os lados, empolgados com as atrações de um parque de diversão que é o orgulho de muitos russos.

No entanto, ao contrário da Disney, onde as estrelas são Mickey e Pateta, ou do parque Asterix, na França, com seus gauleses, no Patriot Park os personagens principais são os soldados (bonecos ou de verdade) espalhados pelos hangares gigantescos. As atrações aqui não são carrosséis, e sim tanques de guerra, nos quais as crianças podem subir e se fotografar. E para aqueles que não se contentam só em olhar, uma sala de tiro, com réplicas de bazucas e metralhadoras Kalachnikov, além de minitanques equipados com simuladores, colocam os pequenos visitantes na pele de guerreiros mirins.

Já para os mais estudiosos, um hangar mostra a saga da conquista russa do espaço e a proteção do território vista do céu. Satélites e naves espaciais, inclusive a cápsula original na qual Yuri Gagarin voltou para a Terra, em 1961, estão expostos e podem até ser tocados. O impressionante vídeo “secreto”, mostrando os testes feitos com macacos nas naves espaciais, atiça a curiosidade das crianças.

Se o frio não assustar (e ele raramente desanima os russos), do lado de fora estão expostos helicópteros, caças e mais tanques, desta vez de verdade, estacionados em fila, como se estivessem prontos para atacar ao primeiro sinal de conflito. E se bater aquela fome depois de tantas aventuras, nem adianta procurar cachorro-quente, algodão-doce ou pipoca: uma barraquinha vende ração enlatada, como os alimentos consumidos pelos soldados durante a guerra.

Formar os patriotas do futuro

Inaugurado em 2015, o Patriot Park é um dos símbolos do apego dos russos pela guerra e, principalmente, pela potência bélica do país. Por apenas 300 rublos (menos de R$ 20) por pessoa, é possível ver de perto e mostrar para as futuras gerações objetos que representam a honra da nação.

“É importante que as crianças vejam isso”, comenta um dos visitantes. “Devemos dar para elas uma direção certa na vida, cultivando o patriotismo desde pequenas. Essa é a base principal de nossas Forças Armadas”, comentou, enquanto admirava um dos caças expostos no meio da neve.

Crianças e adultos ficam impressionados com os helicópteros e caças expostos no Patriot Park. RFI

E ele não é o único a acreditar no papel formador de opinião do Patriot Park. Ao inaugurar o projeto, o próprio presidente Vladimir Putin disse que o local, batizado pela imprensa europeia na época de “Disney militar”, era um “presente para os cidadãos russos”, no qual poderiam admirar a potência do exército. “Vir aqui dá um sentimento de autonomia interna e nos torna mais confiantes quanto à proteção de nosso território”, declarou o chefe de Estado na época.

Míssil “invencível” e orgulho da tomada da Crimeia

Esse “sentimento de proteção” evocado por Putin foi um dos motes de sua discreta campanha para a reeleição. Mesmo se fez poucos comícios, o tema da defesa do território sempre esteve presente. Como na Crimeia, onde lembrou a importância da anexação da antiga região ucraniana – que Moscou prefere chamar de “reunificação”. “Quando estamos unidos, nos tornamos uma grande força, capazes de resolver os problemas mais difíceis”, declarou Putin.

Ou ainda no discurso diante do Parlamento no início do mês, visto pelos especialistas como, ao mesmo tempo, o balanço e o programa do presidente-candidato. Em sua fala, o chefe de Estado prometeu uma vida melhor para seus compatriotas, mas martelou a importância da defesa do país, além de anunciar o projeto de um “míssil invencível”, capaz de driblar todos os sistemas de radar existentes.

“Putin fala o idioma que o povo espera dele, principalmente nesse momento de tensões”, comenta o historiador e diretor da Câmara de Comércio Franco-russa, Pavel Chinsky. E mesmo se a entrevista foi concedida em pleno imbróglio com o Reino Unido, o especialista se refere ao contexto geopolítico em geral. “Para a população, é importante a ideia de que a Rússia continua a pesar e tem um papel de árbitro no cenário internacional. Isso não acontece mais no território europeu, e sim em novos horizontes, como a Síria, onde Moscou encontrou um vazio deixado pela política americana e da União Europeia”, alfineta.

Um país que viveu a guerra e lidera o mercado mundial de armas

Além disso, a potência bélica também traz frutos para a economia. A Rússia é uma das líderes no mercado mundial de armamento, tendo comercializado US$ 15 bilhões (cerca de R$ 49 bilhões) no ano passado. O país é responsável por 23% das armas vendidas no planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, com 33%, segundo dados do instituto independente Sipri.

Esse é, aliás, um dos orgulhos de Putin, ex-agente do KGB, o serviço secreto da ex-União Soviética, rebatizado de KSB depois da implosão do bloco. Ele não esconde seu apego às armas, como nos lembram as imagens em que aparece caçando durante as férias e que ainda circulam pela internet. “Durante um encontro com empresários franceses, ele passou 15 minutos questionando um de seus ministros sobre o número de alvos que poderiam ser atingidos por um tipo específico de míssil, mostrando que conhece e tem interesse pelo tema das armas de guerra”, se recorda Chinsky. “Ele sempre quer mostrar que a Rússia não perdeu seu vigor e sua eficiência tecnológica em um setor que tem poucos concorrentes”.

Imagem de 2006 é apenas uma das que ressaltam a paixão de Putin pelas armas. REUTERS/ITAR-TASS/PRESIDENTIAL PRESS SERVICE (RUSSIA)

Mas há também um contexto histórico. “A Rússia é, como a Alemanha, um país que sofreu muito com a guerra. A população desses países tem tendência a confiar em líderes que os proteja”, comenta Mikail Shneïder, um dos dirigentes do Parnasse – Partido da Liberdade Popular, uma formação de oposição. Para ele, no caso da Rússia, essa proteção se exprime principalmente pelo apego à potência militar. “Putin, que entendeu a importância desse aspecto, sempre usa um discurso de guerra que impressiona os eleitores”, completa.

Um discurso que parece ter funcionado, bem além dos hangares do Patriot Park, já que as pesquisas mostram que, mesmo sem campanha, o presidente, que está no poder desde 1999, tem tudo par iniciar neste domingo (18) mais um mandato de seis anos.