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“Aventuras externas” da Rússia e China são desafios para o mundo

Por Alfredo Valladão

Tem tudo para ser Guerra Fria. Mas não é bem assim. Claro, o assassinato de um antigo espião russo em Londres, com um agente neuro-tóxico de uso militar, parece um romance de John Le Carré. O governo britânico não achou a mínima graça e impôs rapidamente novas sanções contra Moscou, por cima das penalidades já correndo contra a anexação da Criméia pela Rússia e as interferências russas em eleições nos Estados Unidos e na Europa. Os europeus – e até a Alemanha que tem um monte de interesses no mercado russo – também apoiaram e renovaram as sanções.

A nova doutrina estratégica americana classifica a Rússia e a China como ameaças principais. Donald Trump está a fim de uma guerra comercial contra os chineses e a OTAN vem reforçando o seu dispositivo militar nos países europeus fronteiriços da Rússia. Enquanto isso, Putin continua suas provocações militares na Europa do Leste e anuncia novas e poderosas armas nucleares. E Beijing endurece as suas reivindicações territoriais no mar da China Meridional. Não há dúvida de que a panela de pressão geopolítica está assobiando sem parar.

Mas é só assobio. Na Guerra Fria havia dois campos bem definidos, com duas ideologias claras: o comunismo totalitário contra o capitalismo liberal. O objetivo era impor a própria visão do mundo ao resto do planeta. No final, com a queda do muro de Berlin e a implosão da União Soviética, o capitalismo venceu por nocaute.

Hoje, praticamente o mundo inteiro se converteu à superioridade da economia de mercado. O que permitiu um boom econômico mundial e o crescimento dos “países emergentes”. Certo, não quer dizer que a democracia liberal também foi adotada. Em Beijing, Moscou, e algumas capitais da Europa do Leste, a moda é a “democracia iliberal” – folha de parreira para esconder autoritarismos políticos.

Nem Moscou nem Beijing tem o projeto de impor seu modelo ao mundo. Agora é cada um por si. É defender e promover interesses, e não mais ideologias ou visões do mundo. Voltamos aos tempos de antes da Guerra Fria, quando o que contava não era transformar o mundo à sua imagem mas simplesmente o “equilíbrio de potências”.

De igual para igual com os Estados Unidos

O objetivo de Vladimir Putin – reeleito por mais seis anos num voto fabricado e sem oposição – é conquistar respeito, para ser tratado de igual para igual pelos Estados Unidos. Mas a demografia russa é extremamente desfavorável, e a economia não tem condições de competir com o mundo ocidental e de aguentar uma corrida armamentista sem fim. Foi assim que a União Soviética acabou capitulando.

O Kremlin tenta compensar essas fraquezas estruturais com pequenos golpes militares, na Geórgia, Ucrânia, ou Síria, grandes manobras nas fronteiras ocidentais e ataques cibernéticos. São táticas perigosas mas não mudam a relação de forças estratégicas no mundo. A Rússia continua estruturalmente fraca e ninguém anseia copiar o seu modelo de sociedade.

Quanto à China, não há dúvida que quer se tornar a potência dominante no seu entorno geográfico. O objetivo é criar uma rede de países e mercados dependentes para favorecer os seus próprios negócios e empresas.

O regime de Beijing não quer tomar nenhuma responsabilidade na organização do planeta. Mateus, primeiro os teus! Só que a economia chinesa vem desacelerando e que os problemas internos se acumulam. A decisão de fazer de Xi Jinping um verdadeiro “imperador” vitalício e a política de fechamento do país e de perseguição a qualquer tipo de oposição, são sinais que o Partido Comunista está com medo de convulsões internas. E a saída como sempre, é apelar para o nacionalismo e para a gesticulação militar na região.

O desafio para o resto do mundo não é mais ideológico ou sistémico. Além de conter as políticas agressivas de Moscou ou Beijing, o problema será administrar as possíveis crises internas e as aventuras externas russas e chinesas. Nada disso é Guerra Fria, mas o perigo é que pode sempre acabar em guerras quentes.

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