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Bailarino brasileiro dança em palcos e prisões da Alemanha

Ronni Maciel nasceu para dançar. Mas teve que driblar o destino para chegar lá. De família modesta do interior do Rio de Janeiro, o brasileiro só começou a estudar balé ao ganhar uma bolsa de estudos, aos 18 anos. Radicado em Berlim, ele hoje domina do clássico ao contemporâneo, e vai dos palcos às prisões.

Por Cristiane Ramalho, correspondente da RFI na Alemanha

Ronni conhece bem as prisões alemãs. Durante três anos, o coreógrafo e bailarino trabalhou no projeto AufBruch, que leva teatro e dança para detentos na Alemanha.

A proposta do AufBruch (“Partida”, em português) é ajudar na recuperação dos presos. E eles não ficam só na plateia: também participam das peças, que são abertas ao público.

O convite para entrar no projeto partiu do diretor alemão Peter Atanassow, que vinha substituindo um coreógrafo atrás do outro, até conhecer o brasileiro.

“Muitos presos questionavam a proposta, dizendo que dança é coisa de mulher ou de gay”, lembra Ronni, que trabalhou especialmente com jovens infratores.

Capoeira, futebol... e balé

Para quebrar o preconceito, e vencer a resistência, foi preciso jogo de cintura. Mais do que ensinar a dançar, o coreógrafo tentou entender o que os jovens precisavam “para trabalhar com o corpo”, incluindo elementos que tivessem a ver com a realidade deles.

O fato de ser estrangeiro, e negro, também ajudou a quebrar o gelo. “Eles me achavam cool. Gostavam dessa coisa de ter um cabelo afro, de ser do Brasil. Sempre falavam: capoeira, futebol... E eu respondia: balé também! E isso aproximava. Mas foi bem difícil”, admite.

Ser revistado na entrada da prisão não chegava a ser um problema. Complicado mesmo era negar os pedidos de ajuda. “Me pediam para levar cartas, perguntavam aonde eu morava, se eu tinha Facebook... Eu não podia dar informações, nem ter contatos do gênero. Mas você acaba ficando mais próximo, mesmo sem querer”, relembra.

Pai pedreiro, mãe operária

Ronni sabe bem o que é precisar de ajuda. Filho de pai pedreiro e mãe operária, nascido em Carmo, no interior do Rio de Janeiro, ele começou a carreira tarde.

Sem recursos para estudar balé, já estava com 18 anos quando jogou todas as fichas numa última aposta: disparar uma carta para vários financiadores em potencial.

“Contei que vinha de uma família muito simples, que meu pai era analfabeto, que nunca poderia financiar meus estudos. Na verdade, a gente nem tinha direito o que comer. Não era drama, era a minha realidade. E acho que isso comoveu as pessoas que leram a carta”, diz Ronni, garantindo que teve uma infância maravilhosa, apesar de tudo.

A carta sensibilizou a antropóloga, e então primeira-dama, Ruth Cardoso, fundadora do programa Comunidade Solidária, que conseguiu para Ronni uma bolsa na Escola de Balé Dalal Achcar, no Rio de Janeiro. Mas faltava cobrir as despesas com hospedagem, transporte e alimentação.

Fome e humilhação

Sem dinheiro, e sem tempo para trabalhar, Ronni passou por uma fase de privações. “Já comecei velho. Se eu realmente quisesse me tornar bailarino, teria que investir só na dança. Para isso, tive que me desdobrar”, diz Ronni.

O bailarino chegou a passar fome. Dormiu na rua, foi humilhado, pensou em desistir de tudo. Mas seguiu adiante e se formou.

Além do curso da Dalal, fez ainda a Escola de Dança Maria Olenewa, do Theatro Municipal do Rio. Mais tarde, foi aceito na companhia do Balé Guaíra, de Curitiba (PR).

Já experiente, desembarcou na Alemanha em 2006, em plena Copa do Mundo, após ser selecionado pela coreógrafa Deborah Colker para participar do projeto Maracanã, com bailarinos internacionais.

“O intuito era entrar depois para a companhia dela. Mas fiquei por aqui. Gostei muito quando vi o valor que eles davam para a cultura e para o bailarino em si”, conta.

Ópera do Malandro

Em Berlim, Ronni fez carreira, sobretudo, dançando na companhia da coreógrafa argentina Constanza Macras.Também investiu em coreografias próprias. Esse ano, teve duas peças com a sua assinatura em cartaz: Katzelmacher, em Berlim, e Paradise Flute, em Munique.

É dele, ainda, a coreografia da versão da Ópera do Malandro, de Chico Buarque, encenada em Berlim pela diretora alemã, Lilli-Hannah Hoepner, em 2013. “Quis trazer um pouco da minha realidade – meu avô era curandeiro do Candomblé -, e fiz uma figura do malandro diferente do clássico ‘show samba’, seguindo esse caminho da religião”.

A ligação com a família segue forte. “Meus pais são super simples, mas me ensinaram muito”, diz. O sonho de Ronni agora salta de volta ao Brasil: ensinar um pouco do que aprendeu aos meninos de Carmo.

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