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Espanha Francisco Franco Ditadura Pedro Sánchez Túmulo

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Espanha: Sánchez quer tirar restos de Franco de mausoléu e criar “espaço de reconciliação”

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Flores no túmulo do ex-fitador Francisco Franco, do mausoléu Los Caidos, na Espanha, em 19 de junho de 2018. REUTERS/Susana Vera

Já aprovada pela Câmara dos Deputados, a retirada dos restos mortais do ex-ditador Francisco Franco do mausoléu do Valle de los Caidos, próximo a Madri, é uma prioridade para o novo governo do socialista Pedro Sánchez, chefe do governo espanhol.


Com informações de France 24 e AFP

O novo governo socialista espanhol está determinado a remover os restos mortais do ditador Francisco Franco de seu mausoléu, perto de Madri, para transformar o lugar em espaço de "reconciliação", em um país onde o debate sobre a ditadura franquista ainda permanece unicamente na memória dos cidadãos.

A maioria dos parlamentares (198 dos 350) já havia solicitado a remoção sem sucesso no ano passado ao governo conservador de Mariano Rajoy. As equipes de Sánchez, no entanto priorizaram o assunto: "Já houve um acordo na Câmara dos Deputados" sobre a remoção dos restos mortais localizados no Valle de los Caidos (Vale dos que caíram)", disse nesta segunda-feira (18) a vice-presidente do Executivo, Carmen Calvo. "O que vamos fazer, como governo, é procurar um jeito para colocá-lo em prática".

O objetivo é converter o mausoléu em lugar da reconciliação "e não uma apologia à ditadura", disse Oscar Puente, porta-voz do Partido Socialista (PSOE), de Sánchez.

Um complexo monumental

O Valle de los Caidos é um complexo monumental que celebra a Guerra Civil Espanhola há mais de 40 anos, projetado e construído a 50 km a leste de Madri por Francisco Franco, no poder entre 1939 a 1975. O ex-ditador está enterrado perto do altar da basílica, encimado por uma cruz de pedra de 150 metros de altura. Seu túmulo ainda existe e pode ser visitado, ao lado do fundador do partido fascista Falange, José Antonio Primo de Rivera.

Em nome de uma suposta "reconciliação" nacional, Franco também transferiu para o mausoléu os restos mortais de mais de 33.000 vítimas da guerra civil, entre nacionalistas e republicanos, sem sequer notificar as famílias. Entre 1941 e 1959, este complexo foi construído em parte por prisioneiros republicanos, forçados ao trabalho escravo. Muitos morreram no local.

Em abril, especialistas haviam inspecionado o controverso mausoléu para preparar as exumações de duas vítimas da guerra espanhola enterradas perto dele, por ordem de Justiça. A remoção dos restos mortais de Franco, mas também de Primo de Rivera, esteve no centro de uma proposta de lei socialista apresentada em dezembro de 2017, enquanto o PSOE ainda se encontrava na oposição. O texto do partido também se referia à criação de uma "comissão da verdade" e à anulação de decisões judiciais tomadas durante a ditadura por motivos políticos.

Sánchez apresentou a proposta em um lugar simbólico perto de Valência, onde mais de 2.000 republicanos foram mortos. "Se ignorarmos um passado desconfortável, não poderemos construir um futuro confortável", afirmou na ocasião.

"Batalhas culturais e conflitos artificiais"

Quarenta e três anos após a morte do ditador Francisco Franco, as feridas estão longe de serem fechadas e a questão cultural da memória ainda se divide na Espanha.

"O Partido Socialista nos acostumou a travar essas batalhas culturais", que "não trazem nada à convivência e harmonia", disse Andrea Levy, vice-secretária do Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy, formação que sucedeu à Aliança Popular, fundada durante a transição democrática por ex-ministros franquistas. "A história da recente democracia espanhola é uma história de fraternidade e vai além dos momentos mais tristes", disse ela, enquanto o presidente do PP, Angel Garrido, denunciou a batalha pela remoção dos restos de Franco do mausoléu como "conflito artificial".

Por outro lado, o partido liberal Ciudadanos demonstrou abertura em relação ao tema, enquanto a esquerda radical do Podemos, a principal força no Parlamento espanhol depois que o PSOE levou Pedro Sánchez ao poder, saudou a iniciativa. Pablo Echenique, um dos parlamentares do Podemos, denunciou a presença de um "ditador genocida em um gigantesco mausoléu para quem as honras são pagas pelos espanhóis quando há dezenas de milhares de mortos [republicanos] no país enterrados em valas comuns”.

No livro "O holocausto espanhol", o historiador britânico Paul Preston estima um total de 200.000 mortes em combate, sendo o mesmo número de assassinatos e execuções, nas quais se contabilizam 150.000 vítimas dos franquistas.