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Espanha: começa 1° julgamento de roubo de bebês na ditadura

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Vítima de roubo durante a ditadura do franquismo participa de uma manifestação para exigir que a Procuradoria Geral da Espanha investigue totalmente o suposto roubo de centenas de recém-nascidos, em Madri, em 20 de abril de 2012. PIERRE-PHILIPPE MARCOU / AFP

O médico Eduardo Vela, 85 anos, será o primeiro a ser julgado na Espanha por um caso referente à prática de roubo de bebês de integrantes da oposição e de famílias pobres. O afetou milhares de famílias durante a ditadura franquista entre 1939 e 1975. As audiências começam nesta terça-feira (26), em Madri.


O médico trabalhava na clínica San Ramón, em Madri. As crianças eram declaradas mortas logo ao nascer e pouco depois eram confiadas a famílias adotivas, sem que seus pais biológicos soubessem de nada. Em junho de 1969, o médico "presenteou" uma mulher, Inés Pérez, com uma menina, que a registrou como sua filha biológica na certidão de nascimento, segundo os autos do processo.

A queixa contra o médico foi feita pela garota, Inés Madrigal, hoje com 49 anos, que conseguiu levar o doutor Vela aos tribunais. Ela soube que era adotada aos 18 anos, em uma conversa com sua mãe. Mais tarde, em 2010, lendo na imprensa um artigo sobre "os bebês roubados" no franquismo, descobriu que a clínica onde nasceu, fechada em 1982, era um dos centros do tráfico de crianças nos anos 1960 e 1970.  Iniciado depois da Guerra Civil espanhola (1936-1939), ele envolveu milhares de crianças, segundo associações que militam para que todos os casos sejam solucionados.

O objetivo era punir os partidários da II República (1931-1936), anterior ao general golpista, acusados de transmitir "o gene vermelho do marxismo". O fenômeno logo atingiria as crianças nascidas fora do casamento, ou famílias pobres ou muito numerosas. Os bebês foram adotados clandestinamente por casais estéreis ou ligados ao regime. O médico é o primeiro suspeito de roubos de bebês na Espanha a sentar-se no banco dos réus. As acusações que pesam sobre ele são de detenção ilegal, falsificação de documento público, suposição de parto e adoção ilegal.

Duas mil denúncias

Segundo as associações, ao menos 2 mil denúncias de fatos similares foram apresentadas aos tribunais, sem que nenhuma chegasse ao final. Os casos estão arquivados, já que os tribunais afirmam que não há provas suficientes, ou que os fatos prescreveram, explica Soledad Luque, presidente da associação. "Todas as crianças roubadas também são meus filhos", afirma.

A professora de fonética está em busca de seu irmão gêmeo, desaparecido em 1969 em uma maternidade de Madri em circunstâncias estranhas. Como em muitos outros casos, os médicos disseram a seus pais que o menino estava morto, mas sem apresentar provas.

O tráfico perdurou após a morte do ditador, em 1975, explica Duque. A prática foi mantida, assinala ela, por razões econômicas e durou até pelo menos 1987, quando se adotou uma lei que em seu preâmbulo criticava "o odioso tráfico de crianças, denunciado nos meios de comunicação".

(Com informações da AFP Brasil)