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Europa em crise interessa Trump e Putin, que se reúnem em Helsinki

Por Alfredo Valladão

Parece até saudosismo da Guerra Fria. Donald Trump e Vladimir Putin vão se encontrar, pela primeira vez, em Helsinki, palco importante para as negociações entre as duas superpotências do mundo bipolar. Um tempo em que americanos e soviéticos decidiam o futuro do planeta.

Dessa vez não é bem assim. A Rússia de hoje é a só a sombra da antiga União Soviética. Claro, continua possuindo um arsenal atômico consistente, mas está longe de ser uma potência global como os Estados Unidos. Putin faz tudo para ser tratado de igual para igual pela Casa Branca: pequenas intervenções militares baratas na periferia russa, apoio ao regime de Bashar El-Assad na guerra civil Síria e até ingerências eletrônicas nas eleições americanas. Mas não tem meios econômicos, políticos e militares para competir seriamente com Washington e até com Pequim.

Só que Trump está convencido de que nas relações internacionais o que vale é a força. E Putin pode contar com isso. Nada de regras e valores universais. Cooperações: só em benefício próprio. Só conta o interesse exclusivo do próprio país e próprio dirigente. Não existe esse negócio de “ganha-ganha”, de multilateralismo ou de respeito ao direito internacional.

O mundo é feito de ganhadores e perdedores. Ponto final. Tudo é negociável, mas só com muito cacife na mesa. É por isso que o presidente americano gosta tanto de “homens fortes” e de governos autoritários, sem as firulas dos políticos democráticos. Ele sempre admirou o presidente russo, até publicamente. E além disso, é claro que Putin ajudou a eleição de Trump – e até há suspeitas de que a firma do magnata-presidente faz bons negócios com os russos.

Logo, o encontro de Helsinki tem tudo para ser um sucesso – ao menos como um show para a televisão. Mas não quer dizer que não vai haver papo substantivo. Na mesa vão estar as relações com a China ou a presença russa no Oriente-Médio, mas o prato do dia vai ser sem dúvida a Europa. A Europa em crise é um almoço que interessa os dois líderes. Para Putin, uma Europa integrada e forte é vista como uma ameaça.

Para Trump ela é considerada como um concorrente que deveria ser esmagado. Os dois têm o mesmo interesse: tentar desfazer a coesão da União Europeia para recriar suas zonas de influência e impor o seu poderio sobre Estados europeus divididos e bem mais fracos. A Europa integrada ainda é hoje a maior economia do mundo e ainda por cima tem o desplante de negociar suas relações comerciais de maneira comum e centralizada.

Isso não agrada em nada a administração americana que vem impondo uma verdadeira guerra comercial ao resto do mundo. Uma forma de política econômica unilateral para arrancar vantagens só para as regiões americanas que votaram em Trump. E é evidente que para chegar lá o lourão da Casa Branca tem que atropelar a Europa. O sonho é poder negociar de maneira bilateral com cada governo europeu separadamente.

Líder russa sonha com Europa dividida

Vladimir Putin por seu lado, está preocupado com as pequenas tentativas de resposta dos europeus. Confrontada com a hostilidade declarada da Casa Branca, a Europa está tentando reforçar a sua integração, tanto financeira quanto militar. É difícil, já que boa parte dos países têm que enfrentar a emergência de movimentos e governos populistas e soberanistas. Tanto Putin como Trump não escondem suas simpatias por esses partidos de extrema-direita que ameaçam diretamente a coesão europeia – e até os apoiam abertamente.

O líder russo também sonha com uma Europa dividida e enfraquecida. Assim, pode haver um certo consenso em Helsinki. A agressão comercial de Trump serve os interesses russos no Velho Continente e as ingerências russas na política dos Estados europeus servem os propósitos do magnata-presidente. Como diz a velha sabedoria: “quem não está sentado na mesa, está no cardápio”. A Europa é a bola da vez.

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