rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
O Mundo Agora
rss itunes

No jantar de Putin e Trump em Helsinque quem está no cardápio é a Europa

Por Alfredo Valladão

O estranho encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin em Helsinque parece ter mais a ver com um show de televisão do que com uma agenda substantiva. Tem tudo de um capricho do lourão da Casa Branca que acha que é dono do mundo. Trump nunca escondeu a sua admiração por Putin, um dirigente autoritário e machão que atropela tranquilamente todas as regras e instituições, e faz questão de se comportar como se estivesse acima das leis.

A única coisa que conta é a relação de forças nua e crua. Um experiente diplomata americano comparou uma conversa com os russos a uma “negociação com a Máfia”. Só que esse tipo de queda de braço é o sonho dourado de Trump.
O magnata-presidente virou rico nas negociatas brutais do mercado imobiliário americano e quer agora aplicar a mesma receita na diplomacia internacional. Uma técnica que ele tentou recentemente com o ditador da Coréia do Norte. O sucesso midiático foi enorme, mas por enquanto, não saiu nenhum coelho dessa cartola.

O primeiro problema do hóspede da Casa Branca é que o seu próprio governo e o Congresso consideram que Moscou é uma das principais ameaças à segurança e aos interesses dos Estados Unidos. O Senado impôs sanções econômicas à Rússia (contra a vontade de Trump), enquanto os generais do Gabinete presidencial e os chefes dos órgãos de inteligência denunciam os atos de guerra cibernética russos.

Há poucos dias, o procurador Mueller, encarregado de investigar as ingerências russas nas eleições americanas, decidiu indiciar 12 agentes da inteligência militar russa. Mas o “Donald” não quer saber de nada: até os seus conselheiros mais próximos reconhecem que não têm mais condições de monitorar e discutir o relacionamento direto do presidente com Putin.

Agenda implícita e perigosa: o futuro do continente europeu

É claro que razões não faltam para falar com o Kremlin. Nem que sejam os dossiês da “guerra híbrida” lançada pela Rússia na Ucrânia com a anexação da Criméia, do futuro da Síria e da presença iraniana nesse país, do afrouxar das sanções econômicas, da nova corrida armamentícia nuclear, ou da ideia defendida por Trump de uma reintegração da Rússia no G-8 – o seleto grupo dos grandes países industrializados.

Sem falar nas interferências russas, nos processos eleitorais europeus e americano. Só que nenhuma dessas questões pode ser resolvida com uma simples “canetada” presidencial. Ainda vai ser preciso convencer os aliados europeus e asiáticos o Legislativo, a Justiça, o Pentágono e a comunidade de inteligência dos próprios Estados Unidos.

Se algum anúncio de acordos espetaculares sair da cúpula de Helsinque, vai ser só para inglês ver. Na Rússia, vai ajudar Putin a mostrar que virou respeitável e a recuperar uma queda brutal de popularidade depois da decisão de aumentar a idade da aposentadoria. Para Trump é mais um trunfo para mobilizar o seu eleitorado para as próximas eleições parlamentares de meio-mandato que vão definir o resto de sua presidência.

Só que existe também uma agenda implícita e muito mais perigosa: o futuro do continente europeu. Putin está claramente tentando dividir e enfraquecer a União Europeia e a própria Aliança Atlântica. O objetivo e restabelecer a influência de Moscou no Velho Continente. O problema é que Donald Trump também está numa linha parecida. Como o dirigente russo, o americano também apoia abertamente os movimentos nacionalistas e populistas europeus.

Fragmentação europeia

A ideia é fragmentar a integração europeia para poder impor a cada país europeu, de maneira bilateral, a sua visão estreita dos interesses americanos. Engolir a Criméia de um lado e, do outro, declarar que a Alemanha é “prisioneira da Rússia” porque compra gás de Moscou em vez de comprar nos Estados Unidos, é cara e coroa da mesma moeda. Uma coisa é certa: no jantar do autocrata russo com o aprendiz de autocrata americano quem está no cardápio é a Europa. E com ela, o resto do mundo que só tem cacife para ficar olhando.

Opinião: Brasileiros viraram reféns de minorias extremistas que polarizaram a sociedade

América do Sul enfrenta desafio das migrações em massa, pela primeira vez em sua história

Só renovação salva empresas que atingiram “limite de crescimento”

Clima de guerra comercial prejudica países emergentes e em desenvolvimento

Movimentos "antissistema" beneficiam de crise social, política e econômica na UE

Fim de emenda que proíbe aborto na Irlanda revela crise institucional da Igreja