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Queda dos recursos e discriminação: combinação perigosa na luta contra AIDS

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22ª Conferência Internacional sobre a AIDS acontece em Amsterdã, na Holanda © Reuters

Mais prevenção e menos repressão às populações em risco. Estas são as principais mensagens da 22ª Conferência Internacional sobre a AIDS que acontece até sexta-feira (27) em Amsterdã, na Holanda, e que reúne especialistas e celebridades.


Milhares de pesquisadores, ativistas e portadores do vírus HIV discutem sobre os riscos de contágio, novos medicamentos e estratégias para evitar a volta da epidemia que já causou 35 milhões de mortes. O objetivo é impulsionar o combate contra a doença que, segundo os especialistas, está perdendo terreno em algumas partes do mundo.

"No Leste Europeu e Centro da Ásia as novas infecções aumentaram 30% desde 2010", alerta a presidente da International AIDS Society (IAS), Linda-Gail Bekker.

"Esta conferência colocará o foco na única zona do mundo onde o HIV aumenta rapidamente, em grande medida devido ao uso de drogas injetáveis", acrescentou.

"Apesar dos notáveis avanços realizados, o progresso para acabar com a AIDS é lento", denunciou Tedros Ghebreyesus. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que não serão cumpridos os objetivos de 2020 da ONU relativos à AIDS "porque há lugares demais no mundo onde as pessoas não obtêm os serviços de prevenção e tratamento que necessitam".

Atualmente, 36,9 milhões de pessoas vivem com o vírus HIV, esperando não desenvolver a doença. Quase três de cada cinco fazem tratamentos com antirretrovirais para evitar a AIDS, a proporção mais alta já alcançada até hoje.

O número de infecções diminui e, pela primeira vez desde o início do século, o total de mortes anuais foi inferior a um milhão em 2016 (990.000) e de novo em 2017 (940.000).

"A última vez que falei aqui, em 1992, não podia imaginar que voltaria 26 anos depois, vivo e em bom estado de saúde", comenta David Barr, um ativista americano soropositivo. Mas este êxito é "incrivelmente frágil", advertiu, temendo um retorno "ao horror de 1992", quando houve uma onda de infecções e mortes.

Queda nos recursos para prevenção preocupa

No ano passado, € 20,6 bilhões foram dedicados a programas de luta contra a AIDS em países com rendas baixas e médias, que financiaram por conta própria 56% dos programas, segundo a UNAIDS. Mas o organismo da ONU de luta contra a doença calcula que faltam U$ 7 bilhões por ano para que ela deixe de ser uma ameaça para a saúde pública mundial, até 2030.

A redução do financiamento internacional e o relaxamento da prevenção são algumas das principais ameaças. Nesse cenário, especialistas temem um retorno da epidemia. "Vamos ter problemas se não houver mais dinheiro", afirma o pesquisador americano Mark Dybul, ex-dirigente do Fundo Mundial de Luta contra a AIDS. A comunidade de pesquisadores e de associações teme, sobretudo, a redução das contribuições americanas. Desde que Donald Trump foi eleito presidente, os Estados Unidos, historicamente o principal contribuinte nessa luta, advertiram sobre possíveis cortes orçamentários que, por enquanto, não foram concretizados.

"Não à guerra contra as drogas"

A melhora generalizada da situação da epidemia no mundo esconde as fortes disparidades existentes. As infecções aumentam em cerca de 50 países, seja pela falta de prevenção ou devido às legislações repressivas contra as populações de risco, como homossexuais e dependentes químicos. Por isso, as associações pressionam autoridades políticas internacionais para que deixem de reprimir a toxicomania e privilegiem os programas de redução de riscos, proporcionando, por exemplo, seringas esterilizadas ou salas de consumo.

"Diga não à guerra contra as drogas", pede a reunião de associações Coalition PLUS em uma campanha que modifica um conhecido lema antidrogas americano da era Regan, nos anos 1980: "Diga não" às drogas. De fato, a guerra contra as drogas é "a melhor aliada das epidemias de HIV e hepatites virais" e "levou a uma verdadeira catástrofe de saúde", denuncia a Coalition PLUS.

Novo fundo de mais de U$ 1 bilhão reforça o contra-ataque

Capitalizar o poder de ativistas famosos é uma das estratégias dessa guerra. Enquanto os cientistas falam de resultados decepcionantes na busca por uma cura, o cantor Elton John e o príncipe Harry anunciaram um novo fundo internacional de US$ 1,2 bilhão para "quebrar o ciclo" de transmissão do HIV.

A iniciativa lançada pela dupla, batizada "MenStar Coalition", reúne diferentes parceiros, incluindo a organização das Nações Unidas Unitaid e o plano de emergência americano PEPFAR

O foco do programa são os homens jovens, grupo em que a infecção pelo vírus está crescendo. "Os progressos pelos quais lutamos estão sendo minados pela complacência perigosa", alertou Harry.

Após o anúncio da criação do fundo, o cantor criticou a Rússia e os países do Leste Europeu. "Esses países praticam uma política de discriminação significativa contra membros da comunidade LGBT", disse Elton John. "Nós devemos lutar contra isso". O astro britânico, no entanto, amenizou suas observações, dizendo que a discriminação "não se concentra apenas no Leste Europeu", embora seja muito comum nesta região do mundo, de acordo com ele.

O cantor considera essencial "trabalhar com os governos" em questão. "Os políticos devem estar à altura do desafio. Eles podem acabar com essa epidemia rapidamente (...) por favor, pensem nos seres humanos como iguais", insistiu. "Se não existisse este sectarismo e este ódio, esta doença poderia ser erradicada muito mais rapidamente".

Já o duque de Sussex pediu à população mundial que se una para combater o "estigma mortal" em torno do HIV, falando de um "preconceito sempre presente".