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Europa vai às periferias para renovar a cena cultural do continente

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Matera, capital europeia da cultura em 2019, ao lado de Plovdiv, na Bulgária. Filippo MONTEFORTE / AFP

A partir de 19 de janeiro a Europa terá como embaixadoras culturais duas cidades da periferia do continente: Plovdiv, na Bulgária e Matera, na Itália. Para a pequena cidade da região da Basilicata, no sul da península italiana, ser escolhida Capital Europeia da Cultura 2019 é a maior conquista após ter sido declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1993.


Rafael Belincanta, de Matera

Mas nem sempre foi assim. Até o início dos anos 1950, as grutas que hoje são atração turística eram casas de milhares de pessoas que viviam em condições insalubres, dividindo o espaço com animais. Matera chegou a ser chamada de “vergonha da Itália” pelas precárias circunstâncias de se viver dentro das grutas. A denúncia levou à construção de novas casas e, após a remoção forçada das famílias, as grutas passaram por um período de abandono.

Esquecida por quase quatro décadas, Matera renasceu após sua inclusão na lista da UNESCO e de ser cenário para produções de Hollywood. Hoje recebe milhares de turistas. Eles querem conhecer sobretudo os “Sassi”, dois bairros inteiramente escavados na rocha calcária que delineiam o perfil da cidade antiga e guardam segredos seculares, como as quase 160 igrejas rupestres, um elemento fundamental da cidade.

“Os ‘Sassi’ impressionam pela sua beleza, mas quando se visita Matera não basta ver do alto, é preciso entrar em alguns lugares”, afirmou Antônio Rubino, guia turístico em Matera. “É preciso entrar em um restaurante para experimentar a profundidade de cerca de 20m, ou nas igrejas rupestres para ver como foram decoradas com afrescos e milagrosamente escavadas na rocha. Essa arquitetura em negativo é o grande patrimônio que os nossos antepassados nos deixaram”, completou.

Tesouros escondidos

Em busca desses patrimônios escondidos, as Capitais Europeias da Cultura saem do eixo das grandes cidades do continente, colocando as periferias da Europa no centro dos acontecimentos culturais. Assim, Matera vai se transformar em um grande palco a céu aberto com mais de 50 produções originais, cinco grandes mostras e centenas de espetáculos. Com um passaporte no valor de €19, o público poderá participar de até cinco eventos diferentes ao longo da permanência do visitante.

Para isso, o conselho da diretora cultural Arianne Bieou é evitar o “bate e volta”. “É um convite a não ficar somente um dia para conhecer a cidade, que merece. Mas também permanecer um pouco mais para os eventos. É um convite para entrar no ritmo do sul e mergulhar no tempo que essa cidade inspira”, disse à RFI.

"Open Future"

Por muito tempo o sul da Itália ficou à margem dos grandes investimentos realizados no país, o que levou a uma divisão entre sul e norte não somente em termos econômicos, mas também culturais. Para tentar equilibrar essa dissonância, o slogan escolhido para Matera 2019 foi “Open Future”.

“A herança mais importante é a intelectual. Acredito que seja fundamental investir em neurônios, não em tijolos. A grande inovação é fazer com que as coisas cheguem antes a Matera, do que em outras partes, porque é preciso ajudar a região a entender que não se está em competição, mas em cooperação para o desenvolvimento”, afirmou o diretor geral Paolo Verri.

Verri aposta na cultura como instrumento fundamental para reiterar a coesão europeia e para superar a crise da democracia que caracteriza a atualidade política mundial. Para valorizar as expressões culturais da região, o programa de Matera 2019 tem como prioridade engajar os cidadãos, promovendo o sentimento de participação, a “share economy” e, sobretudo, o turismo sustentável.

A organização espera que cerca de 700 mil pessoas comprem um passaporte para participar das atividades culturais ao longo de 2019. Para evitar fluxos massivos de visitantes, a participação nos eventos terá que ser previamente reservada no site oficial da Capital Europeia da Cultura. Cada visitante também será convidado a doar um livro que irá compor uma nova biblioteca europeia em Matera.

Prós e contras

Gianantonio Romano, 18 anos, analisa os aspectos positivos e negativos da sua cidade estar no centro dos holofotes da cultura europeia. Sem parar o trabalho de transformar um pedaço da típica rocha calcária em uma pequena reprodução dos “Sassi”, ele diz que nem tudo o que foi prometido em melhorias urbanas está sendo feito.

“Veja só esse bueiro aqui, está aberto há dois meses. Já reclamei, mas ninguém vem arrumar”, diz. “Por outro lado, com a visibilidade que a cidade vem ganhando, mais turistas estão chegando e isso é bom”, ponderou.

Num dos galpões de produção na periferia de Matera, o jovem artista Giovanni Bruno jamais imaginou que pudesse crescer artisticamente na sua terra. “É uma grande oportunidade para esta parte da Itália, que parece ter sido quase sempre deixada por conta própria, sem apoio. Em vez disso, com Matera 2019, se parte do sul para convergir com o norte e o resto do mundo”, destacou.

Giovanni foi um dos seis jovens aprovados para um estágio no projeto coordenado por Paolo Baroni, renomado cenógrafo responsável pela construção do “Atlas das Emoções”, obra inédita que se inspira em festividades e tradições locais. Baroni, que é do norte da Itália, aposta no sucesso de Matera 2019. “Espero que seja o início de um novo percurso para o sul, porque as oportunidades estão aí, é preciso aproveitá-las bem”.