rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês
O Mundo Agora
rss itunes

Acordo para o Brexit mantém Reino Unido ligado à UE

Por Alfredo Valladão

Ser ou não ser europeu? O Reino Unido vive numa permanente crise de nervos com  perspectiva do “Brexit”. Tanto os que querem cortar as amarras quanto os que não querem sair do porto, já estão denunciando o acordo com a União Europeia – um calhamaço de mais de 500 páginas, negociado pela primeira-ministra Thereza May. E Londres, por enquanto, só conseguiu tratar as cláusulas do divórcio. As futuras relações entre a Grã-Bretanha e o Continente ficam para depois, e vão ser preciso mais dois anos, no mínimo, para resolver a pendenga.

Na verdade é muita areia para um pífio caminhãozinho. Tirando todo o jargão tecnocrático, o documento resume-se a uma transação que tem pouco a ver com o Brexit. Sim, o Reino-Unido recupera plena soberania para aceitar ou não novos imigrantes, sejam eles europeus ou extracomunitários. E apesar disso, pode continuar a fazer parte da União Aduaneira europeia em matéria de comércio de bens durante todo o período da negociação de um acordo final.

Só que esse arranjo tem tudo para manter os britânicos atrelados à União Europeia para sempre, e numa condição bem pior do que agora. A cláusula da manutenção provisória no mercado comum europeu era fundamental para impedir uma fronteira física entre a República da Irlanda, membro da União Europeia e a Irlanda do Norte, membro do Reino-Unido.

A livre circulação de bens e pessoas é a base dos acordos que estabeleceram a paz na ilha depois de décadas de conflito. E a única solução foi obrigar a Grã-Bretanha inteira a permanecer na integração comercial do resto do continente. Mas isto significa que Londres não vai poder negociar acordos comerciais com terceiros – isto é prerrogativa da Comissão de Bruxelas – e vai ter que se submeter à Corte Europeia de Justiça em caso de litígios e a todas as regulamentações europeias. E ainda por cima, sem poder apitar: os Britânicos perdem o direito de voto dentro das instituições europeias.

Desde o referendo sobre o Brexit, os dirigentes políticos e empresariais britânicos sabiam perfeitamente que abandonar a Europa significava ter que perder influência para poder manter o acesso ao mercado. E mesmo assim já tiveram que engolir a recusa europeia de aceitar a presença no continente dos serviços financeiros da City de Londres.

Escolha era entre Brexit "duro" e total

Do ponto de vista econômico e suas consequências sociais, a escolha era entre um Brexit “duro” e total, que provocaria uma crise catastrófica, e um Brexit “leve”, onde as ilhas britânicas salvavam a própria economia mas viravam reféns da União Europeia. E como a questão irlandesa não tem outra solução e não vai desaparecer tão cedo, o acordo provisório negociado por Thereza May tem tudo para acabar sendo definitivo – depois de mais alguns anos de negociação. Não é à toa que os “Brexiters” mais convencidos, denunciam um falso divórcio.

No final das contas, ele acaba com os sonhos nostálgicos de uma volta ao Império Britânico, comerciando com o mundo inteiro nos seus próprios termos sem dar satisfação aos seus parceiros europeus – que aliás também representam o seu principal mercado, e de longe. Mas os que não queriam o Brexit também não estão gostando: perderam o mercado financeiro continental e não tem mais meios de influenciar a política econômica e comercial da União Europeia.

O problema agora, com tantas oposições, é saber se esse acordo vai conseguir passar pelo voto do Parlamento. Não é impossível, mas vai ser difícil. Também a própria primeira-ministra não sabe se vai ou não ser defenestrada pela ala mais radical do seu próprio partido. Nos dois casos, sobra só uma alternativa: ou um Brexit definitivo e catastrófico no dia 29 de março próximo, ou um novo referendo para ver se os eleitores britânicos mudaram de ideia. E mesmo se isto acontecer, o país vai continuar profundamente dividido. Mas se May ganhar a parada, vai mostrar que tem tutano de um Winston Churchill.

Opinião: Crise dos coletes amarelos pode paralisar a França por muito tempo

Opinião: reivindicação permanente de igualdade faz parte do DNA dos franceses

Movimento francês dos coletes amarelos revela onda de rejeição inédita no país

Política externa de governo Bolsonaro deve priorizar relações com países ricos

Opinião: Brasileiros viraram reféns de minorias extremistas que polarizaram a sociedade