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Brasileira recebe prêmio em Berlim por proposta anticorrupção

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Gisela Pires Foz de Barros recebe o prêmio Futuro contra a Corrupção de Patrícia Moreira, diretora-geral da Transparência Internacional, e Henrietta Kötter, do ministério do Desenvolvimento alemão. Divulgação

A advogada Gisela Pires Foz de Barros recebeu nesta quarta-feira (12) o prêmio “O Futuro contra a Corrupção”, em Berlim. Organizado pela ONG Transparência Internacional, o concurso foi disputado por mais de 200 jovens do mundo todo. A proposta de Gisela é levar o tema para as salas de aula no Brasil.


Por Cristiane Ramalho, correspondente da RFI em Berlim

Gisela Pires Foz de Barros, uma jovem advogada paulista de 24 anos, quer abrir uma nova frente de combate à corrupção nas escolas primárias e secundárias brasileiras. E assim combater o desvio de verbas públicas no país. Na proposta, uma das três vencedoras do prêmio da Transparência Internacional, Gisela sugere que o tema passe a ser discutido de forma sistemática pelos alunos.

“Não precisa ser incluído no currículo. Basta adotar um programa que estimule os jovens a pensarem sobre o tema de forma criativa, com jogos, gincanas e brincadeiras. Assim, o que é chato passa a ser divertido”, disse Gisela à RFI. O modelo poderia, segundo ela, ser semelhante ao Proerd – “que hoje leva para as escolas a discussão sobre as drogas”.

Recém-formada em Direito pela PUC de São Paulo, Gisela quer que os jovens passem a discutir o que é certo e errado, inclusive nas pequenas ações do cotidiano, e percebam as conseqüências da corrupção para a sociedade como um todo.

“A gente pensa sempre na figura do político corrupto, mas esquece que ele foi corrompido por outras figuras que também se beneficiaram”. É preciso lembrar, diz ela, que o dinheiro desviado poderia estar sendo usado na educação, na saúde, na segurança. “São somas exorbitantes que poderiam mudar a realidade brasileira”. Além disso, os jovens devem aprender a monitorar a esfera pública, acredita.

Se livrar da blitz

O fato de ter morado na cidade de Osasco ajudou a moldar a sua sensibilidade. “Querendo ou não, a gente acaba tendo contato com a desigualdade e a miséria. Desde cedo entendi que aquilo era resultado de corrupção. O Brasil tem tantos recursos naturais. Mas acaba sendo prejudicado por uma pequena parcela”.

Gisela já estava na faculdade quando houve o desastre de Mariana, que definiu o rumo de sua carreira. “Fiquei devastada ao perceber como nenhuma fiscalização foi capaz de impedir aquilo. E comecei a pensar em como contribuir para mudar esse panorama”.

O caminho surgiu durante um estágio, quando tomou contato com as novas leis que responsabilizam as empresas pelos atos de corrupção. “A área de compliance é muito recente no Brasil. Mas esses mecanismos para ajudar no controle interno, com ferramentas como canal de denúncias e código de ética, podem realmente estancar uma das maiores fontes de corrupção”.  

Para a jovem, de forma geral, o brasileiro mudou de postura em relação à corrupção. “Muitas pessoas hoje têm vergonha de dizer que pagaram para se livrar de uma blitz. Antes, isso era contar vantagem”, diz ela.  

Quando compara com a geração dos pais, sobretudo, percebe que o país já caminhou muito - embora ainda tenha uma longa estrada pela frente. "O Brasil é muito imaturo, mas já avançou bastante. Ainda está fácil para os políticos, mas nós somos muitos. A gente consegue chegar lá”, aposta.

A diretora-executiva da ONG, Patricia Moreira, disse à RFI que um dos grandes desafios para organizações de combate à corrupção é engajar os mais jovens em projetos voltados para produzir mudanças. Mas ajudá-los a fazer a ponte entre a corrupção e os temas que têm impacto no seu cotidiano é fundamental - daí a ideia do prêmio. “Quem mais poderia levar essa causa adiante, se não eles?”, pergunta Patricia.

Entregue na sede do Ministério alemão para Cooperação Econômica e Desenvolvimento, parceiro da iniciativa, o prêmio marca o Dia Internacional da Luta contra a Corrupção, comemorado no último domingo, 9, e os 25 anos da Transparência Internacional,  ONG que tem sede em Berlim. Além de Gisela, jovens do Quênia e da Indonésia também receberam o prêmio.