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Fechamento da cripta de Mussolini para visitantes tem fundo de batalha eleitoral na Itália

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Entrada da capela onde se encontra a cripta com os restos mortais de Mussolini, em Predappio, no norte da Itália. Wikipedia

A família do ex-ditador italiano Benito Mussolini (1883-1945) fechou ao público a cripta onde estão sepultados os restos mortais do líder fascista desde 1957, na cidade de Predappio, no norte da Itália. Uma das netas de Mussolini, Edda Negri Mussolini, explicou estar cansada de pagar as despesas de manutenção do local, que recebe 100 mil visitantes por ano, segundo informações da rádio France Inter.


A decisão pegou de surpresa os 6.500 habitantes da cidade. A porta de acesso à cripta foi trancada com um cadeado e um pequeno cartaz informa que as visitas estão suspensas. A medida revolta os donos de restaurantes, cafés e lojistas que vivem da venda de recordações do "Duce", como era chamado o fundador do fascismo, um termo em latim que significa "guia" ou "chefe".

Os nostálgicos de Mussolini, neofascistas que costumam se vestir de preto e andar de cabeça raspada, já não dispõem desse local de culto para fazer a saudação nazista ou depositar flores para o ex-ditador, que esteve no poder na Itália de 1922 a 1943, antes de ser fuzilado ao lado da amante em 1945.

Recentemente, no dia 25 de março, vários grupos extremistas italianos tentaram festejar o centenário das milícias fascistas criadas por Mussolini, mas deram com o nariz na porta no caso da cripta de Predappio. A neta do ex-ditador, Edda Mussolini, explicou que o túmulo de seu avô havia sido restaurado recentemente e a família não está disposta a continuar pagando sozinha os custos de manutenção do local, principalmente com o crescimento da peregrinação de simpatizantes dessa ideologia racista, nacionalista e xenófoba, próxima da retórica do atual líder da extrema direita italiana, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini.

Comunistas podem perder prefeitura para candidato apoiado por Salvini

Quando os restos mortais de Mussolini foram transferidos para sua cidade natal, em 1957, doze anos após sua morte, a população protestou. Em 1971, a cripta do ex-ditador chegou a ser destruída por uma explosão a bomba. Esse atentado marcou o início dos "anos de chumbo" e da ação de movimentos guerrilheiros de extrema esquerda no país. Anos mais tarde, a prefeitura comunista cedeu ao apelo da reconstrução do sepulcro pela demanda turística e pelas receitas geradas aos comerciantes da cidade.

O jornalista Anthony Bellanger, da rádio France Inter, acredita que o fechamento da cripta de Mussolini pode ser temporário. A família do "Duce" quer que a prefeitura contribua com as despesas de manutenção do túmulo. Algo inimaginável no momento, já que Predappio é dirigida há 70 anos pelos comunistas. Mas os ventos mudaram na Itália, que volta a ser a meca do populismo nacionalista na Europa ocidental.

Daqui a dois meses, haverá eleições municipais. As pesquisas de intenção de voto mostram que os comunistas podem, pela primeira vez no pós-guerra, perder o município de Predappio. E para quem? Para o candidato apoiado pelo líder da extrema direita Matteo Salvini.

O jornalista Anthony Bellanger acredita que a neta de Mussolini trancou a cripta para provocar a revolta dos comerciantes com a administração comunista. Se o candidato aliado de Salvini ganhar a eleição, ele provavelmente vai financiar de bom grado a manutenção do túmulo de Mussolini. Não há razão aparente para a família do "Duce" se privar dessa contribuição providencial, acredita o editorialista da rádio France Inter. Até lá, a cripta recém-restaurada permanecerá bem preservada.