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Alta da demanda levanta dilemas da industrialização da agricultura orgânica

Por Lúcia Müzell

Preocupados com a saúde e o meio ambiente, a cada ano, mais consumidores europeus passam a consumir produtos orgânicos. O aumento da demanda leva o setor a se questionar: a industrialização é incompatível com os valores de uma agricultura que almeja ser mais sustentável?

Na França, esse mercado sobe na altura de € 1 bilhão a mais em vendas de 2017 para 2018, quando as receitas chegaram a € 9 bilhões. De um lado, supermercados correm para atender a clientela crescente e pressionam por preços mais baixos – o que só é viável se a produção sem agrotóxicos passar a ser massiva, mas com técnicas semelhantes às da agricultura tradicional.

De outro, defensores de uma agricultura local e de proximidade alegam que renunciar a esses princípios é trair a confiança dos consumidores e colocar em xeque um modelo mais sustentável, que respeite os solos e se preocupe com o bem-estar animal.

Para David Leger, da Federação Nacional da Agricultura Orgânica da França, o dilema se concentra sobretudo no futuro da produção de carnes e ovos, ou seja, quando impacta na vida de aves, porcos ou gado. “É incompatível, sim, no sentido que o mercado orgânico existe graças aos consumidores. E o risco é que os nossos clientes não são a favor da industrialização do setor. Estamos assumindo o grande risco de enganá-los”, afirma Leger.

Novas regras europeias devem definir quantidade de galinhas por granja

As novas regras da agricultura orgânica estão sendo finalizadas em nível europeu e passarão a valer em 2021. Estão sobre a mesa decisões como a autorização de aquecimento de estufas para a produção de ervas e saladas e a quantidade máxima de aves por galinheiro, em especial nas granjas de ovos.

Hoje, os ovos orgânicos são o carro-chefe do setor e já atingem 12% do mercado na França. A federação francesa briga para que o limite autorizado não ultrapasse 9 mil galinhas.

Mas na Itália, por exemplo, já existem granjas de ovos orgânicos com até 100 mil aves. A regulamentação atual estipula apenas o espaço mínimo por galinha dentro e fora da granja e determina o que elas podem comer.

“Talvez seja apenas necessário que o mercado seja paciente e espere que os produtores construam mais galinheiros, não necessariamente maiores. Precisamos de mais galinheiros, em mais produtores”, observa Leger. “Foi assim que funcionou até agora.”

Industrialização não é difícil – mas é ética?

O jornalista ambientalista Frédéric Denhez, autor de diversos livros sobre o tema, entre eles “Acheter Bio? (Comprar Orgânico?, em português), avalia que, tecnicamente, a industrialização dos orgânicos não é difícil de ser implementada, já que a principal regra consiste em não utilizar agrotóxicos e adubos industriais, nem produtos transgênicos. Outros pontos, como o excesso de embalagens e a importação, são importantes no trabalho de conscientização dos consumidores, mas não fazem parte das normas em vigor.

“É preciso decidir as nossas prioridades. Não queremos mais galinhas em gaiolas? Ótimo, teremos galinhas ao ar livre e ovos orgânicos. O problema é que o consumo de ovos continua a aumentar”, pontua o jornalista. “Não vamos poder fornecer tantos ovos produzidos dessa forma, em especial aqui na França, onde tantos produtores agora fazem orgânico. Isso significaria termos propriedades gigantescas onde as galinhas pudessem passear – e isso me parece ser bem difícil de implementar.”

Selo de produtos orgânicos na França, onde consumo aumenta a cada ano. MYCHELE DANIAU / AFP

Porém, para Denhez, é impossível dissociar a questão do debate sobre o consumo excessivo de proteína animal, nocivo ao meio ambiente. “Se queremos uma agricultura orgânica como eu imagino, ou seja, próxima da natureza e do homem, será uma agricultura que terá de exigir que as pessoas consumam menos carne, menos ovos. Isso é inevitável”, constata.

Menos polêmica sobre frutas e legumes

O consenso sobre a industrialização parece ser mais fácil a respeito de frutas e legumes. A própria federação francesa reconhece que será “positivo para a sociedade” se a população puder dispor de cada vez mais vegetais orgânicos na mesa, embora isso implique que a produção seja mais mecanizada e menos local do que atualmente.

“Há um grande futuro nessa área. A industrialização de frutas e legumes choca menos porque não vamos mexer com animais”, destaca Leger. “Em legumes, são grandes estruturas existentes que se convertem em orgânicos, ou seja, temos menos agrotóxicos, mais biodiversidade e bem mais mão de obra, mesmo se são produções mecanizadas.”

Apenas no ano passado, 6.200 agricultores franceses passaram a produzir alimentos orgânicos, um recorde.

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