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Eleições europeias: extrema direita e esquerda radical atraem jovens candidatos na França

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Jordan Bardella e Landry Ngang (d) estão entre os mais jovens candidatos para as eleições europeias Fotomontagem RFI

As eleições europeias são permeadas pelo clima de aumento do populismo no Velho Continente, com temas de cunho nacionalista se sobressaindo nos debates em vários países do bloco. Nesse contexto, os partidos de extrema direita e extrema esquerda ganham cada vez mais voz, atraindo muitos jovens entre seus candidatos. A RFI encontrou dois dos novatos que concorrem no pleito na França.


As pesquisas de opinião para as eleições europeias na França repetem o cenário da presidencial de 2017. Se a reta final da corrida pelo Palácio do Eliseu foi disputada entre Emmanuel Macron, do partido A República em Marcha (LREM, centro), e Marine Le Pen, da Reunião Nacional (RN, extrema direita que na época se chamava Frente Nacional), o pleito desse mês de maio corre o risco de ser um remake, já que a legenda do governo e os populistas de direita acumulam a maior parte das intenções de voto até agora.

A principal representante do partido de Macron, Nathalie Loiseau, peca por falta de carisma e foi acusada de proximidade suspeita com a extrema direita em seus anos estudantis. Mesmo assim, ela conta com o apoio do partido e tem grandes chances de vencer o pleito. Ela disputa o primeiro lugar com a surpresa da eleição: Jordan Bardella, candidato de 23 anos do partido de Marine Le Pen, que pode se tornar um dos mais jovens eurodeputados da história.

O rapaz se orgulha de ter começado na política aos 16 anos, colando cartazes como cabo eleitoral mirim para a então Frente Nacional. “O fato de ter crescido na periferia, em um conjunto habitacional popular, me levou a entrar na política, pois como todos que vivem nessa situação, eu tive que enfrentar a violência, os guetos e a falta de segurança”, explica o candidato. “Mas também porque venho de uma família modesta e vi minha mãe chegar ao fim do mês com apenas 15 euros no bolso”, conta o candidato vestindo um terno bem cortado que faz esquecer esse passado pobre.

“Me chamem de populista”

Mesmo se segue os passos da família Le Pen, Bardella não gosta quando o termo extrema direita é associado a seu nome, respeitando a retórica habitual dos membros de seu partido. “Não somos de extrema direita. Esse é o adjetivo que tentam dar a quem pensa diferente das ideias dominantes há 40 anos”, retruca.

Mas afirma ter afinidades com o ministro italiano das Relações Exteriores, Matteo Salvini, e com o premiê húngaro, Viktor Orbán. “Salvini é apoiado por 70% dos italianos. Isso não quer dizer que 70% dos italianos são de extrema direita. Somos partidos do bom-senso. Podem até nos chamar de populistas. Mas se ser populista é defender o povo, então esse adjetivo me convém”, se defende.

Mesma periferia, mas discursos diferentes

Do outro lado do tabuleiro político nessa eleição europeia, a esquerda radical também atrai os mais jovens. É o caso de Landry Ngang, de apenas 19 anos, que vem da mesma periferia que Bardella e é estudante universitário de Sociologia e Ciências Políticas. Mas ao contrário do pupilo de Marine Le Pen, que já foi eleito no Conselho Regional em 2015 para um cargo equivalente a deputado da região parisiense, Ngang estreia na política. Além disso, seu look despojado, sem terno e com tranças nos cabelos afro, mostram uma diferença clara de estilo e de retórica.

“Durante as eleições presidenciais de 2017, comecei a me interessar pelos movimentos políticos, os partidos e suas ideias. Queria saber o que eles defendiam e se correspondia aos meus valores”, relata. “Acabei me sentindo mais próximo do partido A França Insubmissa (da esquerda radical) e de seu líder, Jean-Luc Mélénchon”.

Ser jovem não basta

Ambos defendem a juventude como uma qualidade. Mesmo se Bardella prefere ver esse aspecto apenas como uma característica, alegando que em seu partido tudo se faz em equipe e que muitos candidatos têm bastante experiência.

Já Ngang estima que a juventude é sua principal vantagem, pois afirma trazer um olhar diferente sobre cenário político, principalmente em temas como a ecologia. Mas pondera: “Não basta ser jovem. As ideias têm que ser jovens. Emmanuel Macron pode até ter 40 anos, mas faz uma política de (Margaret) Thatcher. Uma política que data de 20, 30, 40 anos atrás”, diz.

Candidato e “colete amarelo”

Como Bardella, Ngang é bastante crítico sobre o atual presidente francês. Mas o candidato do partido A França Insubmissa veste também a camisa de militante quando não está em campanha ou se preparando para as provas na universidade. Prova disso: ele foi visto várias vezes nas manifestações dos “coletes amarelos”, movimento de protesto contra a queda do poder aquisitivo que sacode a França há cinco meses.

“Os ‘coletes amarelos’ não são simplesmente golpistas, ou pessoas que querem pagar menos impostos. São apenas cidadãos que pedem justiça social e fiscal, dois dos principais combates de A França Insubmissa. Eu admiro esse movimento, por isso manifesto com eles”, argumenta.

Imigração cria divergência

Os dois jovens candidatos também divergem em termos de política migratória. Bardella segue à risca a cartilha populista de Salvini e Orbán. “Quando você entra em sua casa há sempre uma porta. Você decide quem entra ou sai. Nosso projeto consiste em colocar novamente portas na ‘casa França’”, reivindica. “Essa livre circulação de bens e de pessoas – permitida pelo Espaço Schengen – é algo bonito só no papel, pois vimos que ela também é a livre circulação de armas, drogas e terroristas, que transitam entre a França e a Bélgica”, argumenta.

Para Bardella, a França não pode acolher toda a miséria do mundo, como dizia a primeiro-ministro socialista Michel Rocard no final dos anos 1980. “Diante da situação econômica atual de nosso país, com 6 milhões de desempregados e 10 milhões de pobres, não podemos receber mais imigrantes”, insiste o candidato da extrema direita. “Eu defendo que reservemos os meios do nosso Estado para os nossos compatriotas. Considero que não devemos gastar um euro sequer com um imigrante enquanto um único francês não tiver uma casa para morar”.

Um vírus não pergunta se imigrante é legal ou ilegal

A declaração irrita Ngang. “Não se deve comparar a pobreza ou a miséria das pessoas”, diz o candidato da esquerda radical, lembrando que Bardella também questiona o acesso aos serviços públicos de saúde aos migrantes. “É preciso lembrar que um vírus não pergunta a um imigrante se ele é legal ou ilegal. Ele se propaga por toda a parte, entre franceses e estrangeiros”.

“Essas pessoas não deixaram seus países para passear pela Europa. Muitas atravessaram a Líbia, algumas se tornaram escravas e outras morreram no mar Mediterrâneo. Se conseguem chegar em nossas águas, no mar Mediterrâneo, temos o dever humano e jurídico de salvá-las e acolhê-las dignamente em nosso território”, martela.

Mas há um ponto no qual os discursos dos dois candidatos convergem. Ambos concordam que as eleições europeias interessam cada vez mesmo a população. Para os dois jovens, os eleitores não se sentem atingidos pelas decisões tomadas em Estrasburgo ou em Bruxelas, sedes do Parlamento e da Comissão Europeia, mesmo se defendem a importância do pleito. A tal ponto que, ao serem questionados sobre qual será a prioridade se forem eleitos no dia 26 de maio, ambos respondem praticamente com a mesma frase: “dar novamente o poder ao povo”. Um slogan que sempre funciona entre os extremos, independentemente da idade ou do pólo que ocupe no tabuleiro político.