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Em guerra contra o plástico, França resgata hábito de devolução de garrafas

Por Lúcia Müzell

A França tenta recuperar o atraso na reciclagem de lixo, em relação aos vizinhos europeus, e lançou uma guerra contra os plásticos. Uma série de medidas contra o desperdício e para estimular a economia circular foram apresentadas pelo governo. Os produtos plásticos de uso único serão proibidos em 2020, as fabricantes terão de pagar mais pelo lixo que colocam no mercado e o princípio do retorno das garrafas será restaurado – não as de vidro, como no passado, mas sim as de plástico.

A secretária de Estado para a Transição Ecológica, Brune Poirson, ressaltou que o país está engajado em “transformar profundamente o modo de produção e consumo”, para um modelo mais sustentável. O objetivo é que 100% do plástico usado na França em 2025 seja reciclado.

As garrafas descartáveis, por exemplo, devem custar alguns centavos a mais, que poderão ser devolvidos se a embalagem vazia for entregue para a reciclagem. A medida visa cumprir a meta europeia de reciclar 90% das garrafas.  

canudos de plástico serão proibidos, entre vários outros produtos de uso único. © Isabel Pavia/Gettyimages

Na organização ambiental France Nature Environnement, a encarregada de questões institucionais Morgane Piederrière comemora a medida, mas acha que a França pode ir além e estimular melhor a reutilização dos recursos.

“Milhares de garrafas plásticas são jogadas fora nos cafés, hotéis e restaurantes. Em vez de descartá-las, os caminhões que entregam essas garrafas poderiam partir com elas vazias e lavá-las para um centro de reutilização”, explica Morgane. “Desta forma, poderíamos preservar muito os recursos, porque a reciclagem tem limites: não se pode reciclar para sempre um produto.”

Conserto quase impossível

Para ela, esse princípio se aplica não só para as garrafas, como a uma infinidade de produtos que, atualmente, acabam no lixo por falta de alternativa de conserto. Quem visita pela primeira vez a Europa costuma se surpreender com a quantidade de lixo incomum nas ruas, como impressoras, televisores, colchões ou móveis.

“Hoje, a reciclagem não basta. A prioridade máxima é fazer menos lixo. Para isso, é preciso desenvolver todas as atividades ligadas à prevenção do lixo, como os empregos no conserto e reutilização de produtos”, avalia a ambientalista. “Atualmente, se o micro-ondas estraga, é quase tão caro consertá-lo do que comprar um novo. As pessoas sequer sabem a quem recorrer para consertar.”

O pacote de medidas propostas pelo governo incita o reaproveitamento. As fabricantes passarão a ser obrigadas a informar melhor sobre as possibilidades de adquirir peças de reposição, uma reivindicação antiga dos ecologistas. Os produtos menos poluentes e com conserto e reciclagem possíveis terão reduções de custos, de até 20%.

“Quando você compra um produto na França, você não tem como sabe se existem peças para substituir as estragadas. Nunca sabemos se é possível trocar a bateria de um celular ou não por exemplo. Isso vai mudar com essa nova lei”, constata Morgane.

Governo vai prensar fabricantes de materiais de construção

Outra proposta bem-vinda pelas associações é a que reforça o chamado conceito de poluidor-pagador. As fabricantes de materiais de construção terão de colaborar com os custos da gestão dos dejetos de obras, que representam nada menos do que 70% do lixo produzido na França por ano.

Além das medidas governamentais, a sociedade civil também se organiza para melhorar a questão. Por todos os cantos do país, franceses se envolvem na redução do lixo, um desafio primordial para limitar a destruição do planeta.

A cidade de Roubaix, no norte do país, se tornou referência nas políticas de “lixo zero”, ao criar um selo que atesta o esforço de creches, escolas, restaurantes e até lojas para diminuir a quantidade de dejetos. É o caso da livraria Les Lisières.

“Insistimos na questão da embalagem para presente. Não é preciso comprar uma nova a cada presente. Tivemos a ideia de usar as dezenas de cartazes que recebemos na livraria, de editoras, campanhas publicitárias”, explica a gerente Emily Vanhee. “Os cartazes de espetáculos são muito bacanas e já faz tempo que os utilizamos como embalagem.”

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