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Protestos “contra golpe” de Johnson levarão milhares às ruas no Reino Unido

Por RFI

Milhares de pessoas pretendem voltar às ruas em várias cidades do Reino Unido neste fim de semana, contra a decisão do primeiro-ministro Boris Johnson de suspender os trabalhos do Parlamento por cinco semanas, a dois meses do Brexit. Críticos o acusam de atacar a democracia.

O Parlamento britânico ainda está em recesso de verão e volta ao trabalho na semana que vem. Mas, diante da iniciativa do governo, que teve a chancela protocolar da rainha Elizabeth II, terá poucos dias para debater o Brexit e até para reverter essa medida de suspendê-lo entre os dias 10 de setembro e 14 de outubro.

Era exatamente isso o que queria o primeiro-ministro: dar aos parlamentares pouco tempo para interferir no processo e evitar que costurassem uma forma de impedir um Brexit sem acordo, como vinham fazendo. Boris Johnson já disse que no dia 31 de outubro, a data prevista para que o Reino Unido deixe a União Europeia, o país sai com ou sem acordo.

Não se trata de uma iniciativa ilegal, nem incomum. A própria corte já deu seu parecer e confirmou a suspensão. Em geral, essa espécie de novo recesso acontece no outono, exatamente antes de o governo anunciar um novo programa anual para a legislação. A diferença agora está no fato de esta pausa ser mais longa do que o usual, em um momento crucial para o futuro do país, às vésperas do Brexit. O efeito prático da suspensão é reduzir o tempo daqueles que são contra a saída abrupta do Reino Unido da União Europeia, ou seja, sem um acordo.

Protestos “contra golpe” de Johnson

Por mais que seja legal, a avaliação de analistas é a de que a decisão não segue o espírito democrático do país. Pelo contrário: seria um ataque a uma das democracias mais consolidadas do mundo. Fala-se de abuso de poder – e foi o que levou milhares às ruas em pelo menos 10 cidades do país, horas depois do anúncio da medida, na quarta-feira (28).

Uma petição com mais de 1,5 milhão de assinaturas pede que a medida seja revertida. Para este fim de semana, já há mais de 60 protestos previstos para acontecer pelo país inteiro. Nas redes sociais, a coalizão daqueles que defendem a permanência do Reino Unido na União Europeia convocam manifestantes para o protesto “Pare o golpe, defenda a democracia”. Há quem defenda que a medida de Boris Johnson foi inteligente, para mostrar aos europeus que não há tempo para voltar atrás e, assim, tentar arrancar deles concessões. Mas a análise mais frequente é a de que se trata de uma iniciativa que demonstra fragilidade do governo, uma tentativa de Boris Johnson não só de garantir o Brexit, mas evitar a convocação de novas eleições gerais para tirá-lo do cargo.

Legitimidade questionada

O primeiro-ministro não foi escolhido em uma eleição geral, por um percentual significativo do Parlamento, que representa uma parcela importante da população. Por isso, o que está em questão é a sua legitimidade. Após a renúncia da sua antecessora Theresa May, os conservadores realizaram numa eleição interna entre os seus filiados apenas. Ou seja, foi um pleito de 92 mil pessoas, ou 0,1% do eleitorado britânico.

Além disso, os conservadores tampouco têm maioria entre os parlamentares na Câmara dos Comuns: dependem do apoio de dez deputados de um pequeno partido regional (o DUP, na Irlanda do Norte). A Escócia, a líder dos conservadores Ruth Davidson, anunciou a sua renúncia depois de oito anos no comando na legenda. Era ela quem segurava algum tipo de apoio para os conservadores na Escócia, onde garantiu assentos para o partido no Parlamento, apesar de a legenda ser historicamente impopular na região.

Nesta sexta-feira, um tribunal da Escócia rejeitou um recurso que tentava barrar a suspensão do Parlamento decidida por Johnson. A decisão do principal tribunal de Edimburgo é um novo revés para oposição britânica, que tenta ampliar o período de debates para evitar uma saída sem acordo da União Europeia.

Indefinições persistem

Diante de tudo isso, nem os analistas estão querendo prever o que acontecerá no futuro próximo no Reino Unido. A temperatura subiu e tudo pode acontecer, e o certo é que Boris Johnson fica desgastado com esse episódio.

Quanto ao Brexit, as incertezas continuam no ar, mesmo com todas as indicações do governo de que a saída da União Europeia acontecerá, custe o que custar. O fato é que continuam todos insatisfeitos, seja quem votou contra o Brexit ou a favor.

O referendo a partir do qual a população optou por deixar o bloco europeu foi convocado pelo partido conservador do ex-primeiro-ministro David Cameron e realizado em junho de 2016. O processo é doloroso, já dura mais de três anos e pode ter consequências imprevisíveis para o Reino Unido, se acontecer de maneira abrupta.

 

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