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Grécia Migrantes Crise migratória Turquia União Europeia

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“Não somos animais para sermos tratados assim”, diz migrante no maior campo de refugiados europeu

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Migrantes protestam após incêndio em Moria, na ilha de Lesbos, que acolhe o maior acampamento de refugiados da Europa. REUTERS/Giorgos Moutafis

O vilarejo de Moria, na ilha grega de Lesbos, é palco de tensões há alguns dias. Com 13 mil migrantes vivendo em condições insalubres, o acampamento já é o maior da Europa. O local havia sido concebido para acolher apenas 3 mil pessoas.


Joël Bronner, enviado especial a Moria

A Grécia enfrenta a sua maior onda de imigração clandestina desde 2016, quando o bloco europeu viveu o pico de uma crise histórica. Na época, os gregos acolheram cerca de 46 mil pessoas em um ano.

Mas agora, segundo o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas (Acnur), mais de 10 mil pessoas desembarcaram nas ilhas gregas vindas da Turquia apenas no mês de setembro. Os migrantes são provenientes principalmente do Afeganistão e da Síria.

O governo grego criou cinco "hotspots", locais que concentram os refugiados que conseguem alcançar o litoral ou que são resgatados no mar Mediterrâneo, próximos da costa do país. Esses centros de acolhimento ficam nas ilhas de Lesbos, Samos, Kos, Chios e Leros.

Incêndio provocou protestos

Mas é em Lesbos, situada a apenas 10 km da costa turca, que está a maior concentração de migrantes. De acordo com a ONG sueca Lighthouse Relief, que atua na região, mais de 5 mil pessoas desembarcaram na ilha em apenas dois meses, vivendo desde então em contêineres e barracas de camping.

Vista aérea de Moria, na ilha de Lesbos, que se transformou em um acampamento gigante. REUTERS / Giorgos Moutafis

Esta semana, quase 400 migrantes, principalmente mulheres e crianças, se manifestaram contra as condições de vida no acampamento superlotado de Moria, o maior de Lesbos. Revoltados após um incêndio que deixou 17 feridos no domingo (29), eles pediam para deixar a ilha.

Famílias inteiras vivendo no meio do lixo

Situado a apenas 20 minutos do centro do vilarejo de Moria, o acampamento acolhe milhares de famílias, a maior parte afegãs. “Deixamos nosso país para um futuro melhor e acabamos aqui, na Grécia, no acampamento de Moria”, conta Sahar, uma jovem de 15 anos que vive com sua família em uma barraca ao lado de uma montanha de lixo. “Como você pode ver, nossa vida não é um paraíso. Fazemos fila desde as 5h da manhã. Fila para comida, fila para médico, fila para tudo. Temos muitos problemas aqui”, resume a adolescente, que fazia parte da seleção de basquete em sem país.

“Estamos preocupados, pois não temos a mínima ideia de quanto tempo vamos ter que ficar aqui. Muita gente chegou nesse acampamento há um ano ou até mais”, completa o cantor Samir, vizinho de Sahar. “Isso não é vida”, se desespera o rapaz, que espera deixar Lesbos rumo à capital Atenas, para onde foram enviados outros refugiados.

Tensões entre comunidades

Diante da insalubridade, das horas de espera e da promiscuidade, os conflitos aumentam. “Há tensões entre comunidades o tempo todo. Não vivemos um dia sem ter uma briga”, conta Patrice, opositor político camaronês, que está em Moria há quatro meses. “Já tivemos até casos de morte no meio dessas brigas”, alerta.

“Nós somos imigrantes. Temos que ser tratados como seres humanos. Não somos animais para sermos tratados assim”, se desespera Jean, originário da República Democrática do Congo.

O governo grego prometeu continuar transferindo os refugiados das ilhas para o continente. Mas a aceleração no ritmo dos desembarques torna cada vez mais difícil acolher os migrantes. Cerca de 250 pessoas foram levadas para Atenas na segunda-feira (30). No dia seguinte, o mesmo número entrou no país pelas praias de Lesbos.