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Espanha exuma restos mortais de Franco, enterrado ao lado de vítimas da guerra civil

A Espanha vive nesta quinta-feira (24) um dia histórico. O governo decidiu exumar os restos mortais de Francisco Franco, o general que comandou uma ditadura na Espanha por quatro décadas. O país era um dos únicos do mundo que mantinha o túmulo de Estado de um ditador.

Luisa Belchior, correspondente da RFI em Madri

Os restos mortais do ditador estavam dentro de uma igreja no Vale dos Caídos, um monumento próximo a Madri. Eles serão transportados de helicóptero para um cemitério discreto, o de El Pardo-Mingorrubio, no norte da capital espanhola. A exumação começou por volta das 11h, no horário local, anunciou o chefe de governo espanhol, Pedro Sánchez, durante uma coletiva de imprensa.

A exumação foi decretada pelo atual governo, que enfrentou na Justiça a família de Franco, além de uma legião de apoiadores do ditador. Até pouco tempo atrás, esse era um grande tabu na sociedade espanhola. Sobretudo porque a transição para a democracia, na década de 1980, foi gradual, seguindo um acordo com militares. Desde então, os governos não puderam ou não quiseram discutir o assunto, até que, no ano passado, o socialista Pedro Sánchez assumiu o poder no país e anunciou que, por decreto, tiraria os restos mortais de Franco do Vale dos Caídos, um monumento que pertence ao Estado e fica a uma hora de Madri.

A grande polêmica é que o Vale foi construído para abrigar corpos e restos mortais de combatentes da Guerra Civil espanhola, que terminou com o início da ditadura de Franco, em 1939, além de vítimas do próprio franquismo. O túmulo de Franco ficava em destaque dentro da igreja do local. A Justiça teve que entrar na história porque a família do general processou o Estado para tentar impedir a exumação e, depois, para exigir que os restos mortais fossem levados à catedral da Almudena, a principal igreja de Madri.

O governo foi contra, alegando que um dos objetivos da mudança era justamente retirar o túmulo de um local de visitação pública. E porque dizia considerar incompatível um túmulo de um ditador dentro de uma propriedade do Estado em uma sociedade democrática. A briga foi longa: durou um ano e quatro meses até que, nesta semana, o Supremo Tribunal da Espanha autorizou a exumação.

A ditadura franquista ainda é uma ferida aberta na sociedade espanhola, mesmo 43 anos após seu fim. Essa ditadura começou no fim da Guerra Civil Espanhola, em 1939, até 1976. Estima-se que, neste período, 114 mil pessoas desapareceram, a maioria em combates e perseguições políticas. Até hoje, muitas famíias não conseguiram resgatar os restos mortais desses desaparecidos. Muitos foram enterrados em valas comuns espalhadas por toda a Espanha.

Foi só na última década que essas valas começaram a ser escavadas. Por conta disso, a Organização das Nações Unidas já apontou a Espanha como um dos países que mais desrespeitam no mundo as vítimas de crimes cometidos pelo Estado. Por outro lado, até hoje há apoiadores do regime de Franco que, de forma mais ou menos discreta, seguem mostrando seu apoio ao ditador.

Visitas ao Vale dos Caídos dispararam

Houve muitas manifestações contrárias à retirada dos restos mortais de Franco. Em junho, quando Pedro Sánchez anunciou a exumação, as visitas ao Vale dos Caídos dispararam. Só naquele mês, o público visitante aumentou em 50% e chegou a 38 mil pessoas, segundo o governo. Algumas delas cantavam músicas da ditadura franquista e faziam gestos e saudações fascistas.

No centro do Madri, a exumação foi também criticada em protestos ao longo do ano e, no âmbito político, condenada fortemente pelo Vox, o partido de extrema direita que chegou ao Parlamento este ano. Pedro Sánchez rebateu as críticas alegando ser um passo necessário para enterrar, em suas palavras, as sombras da ditadura no país.

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