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Alemanha Berlim Muro de Berlim Queda

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Economia e preconceitos continuam a dividir alemães 30 anos após a queda do muro

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Turistas visitam o que resta do Muro de Berlim, preservado para a história. John MACDOUGALL/AFP

Quão unificada é a Alemanha 30 anos após a queda do Muro de Berlim? Entre as desigualdades trabalhistas e a demonização do passado comunista, as relações entre as duas Alemanhas permanecem complexas.


Sergio Correa, correspondente da RFI em Berlim

Durante décadas, foi muito fácil distinguir, no meio da agitação de Berlim, os alemães orientais, da República Democrática Alemã (RDA), comunista, dos ocidentais da República Federal Alemã, RFA, capitalista. Bastava perguntar de que cidade a pessoa vinha: um alemão ocidental responderia rapidamente, enérgico: Munique, Hamburgo ou Colônia. Seu colega oriental olharia para baixo e, como se procurasse algo perdido no chão, murmuraria: Brandemburgo, Dresden, Cottbus... Os alemães comunistas pareciam aqueles parentes pobres convidados para a festa graças a uma longínqua simpatia familiar pelos verdadeiros donos da casa, os alemães ocidentais.

Hoje, apenas 20% dos alemães ocidentais afirmam terem estado em qualquer uma das cidades que faziam parte da Alemanha comunista, embora constem entre elas algumas das mais importantes da história alemã: Weimar, Leipzig, Dresden. Um muro invisível que segue quase exatamente o mesmo desenho do velho muro de concreto que separava os alemães.

"Derrubamos o muro, mas para quê?"

“Após a queda de Muro, muitos de nós acreditávamos que agora teríamos a liberdade de escolher profissões ou nossos estudos. Que, sem controle político, poderíamos subir na escada social, mas, na realidade, aconteceu o contrário, muitos até baixaram de classe social. Os alemães orientais sofrem degradação desde 1990 ”, explica o sociólogo Steffen Mau, professor de sociologia na Universidade Humboldt, em Berlim, nascido e criado na Alemanha Oriental.

Apenas 4% das funções mais altas na administração pública da Alemanha unificada são ocupadas por alemães orientais e só 13% dos juízes no território da antiga Alemanha Oriental nasceram no local, assim como 70% dos gerentes de grandes empresas da Alemanha Oriental nasceram na Alemanha capitalista.

“Entre 80 e 90% de todas as posições mais importantes na sociedade foram preenchidas após a queda do Muro pelos alemães ocidentais. E, na Alemanha em geral, os alemães orientais ocupam apenas 1,7% dos cargos decisivos em política, na economia, na administração e na mídia. Alguns estudos mostram o verdadeiro sentimento dos alemães orientais: derrubamos o muro, mas, para quê? ”, observa Mau.

Três cientistas sociais, Ronald Gebauer, Axel Salheiser e Lars Vogel, publicaram um estudo neste ano que mostra que os alemães ocidentais que chegaram à antiga Alemanha comunista “se perpetuaram como uma elite, trazendo outros alemães ocidentais como eles para essa rede na Alemanha Oriental."

A privatização das empresas estatais da ex-Alemanha comunista foi adquirida em 80% pelos alemães ocidentais, 15% por estrangeiros e um mínimo de 5% pelos próprios alemães orientais.

Apesar dos anos dourados da economia alemã, que criaram na Alemanha Ocidental, entre 2005 e 2018, mais de 5 milhões de empregos, os territórios da antiga Alemanha Oriental possuem, em comparação com 1991 [dois anos após a queda do Muro de Berlim], 800.000 empregos a menos. O salário médio de um trabalhador permanente na Alemanha Ocidental é 30% superior à média da Alemanha Oriental.

Demonização da RDA

Mas nada piorou mais as relações atuais entre os dois lados do que a demonização do passado da Alemanha Oriental. Ninguém contesta que o comunismo fracassou e produziu infinitas injustiças, mas a tendência dos alemães ocidentais em tratar a RDA como uma espécie de campo de concentração dominado por proletários sádicos é insuportável para quem cresceu nela.

“Vivíamos como todo mundo, frequentávamos as mesmas escolas, os mesmos shopping centers, no tempo livre fizemos coisas semelhantes, era uma sociedade extremamente homogênea. A Alemanha Oriental ofereceu uma educação muito boa e abrangente a todos; os trabalhadores liam muito, iam ao teatro. Um trabalhador da RDA participava ativamente da cultura, tinha uma biblioteca em sua casa. A elite política sempre permaneceu restrita e vinha do proletariado: Erich Honecker, o penúltimo presidente da RDA, era um carpinteiro”, lembra Mau.

Mas a nostalgia ambivalente que ainda prevalece nos habitantes da Alemanha Oriental é impenetrável para os ocidentais.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk, em um artigo no jornal berlinense Tagesspiegel, tentou compreendê-lo: “O socialismo era de fato um estoicismo político, portanto, uma tentativa de alcançar, mantendo modestas condições de vida, uma soberania pessoal. É importante notar que uma parte importante desse esforço foi alcançada", diz o filósofo.

Felicidade "desenfreada"

"Os protestos das testemunhas desta época contra o desprezo por essa conquista são muito justificados. Esse desprezo vem de uma ideia tão compreensível quanto questionável, e é a aspiração por um conceito desenfreado de felicidade, que envenenou completamente a cultura moderna. Como os alemães orientais poderiam resistir a essa felicidade quando a grande maioria da Europa Ocidental e dos Estados Unidos a celebrava? ”, diz.

Grande parte do desastre climático parece dever-se às consequências da busca dessa felicidade na forma de consumo de produtos e serviços que um habitante do Ocidente capitalista sente como o campo fundamental e inatacável de sua liberdade. A melhor medida para evitar o desastre ambiental seria seguir um estilo de vida próximo a isso, que aparece como um "ascetismo socialista", mas todos entendem que é uma ideia quase insuportável para os milhões que marcham contra as mudanças climáticas.

A antiga Alemanha Oriental permaneceu 30 anos sem desaparecer no espírito de seus antigos habitantes. Alguns ressentimentos, humilhação e sentimento de desrespeito marcaram a atitude de muitos deles em relação ao Ocidente e certamente os levaram às fortes tendências da extrema direita que aparecem agora na população, que veem imigrantes estrangeiros como seus principais concorrentes na parte inferior da escada social.

Se 30 anos não foram suficientes para unir as duas Alemanhas, talvez seja porque os habitantes da desaparecida RDA nunca tiveram espaço para discutir o destino de seu país e de suas vidas. Mais do que uma reunificação, a união dos dois lados se resumiu em uma anexação, uma colonização da extinta RDA pela Alemanha federal que, até hoje, escreve sozinha essa história.