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Homenagens aos cartunistas de Charlie Hebdo tomam conta do Festival de Angoulême

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Exposição em homenagem aos chargistas do Charlie Hebdo no Festival de Quadrinhos de Angoulême, que começou nesta quinta-feira. AFP PHOTO / PIERRE DUFFOUR

Era inevitável: o Festival de História em Quadrinhos de Angoulême deste ano, o maior evento do gênero da Europa, não poderia deixar de ser marcado pela morte trágica dos cartunistas do jornal satírico Charie Hebdo. A 42a edição se iniciou nesta quinta-feira (29), repleta de homenagens aos chargistas que por tantas ocasiões estiveram entre os participantes do evento.


Por todos os lados, os cartazes “Je suis Charlie” indicam o apoio dos organizadores à redação do jornal, dizimada por terroristas há três semanas. Cerca de 40 capas emblemáticas do Charlie Hebdo foram espalhadas em diversos pontos da cidade. Um Grande Prêmio Especial do festival foi atribuído à publicação, na sede da prefeitura, e uma nova premiação permanente foi criada, o Prêmio Charlie Hebdo de Liberdade de Expressão. O primeiro a recebê-la também é o próprio jornal.

Além disso, foi montada às pressas uma exposição para retratar a trajetória da publicação. Uma História de Charlie conta como foi o início do jornal, quando Wolinski, Cabu e outros desenhistas criavam polêmica no Hara Kiri – uma edição mensal que, de tão ousada, chegou a ser proibida em 1970. Na semana seguinte, surgia o Charlie Hebdo, que não ficou para trás em levar páginas audaciosas às bancas.

A exposição, instalada na Cité Internationale de la Bande Dessinée et de l’Image, traz um vasto acervo de edições, que mostram o quanto os "tiros" do Charlie Hebdo vão para todos os lados – política, temas da sociedade, tragédias, polícia, religião.

A jovem Ambre trabalha com eventos e saiu emocionada da mostra. Há três anos, ela tinha conhecido pessoalmente quatro dos cartunistas mortos. "Fiquei um pouco decepcionada com a reação de algumas pessoas. Os adolescentes só querem saber quem morreu e como. Não entenderam nada sobre o debate que está em jogo e nem procuram por informações", lamentou. "Apesar disso, acho muito legal que o festival tenha decidido fazer homenagens, embora, por conhecê-los, eu saiba que eles não gostariam de nada disso, porque eles não buscavam receber elogios".

Je suis ou je ne suis pas Charlie?

As divergências sobre o trabalho feito pelos cartunistas não ficaram de lado, inclusive em um festival de histórias em quadrinhos. Apesar de condenar os ataques e defender a liberdade de expressão, a professora Genevieve afirma que, depois dos atentados, passou a questionar a necessidade de haver ou não limites para a imprensa.

"Fiquei muito interessada e ri bastante na exposição. Mas depois de tudo que se passou e no contexto atual das coisas, penso que é preciso continuar a rir, porém existe um ‘mas’, a partir do momento em que se chega aos limites da provocação. ‘Je suis Charlie’ e a liberdade de expressão podem nos levar a uma tragédia como a que aconteceu", explica. "Eu ainda me questiono sobre tudo isso e não cheguei a uma conclusão".

Reforço do policiamento

O clima de tensão leva Angoulême a ter o primeiro festival marcado por uma forte presença policial nas ruas e na entrada das exposições e conferências. A aposentada Claudine, que sempre participa do evento, ficou incomodada com as medidas de segurança, que estão em toda a parte.

"Fomos informados de que o plano de alerta máximo de segurança foi reativado. Sei que os policiais estão aqui para nos ajudar a nos proteger, mas não nego que isso provoca uma sensação de preocupação", afirma.

O Festival de Angoulême se encerra no domingo. Neste ano, o evento é presidido pelo mestre Bill Watterson, criador dos carismáticos personagens Calvin e Hobbes. Nesta quinta-feira, o japonês Katsuhiro Otomo, que deu ao mundo as histórias de Akira, foi agraciado com o Grande Prêmio do Festival de História em Quadrinhos, a principal premiação do evento.