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França Liberdade de imprensa Atentados de Paris Charlie Hebdo

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Nova capa do Charlie Hebdo relança debate sobre liberdade de expressão

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Última edição do semanário francês Charlie Hebdo, com a manchete "Um ano depois, o assassino ainda está solto". REUTERS/Benoit Tessier

Exatamente um ano depois do massacre no Charlie Hebdo, a capa da publicação nesta data simbólica não poderia deixar de provocar uma nova polêmica na França. Na primeira página da edição especial do jornal satírico que vai às bancas nesta quarta-feira (6), a figura de um Deus tipicamente cristão aparece com uma metralhadora nas costas, a barba ensanguentada e com a manchete “O assassino ainda está solto”.


A publicação terá uma tiragem excepcional de 1 milhão de exemplares. A capa, assinada pelo cartunista Riss, foi divulgada na segunda-feira e repercutiu por toda a França, a começar pelas entidades religiosas. O presidente do Observatório Nacional contra a Islamofobia, Abdallah Zekri, ficou chocado. “Sou a favor da liberdade de expressão, mas há limites. Deus mata pessoas? Deus pede para matar pessoas?”, questionou. “Neste clima atual e em relação ao nosso compromisso com Charlie e às nossas manifestações, eles deveriam parar um pouco de dizer que a religião mata jornalistas”, frisou Zekri.

O presidente da Federação Protestante da França, por sua vez, avalia que a capa é coerente com a tradição do jornal. “Essa caricatura não é de Deus: é do Deus do Charlie Hebdo. É por isso que podemos rir”, disse François Clavairoly. “Não me surpreende ver – e até me reconforta – que, apesar do que aconteceu, um desenho assim ainda possa aparecer na imprensa francesa.”

Repercussão na imprensa

Nos jornais, a capa também foi bastante comentada. O Dépêche du Midi, do sudoeste francês, afirma que, um ano depois, “o símbolo persiste”. “Em nome de um Deus, continuamos a matar homens. Em nome de uma religião, oprimimos multidões, ditamos leis estúpidas, cortamos cabeças que se sobressaem e as mulheres são relegadas a um papel de sub-humanas”, diz a análise.

O Midi-Libre tem de outra opinião. “Uma capa ultrajante traz o germe da amálgama entre terroristas fanáticos e as religiões. Essa capa traz uma lembrança de ódio das comunidades, o que é contraprodutivo – ao contrário do que tínhamos visto no excelente ‘tudo está perdoado’”, inscrito na primeira página do Charlie logo após os ataques. O jornal avalia que a capa reascende a “máquina da guerra” e vai alimentar novos confrontos entre os defensores da laicidade e os das religiões – sem contar que, conforme o editorial, a caricatura volta a provocar a ira dos terroristas, uma consequência que a França “poderia se poupar” neste momento de extrema tensão pós-atentados de 13 de novembro.

Jornal católico acha melhor que Deus representado seja cristão

O diário católico La Croix se mostra tolerante, embora a caricatura relembre o Deus representado pelo cristianismo. “Melhor assim”, diz o jornal, explicando que, desta forma, há mais liberdade para comentar e criticar a capa, uma situação que poderia não ocorrer se o Deus desenhado simbolizasse “outras religiões”. “Vamos comentar esse Deus sem indignação, em respeito aos que morreram, à dor dos sobreviventes e porque a recusa da violência está no coração da nossa fé”, afirma o texto. “Não é Deus quem assassina: são os homens, que inclusive não precisam de Deus para fazê-lo em grande escala”, comenta La Croix.