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Voluntário que testou molécula que matou 1 na França conta calvário

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Le centre Biotrial à Rennes où les essais ont été pratiqués. LOIC VENANCE / AFP

Um dos seis homens hospitalizados durante os testes de um novo medicamento produzido pelo laboratório português Bial, que deixou um morto na cidade francesa de Rennes, em janeiro, concedeu sua primeira entrevista à imprensa francesa neste fim de semana. Ele conta como sobreviveu à infeliz experiência que lhe deixou graves sequelas.


“Eu não podia mais falar ou me mexer”, disse o homem de 42 anos ao jornal “Le Maine Libre”, que deu sua primeira entrevista depois de ser hospitalizado em estado grave na UTI do hospital de Rennes, no noroeste da França. Ele e outros cinco pacientes testaram a mesma molécula, e um dos pacientes morreu no dia 17 de janeiro. O país autoriza que os voluntários desse tipo de teste sejam remunerados. 

“Para os médicos, o que aconteceu comigo foi um milagre”, declarou. Ele ainda guarda sequelas neurológicas da experiência. “Ainda sinto tontura, mal-estar e não posso ficar mais de dez minutos em pé. E tenho vista dupla. Os médicos têm esperança de que tudo volte ao normal daqui seis meses, ou um ano. Mas ainda não têm certeza”, disse.

O paciente deu entrada no centro de pesquisas Biotrial, em Rennes, no dia 4 de janeiro. Ele fazia parte de um grupo de oito voluntários, sendo que dois tomariam um placebo. O objetivo era testar uma nova molécula produzida pelo laboratório português Bial, um comprimido de 50 mg que em princípio deveria diminuir dores e ansiedade.

Voluntário em Rennes teve dores de cabeça e tontura

“Começamos o tratamento no dia 7 de janeiro”, conta o homem. “No dia 11, comecei a ter dores de cabeça”. Na véspera, um dos seis pacientes, que não sobreviveu ao teste, foi hospitalizado. “Descrevi meus sintomas para os médicos e enfermeiros e eles me deram paracetamol. No dia seguinte, piorei. Tinha mais dor de cabeça e estava tudo escuro embaixo das pálpebras. Um médico me deu gelo e mais paracetamol. No dia 13, quando me levantei, senti fortes tonturas e não enxergava mais nada. Quis tomar um banho, mas não consegui. Quando quis organizar minhas coisas no vestiário, caí”, lembra.

O voluntário foi então transferido para o hospital de Rennes. Na ressonância magnética, os médicos constataram manchas de sangue e manchas brancas em seu cérebro. Seu estado piorou nos dois dias seguintes, apesar do tratamento. “Eu não conseguia fazer mais nada: falar, me mexer, me sentar”. O paciente inicia então um outro tratamento proposto pelos médicos – que pediram sua autorização porque não tinham certeza do resultado. Felizmente ele reagiu bem. “Eles não esperavam que eu pudessse falar ou andar de novo”, contou.

De acordo com o diretor do laboratório, François Peaucelle, 108 voluntários testaram o remédio, sendo que 90 receberam um placebo. Em um comunicado, o laboratório afirmou que todos os testes foram realizados em conformidade com as normas internacionais”. Contrariamente ao que foi divulgado no início, o remédio não era a base de cannabis.