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Festival Paris Dança

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Escola de dança da favela da Maré é única sul-americana em festival francês

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Alunos da Escola de Dança da Maré participam do festival Camping Augusto Pinheiro/RFI

A Escola Livre de Dança da Maré, do Rio de Janeiro, é a única representante (com cinco alunos) da América do Sul no festival de dança francês Camping, que acontece até o dia 1° de julho em Paris. O evento reúne escolas, coreógrafos e artistas do mundo inteiro.


"Eu conheço a Lia Rodrigues (diretora artística da escola) há muitos anos. Ela é uma amiga e uma artista que respeito muito. Há muito tempo tinha vontade de apoiar a Escola da Maré. Então, eu fui ao Rio, visitei a escola, me encontrei com os alunos. Eu tenho muito respeito por esse centro. É muito importante para nós que eles participem do Camping", afirmou à RFI Mathilde Monnier, diretora do Centro Nacional de Dança de Paris e diretora do evento.

Mathilde Monnier: respeito pelo trabalho da escola Divulgação

O interesse dela pelo projeto carioca, que existe desde 2011, resultou em um convite para que a escola participe do Camping durante três anos consecutivos, a contar desta edição. "Fiquei muito tocada pelo trabalho realizado pela escola, um trabalho que tem mudado a vida das pessoas, mas também a vida do bairro, a percepção que os moradores têm da dança", diz Mathilde.

Neste sábado (25), dia de apresentações das escolas no Teatro da Cité Universitaire de Paris, a escola preferiu exibir um vídeo (assista ao final deste texto) que conta a história do espaço e mostra o trabalho realizado. "Escolhemos fazer a nossa estreia com o filme. Talvez no ano que vem a gente mostre pequenas peças produzidas ao longo do ano", afirma Silvia Soter, coordenadora pedagógica da escola, que deu uma palestra no evento e que acompanha os alunos.

Workshops com coreógrafos renomados

O festival, que começou no último dia 20, conta com workshops com coreógrafos e artistas renomados e apresentações das escolas convidadas. "Nós trazemos uma experiência muito singular: como criamos, com muito poucos recursos financeiros, mas apoiados nos recursos humanos, um espaço de dança numa favela no Rio de Janeiro. Eu acho que a presença dos meninos aqui é a prova de que é uma ação que tem consequências. Acho que ela é inspiradora também", opina Silvia, que também é professora universitária.

Silvia Soter: coordenadora pedagógica da Escola da Maré Divulgação

Para ela, o festival é um espaço para reflexões acerca da dança contemporânea, para indagar, responder e intercambiar. "Alguns pontos entre as escolas são comuns, e outros são muito diferentes. Isso tem sido muito interessante: entender o que é comum e singular das experiências. E, para os jovens, é maravilhoso poder ter contato com artistas impressionantes, o privilégio de poder trabalhar com profisisonais que trabalharam com Pina Bausch, Trisha Brown."

Participação amplia horizontes

Os cinco alunos da Escola da Maré que participam do festival são Jeniffer da Silva, 22, Karolline Pinto, 23, Sydney Rafael Galdino dos Santos, 20, Raquel Alexandre Silva, 21, e Marlon Araujo, 20. Eles participam do Núcleo 2 do centro, que reúne 15 jovens com formação aprofundada em dança, em diálogo com a Lia Rodrigues Companhia de Dança.

"A nossa participação no festival é a confirmação de que esse é o caminho que a gente realmente deseja seguir. De fortalecer e alimentar outros conteúdos e conhecimentos de dança. Esta semana está sendo muito gratificante, conhecemos pessoas de diferentes países, de diferentes culturas, com diferentes linguagens de dança", diz Jennifer, que também estuda dança na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Para Raquel, a vinda a Paris está ampliando os horizontes. "Começamos sem muita perspectiva ou intenção, porque éramos muito crus ainda na dança. Com o passar do tempo, a gente vai adquirindo conhecimentos, vai crescendo, vai viajando, e o mundo vai ampliando, a arte vai crescendo. E a gente vai aprendendo cada vez mais. Estar no Camping é uma afirmação de que tudo vale a pena, de que tudo é possível, de que é possível ir além."

Dificuldades da favela emocionam os alunos

Enquanto os colegas estão falando, Karolline se emociona e vai às lágrimas, que logo contagiam Raquel e Marlon. "Estou emocionada ao ouvi-los e lembrar de tudo o que a gente já passou. É muito forte. O Brasil está em crise agora. Representamos uma resistência, que vem da Lia, que vem da gente, de estar lá todos os dias. Tem a questão da falta de dinheiro, a questão das condições de vida na favela. Teve um tiroteio horrível lá ontem, a gente ainda está digerindo isso, houves pessoas baleadas", conta a também estudante universitária de dança.

Lia Rodrigues: diretora artística da escola Divulgação

O senso de comunidade, de pertencer à favela da Maré, é muito grande. A participação neste festival não é uma vitória apenas para eles, mas para todos os moradores do local. "Aqui só está um pedacinho do que a gente vive lá e das pessoas que vivem lá. Somos cinco pessoas que representam um coletivo, uma vivência que temos todos os dias, que alimenta a nossa vida pessoal e a nossa vida profissional. Acho que nao está separado, uma coisa anda com a outra. São sonhos realizados por nós, mas pelas pessoas que estão lá também", analisa Jennifer.

Aprendizado profissional

Os cinco afirmam que, apesar da barreira da língua, estão absorvendo o máximo possível para o crescimento pessoal e profissional. "Acho um privilégio muito grande e um reconhecimento enorme do trabalho da escola. Quando eu penso que estamos aqui, cinco jovens que moram na favela, naquelas condições, e somos a única escola da América do Sul... é uma honra muito grande. Estamos aproveitando cada segundo dos ensinamentos", diz Sydney.

Aula na Escola de Dança da Maré Divulgação

"É incrível porque é algo muito fora da nossa realidade. Acho que, ao mostrar quem somos com o corpo e com o filme, eles vão olhar para a gente conhecendo a nossa história. Não apenas corporalmente, mas a nossa história de vida. Entender o que é a favela, o que é a Maré, o que é o Núcleo 2, quem é a Lia Rodrigues", finaliza Marlon, que faz licenciatura em dança na UFRJ

Escola levou dança para a favela

A Escola Livre de Dança da Maré foi criada em outubro de 2011com o objetivo de democratizar o acesso dos moradores à arte e à dança articulando ações de educação e profissionalização, formação de plateias e práticas socioeducativas.

"Temos dois braços. O Núcleo 1 realiza uma série de oficinas, de dança afrobrasileira, contemporânea, clássica, de salão e hip hop para o público em geral. Temos de crianças de 4 anos até senhoras de 85 anos. Por outro lado, temos o Núcleo 2, com 15 jovens que têm uma formação aprofundada em dança, em diálogo com a companhia de dança da Lia Rodrigues. Eles ficam de segunda a sexta-feira na escola, a tarde inteira. Então a dança é algo que se torna muito central na vida deles", explica Silvia Soter.