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França Burquíni Manuel Valls François Hollande Socialistas Praia Muçulmanas

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Polêmica do burquíni divide governo socialista francês

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Manifestantes protestaram contra a probição do burquíni em frente à embaixada da França em Londres. REUTERS/Neil Hall

A polêmica sobre o uso do burquíni nas praias francesas só aumenta, e agora gera divisões dentro do governo do presidente François Hollande. Enquanto isso, a mais alta instância judicial do país deve se pronunciar nesta sexta-feira (26) sobre a legalidade das cerca de 30 proibições municipais adotadas sobre a vestimenta, em várias regiões do país.


O debate sobre o traje islâmico inflamou a França neste verão, ao ponto de os integrantes do gabinete socialista não poderem mais escapar de comentar o assunto. Nesta quinta-feira (25), diversos ministros se opuseram às proibições da roupa muçulmana – determinações que foram, por outro lado, apoiadas pelo chefe do Governo, Manuel Valls.

A ministra da Educação, Najat Vallaud-Belkacem, disse em uma entrevista que as proibições em série “não são bem-vindas” e, sim, “um problema”. “Até onde iremos para verificar que uma roupa está de acordo com os bons costumes”, ironizou a ministra. Ela considera que a medida “liberta as opiniões preconceituosas” em relação aos muçulmanos.

Já a ministra da Saúda, Marisol Touraine, avalia que não são as vestimentas que indicam a periculosidade de uma pessoa. “Pensar assim é esquecer os valores da República, que devem ser os de permitir a cada um não negar a sua própria identidade”, afirmou a Touraine. “A laicidade não deve se tornar a ponta de lança de uma estigmatização perigosa para a coesão do nosso país.”

Valls reafirma apoio a proibições

Manuel Valls fez questão de reafirmar a sua posição. “As proibições foram adotadas em um dado momento, apenas alguns dias depois dos atentados em Nice, em um contexto especial”, explicou o premiê, que já havia afirmado “compreender” a decisão dos prefeitos contrários ao burquíni. Ele ainda acrescentou que a ideia de que a medida “libera os preconceitos”, evocada por Vallaud-Belkacem, é uma “interpretação equivocada”.

“Não podemos aceitar o proselitismo religioso, mas também não podemos aceitar a humilhação. Tudo que possa parecer uma estigmatização e uma vontade de atacar o islã é, evidentemente, condenável”, declarou Valls. “Não estamos em guerra contra o Islã", insistiu.

Hollande, por sua vez, se manteve em cima do muro. Em sua primeira declaração sobre o assunto, o presidente afirmou apenas que "todo mundo deve se conformar às regras, sem provocação nem estigmatização".

A prefeita de Paris, a também socialista Anne Hidalgo, considera que já passa da hora de acabar com “essa histeria midiática e política” em torno da questão do burquíni. Nesta quinta-feira, ela recebeu o prefeito de Londres, Sadiq Kahn, na capital francesa. Em uma entrevista à imprensa britânica, Kahn criticou a proibição do traje na França, dizendo que "ninguém deve ditar às mulheres o que elas devem usar".

Sarkozy quer lei contra o burquíni

Quase todas as cidades que proibiram o uso do burquíni são governadas por partidos de direita, como Os Republicanos, do ex-presidente Nicolas Sarkozy. Os prefeitos alegam que a roupa traz riscos à ordem pública, em um contexto de grave ameaça de atentados terroristas islâmicos na França.

O próprio Sarkozy defendeu a adoção de uma legislação específica sobre o traje de banho, que ele deseja ver banido dos balneários franceses. Para o ex-presidente, o uso do burquíni na França é uma “provocação”.

Expectativa sobre decisão sobre legalidade da medida

Em Paris, três juízes do Conselho de Estado, a mais alta instância administrativa do país, analisam o recurso apresentado pela Liga dos Direitos Humanos e o Coletivo contra a Islamofobia na França. As entidades consideram a proibição do burquíni uma medida ilegal.

A legislação francesa prevê que as roupas islâmicas são autorizadas, desde que não cubram o rosto da mulher. A peça de banho usado por uma minoria de muçulmanas nos balneários do país deixa o rosto à mostra.

A controvérsia voltou à tona esta semana, depois que uma mulher de 34 anos que usava apenas um véu, uma túnica e uma calça legging na praia foi multada e obrigada a tirar a túnica. Agora, o Conselho de Estado tem a última palavra sobre se os municípios têm o direito de utilizar a polícia nestes casos para "garantir a ordem, a segurança e a saúde pública".

O Conselho de Estado, acostumado a debates sensíveis, raramente se reuniu em uma atmosfera tão febril. Na quarta-feira, o Conselho Francês da Fé Muçulmana (CFCM) informou sobre as "fortes emoções e preocupação" dos muçulmanos na França.

O texto banindo a vestimenta foi validado por um tribunal administrativo de Nice, que considerou a proibição "necessária, adaptada e proporcional" para evitar problemas de ordem pública, após os últimos atentados na França, como o de Nice, em 14 de julho. A justiça local disse que este tipo de vestimenta podia "ser encarada como um desafio ou uma provocação exacerbando as tensões já presentes entre a população".

Com informações da AFP