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Com a direita dividida, franceses conservadores se voltam para Marine Le Pen

Por Alfredo Valladão

A opinião pública francesa segue, atônita, uma campanha eleitoral descambando para o surrealismo. Com François Fillon, o partido conservador “Os Republicanos” e todos os eleitores de direita acreditavam piamente que a eleição presidencial de maio próximo estava no papo. Mas Fillon degringolou nas sondagens e não parece ter mais a mínima chance de chegar ao segundo turno.

Quase todos os pesos pesados do seu partido e da base parlamentar, os aliados centristas e até muitos eleitores conservadores estão abandonando essa canoa furada. As acusações de nepotismo e a incapacidade do candidato em dar respostas convincentes criaram um clima de histeria midiática que o torna inaudível. O aparelho partidário e seus principais representantes já falam publicamente de um “plano B” para trocar de candidato. Só que Fillon não quer saber de sair de mansinho. Dando uma de Trump, ele decidiu bancar uma queda de braço com o seu próprio campo político, apelando para o núcleo duro dos eleitores conservadores contra os caciques do partido.

Passar de vitória certa para derrota certa, a menos de seis semanas do pleito, é uma catástrofe para a direita francesa em frangalhos, e também para as instituições e o próprio sistema político francês. Sociologicamente, os conservadores são maioria. Mas desde os anos 1980, cada vez que o partido que representa essa tendência se divide internamente, é a esquerda que sai ganhando. Só que hoje, a direita conservadora também tem que enfrentar a concorrência do partido de extrema-direita, populista e racista de Marine Le Pen.

A líder da Frente Nacional conta com uma sólida base de votos representando um quarto do eleitorado. A boa notícia é que, por enquanto, ela está parada nesse patamar e não tem condições de vencer o segundo turno da eleição presidencial. A má notícia é que se Os Republicanos não conseguirem nem participar do segundo turno, uma boa parte dos eleitores conservadores podem engrossar as fileiras da Frente Nacional.

Sistema de partidos implodiu na França

Uma campanha onde o programa da direita conservadora desaparece não é bom para a democracia. Até os candidatos da esquerda estão preocupados – publicamente. O que é uma eleição sem debates programáticos? Sobretudo que a esquerda também se esfarelou entre extremistas, socialistas-ecologistas ideológicos e sociais-democratas de governo. E no dia de hoje, os seus candidatos não têm nenhuma possibilidade de sucesso.

Na França, o sistema de partidos implodiu. A lei eleitoral do pleito em dois turnos, concebida pelo general de Gaulle, só funciona se houver dois campos sociais com representantes próprios capazes de formar uma maioria no Parlamento. Mas hoje, o único candidato que está de vento em popa é Emmanuel Macron, que se apresenta como sendo “de esquerda e de direita” ao mesmo tempo. Aproveitando a fragmentação das categorias políticas tradicionais, ele vem atraindo políticos e eleitores de todos os horizontes ideológicos com propostas pragmáticas e modernizadoras. Mas, se eleito, será que ele conseguirá emplacar uma maioria de deputados e senadores na eleição legislativa do mês seguinte? Sem isso ele não poderá governar.

Não é só na França que os partidos herdados do século passado estão se derretendo. Basta olhar para a Espanha, a Grécia, a Europa do Leste, a Inglaterra, a Holanda e até os Estados Unidos de Trump. A democracia representativa do século XX vinha da revolução industrial. Sua base era a produção de massa para o consumo de massa, um modelo que favorecia o aparecimento de classes sociais bem demarcadas com suas ideologias e seus partidos representativos. O mundo global, as novas maneiras de produzir, consumir e se comunicar estão criando sociedade feitas de indivíduos, cada um defendendo interesses próprios. A velha coesão dos batalhões classistas está sumindo. Como também desaparecem as velhas certezas ideológicas.

O grande desafio é inventar a democracia dos novos tempos e evitar a volta dos nacionalismos agressivos e dos poderes autoritários. O surrealismo da campanha francesa é só um dos filmes desse fim de época.

* As crônicas do cientista político Alfredo Valladão podem ser lidas todas as segundas-feiras no site da RFI Brasil

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