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Aos 94 anos, o estilista Pierre Cardin continua em plena atividade

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Pierre Cardin continua trabalhando diariamente, aos 94 anos DR

Começa nesta terça-feira (4) na galeria Carla Sozzani, em Milão, a exposição “Esculturas Utilitárias”, que reúne móveis desenhados por Pierre Cardin pela primeira vez desde a década de 1970. O evento faz parte da programação do tradicional Salão do Móvel da cidade italiana, e traz ao público outra faceta do estilista de 94 anos. Conhecido como um dos nomes mais controversos da história da moda, Cardin recebeu a reportagem da RFI em seu escritório parisiense.


Entrevistar Pierre Cardin é como encontrar uma lenda viva. Pioneiro em quase tudo o que fez, o estilista lançou o prêt-à-porter feminino em 1959, criou as primeiras coleções masculinas em 1960, e desbravou o continente asiático, onde chegou a ser professor convidado, na escola Bunka de Tóquio, já em 1957. Também criou os terninhos sem colarinhos, popularizados pelos Beatles e, junto com André Courrèges e Paco Rabanne, injetou o conceito de futurismo na moda.

Mas esse aspecto inovador nem sempre agradou. Principalmente quando o estilista decidiu implementar um sistema de licenciamento, estampando seu nome em vários produtos. Cardin chegou a ter 800 licenças em 120 países, que iam de gravatas e perfumes até panelas e ventiladores. Com exceção de Chanel, praticamente todas as marcas seguiram esse modelo. Mas o feitiço se virou contra o feiticeiro: os grandes nomes da moda perderam o controle de sua imagem e Cardin, amaldiçoado por todos, se tornou o símbolo dessa vulgarização desenfreada, em um case que é estudado nas faculdades de marketing até hoje.

Jantares com Mandela e hospedagem na casa de Fidel Castro

Inabalável, o estilista se tornou uma das maiores fortunas da França graças à moda, às licenças, mas também à rede de restaurantes Maxim’s que, seguindo o mesmo modelo, abriu filiais pelo mundo e virou uma marca com produtos derivados. Mecenas, ele produz espetáculos, como “Dorian Gray – a beleza não tem piedade”, que estará em turnê na América Latina no segundo semestre, mas também um festival de Artes Líricas na cidade de Lacoste, no Sul da França, que existe há 17 anos. Além de um espaço cultural que, durante décadas, acolheu grandes eventos em Paris.

Todas essas conquistas e lembranças podem ser vistas no Museu Pierre Cardin, que abriu suas portas no bairro do Marais, no centro de Paris, em 2014. Mas elas são ainda mais vivas quando se entra no escritório do estilista, em um prédio de cinco andares vizinho do palácio do Eliseu, a sede da presidência francesa. Nas paredes, nas estantes, mas também espalhadas pelo chão, imagens de Cardin sendo acolhido como popstar pelos japoneses nos anos 50 se misturam às fotos do estilista ao lado de grandes personalidades. “Conheci todos os chefes: Fidel, Mandela, Putin, Indira Gandhi. Fui hospedado na casa de Fidel Castro em Cuba”, lembra o estilista, que deu várias vezes a volta ao mundo. Do Brasil, se recorda com nostalgia de sua passagem, em 1973, quando atuou, ao lado de Jeanne Moreau, no filme "Joana a Francesa", de Carlos Diegues.

Estilista foi primeiro assistente de Dior

Apesar de toda sua trajetória, um dos assuntos que mais o empolga ainda é o começo de sua carreira. Esse filho de agricultores italianos, batizado Pietro Cardini, chegou na França ainda criança e, autodidata, começou como alfaiate no interior, antes de passar pelas maisons Paquin e Schiaparelli. Mas sua vida na moda realmente teve início ao lado de Christian Dior, de quem foi o primeiro assistente, em 1947, três anos antes de fundar sua própria marca.

“O famoso tailleur Bar (que deu origem ao New Look), eu costurei com minhas próprias mãos”, conta, enquanto desenha, no verso de uma nota fiscal, o modelo que marcou o pós-guerra com sua cintura de pilão. “Dior me dizia: tem que ser volumoso! Mas na época não tínhamos os materiais de hoje. Então, tive a ideia de ir até a farmácia, comprar pedaços de algodão, e colar no tecido”, lembra, antes de mostrar orgulhoso um livro, com uma dedicatória na primeira página amarelada, na qual pode-se ler: “Para meu carro Pierre, colaborador do primeiro dia, afetuosamente, Christian Dior”.

RFI – É verdade que o senhor vem trabalhar todos os dias, mesmo nos fins de semana?

Pierre Cardin – Venho todos os dias. É uma necessidade. Como um escultor, um músico ou um escritor, que escreve diariamente.

RFI – O senhor é muito conhecido como estilista, mas sempre esteve envolvido em projetos de arquitetura, teatro e música. Essas atividades são complementares?

P.C. – Eu faço isso naturalmente. Passo de uma atividade para outra o dia todo, o ano todo. Para mim, comércio, jornalismo, criação de moda e música são exatamente a mesma coisa. Eu passo facilmente de um a outro.

RFI – O nome do senhor é sempre associado às inúmeras licenças da marca Pierre Cardin. Esse modelo, inédito na época, foi muito contestado pelos atores da indústria da moda, que criticavam a vulgarização da moda, acostumada com o modelo da alta-costura. Como o senhor explica essa aversão?

P.C. – Foi um escândalo. Mas eles me criticavam porque não pensavam no futuro. Estavam limitados na visão do momento. Eu projetava bem mais à frente, imaginando as coisas sempre nos próximos dez anos.

RFI – Esse sistema foi responsável por sua independência financeira. Afinal, graças às licenças o senhor é um dos únicos a deter uma maison de moda em seu nome, sem depender de nenhum grupo.

P.C. – Foi o que me fez ganhar dinheiro.

RFI – O senhor recebeu vários prêmios, como os “Dedais de Ouro” nos anos 1970 ou o Oscar da Moda nos anos 1980, foi tema de várias exposições, livros e diversas homenagens. Mas, ao mesmo tempo, muitos dizem que o senhor é “o estilista que todos adoram detestar”. Tudo isso por causa das licenças?

P.C. – Inveja, é claro! Pois sou independente e não cuido da vida de ninguém. Cuidar de mim mesmo já é muito.

RFI – Chanel dizia que nunca conseguiu entender os jovens. Já no seu caso, a juventude sempre foi um ponto central na hora de criar. Como o senhor vê a moda jovem de hoje?

P.C. – A juventude é a minha matéria-prima. É com ela que podemos criar o futuro. Mas hoje vivemos uma desordem geral. Não há mais moda. Ou melhor, há apenas uma moda influenciada pelos Estados Unidos.

RFI – O senhor disse certa vez que a elegância não era uma questão de dinheiro e que, mesmo vestindo um avental de cozinha era possível ser elegante. Como o senhor, que foi um dos pioneiros da democratização da moda, vê o fenômeno da fast fashion?

P.C. – É apenas a multiplicação. Isso possibilita aos que não podem ter os originais comprar a cópia. É como um livro. O fato de reproduzir não vai diminuir o valor de sua leitura.

RFI – Ainda é possível falar de uma moda francesa?

P.C. – Não, a moda hoje é internacional, mesmo se antes ela era parisiense. Agora, a moda de Paris pode ser encontrada em qualquer lugar. Se você vai ao Brasil, Argentina, ou Austrália, encontra os mesmos modelos. Não há mais originalidade ou personalidade.

RFI – O senhor nasceu na Itália, mas cresceu na França. O que há de francês e de italiano em seu processo criativo?

P.C. – Acho que há um gosto pelo refinamento, que é italiano. Temos uma visão diferente dos outros. Isso é evidente. Com a minha idade, que já é bem avançada, eu me dou conta que sou mais italiano do que francês.

RFI – O senhor também foi um dos primeiros a levar a moda ocidental para a Ásia, desde 1957 no Japão e 1978 na China, que aliás se tornou um dos primeiros mercados mundiais do luxo. Os mercados ditos emergentes, como o Brasil, o interessam?

P.C. – Me interessa muito. Inclusive nós trabalhamos com o Brasil, temos muitas licenças e fabricantes por lá.

RFI – Falando de Brasil, o senhor participou como ator de “Joana a Francesa”, um filme de Cacá Diegues, rodado no país em 1978. Que recordação tem dessa experiência?

P.C. – Foi um prazer trabalhar no Brasil. Jeanne Moreau tinha o papel principal e eu fazia o cônsul. Me lembro de ter cavalgado muito. Aliás, eu poderia ter continuado a fazer cinema. Mas eu tinha a impressão de perder muito tempo. Sou um homem ativo, que gosta de mudar, de se movimentar. Esperar não é meu estilo.

RFI – O senhor praticamente não fala de sua vida privada. Como vê os estilistas que se expõem, ao ponto de se tornarem personagens?

P.C. – É o meu trabalho que deve exprimir meu valor. Esses estilistas precisam desses meios de expressão para existir.

RFI – A grife Pierre Cardin ultrapassou o homem Pierre Cardin. Como o senhor vê o futuro de sua marca?

P.C. – Eu sou embaixador (da Unesco), membro da Academia francesa de Belas Artes, empresário, estilista, fiz cinema, teatro. Fiz tudo isso, com sucesso, e não de forma amadora. O que mais posso desejar? Quanto ao futuro da minha marca, as pessoas farão o que quiserem. Não vou agora me preocupar com o amanhã.

RFI – A conquista do espaço sempre foi uma paixão. Há, inclusive, uma foto do senhor usando um uniforme de astronauta na Nasa...

P.C. – Eu sou o único no mundo a ter usada aquela roupa.

RFI – A empresa americana SpaceX afirma poder enviar turistas no espaço no ano que vem. É algo que o senhor teria vontade de fazer?

P.C. – É algo que teria me interessado no passado. Mas agora, com minha idade, não mais. Estou muito cansado. E, de qualquer maneira, eu já estou indo para lá.