rfi

Ouvindo
  • RFI Brasil
  • Último jornal
  • RFI em francês

Paris Arte África Exposição Primavera Árabe Apartheid Política Cultura

Publicado em • Modificado em

Exposição em Paris celebra potência da arte contemporânea africana

media
A instalação "Un rêve" ("Um sonho", em português), do artista egípcio Nabil Boutros. Exposition Afriques Capitales © Nicolas Krief

Entre ética e estética, resistência e nostalgia, identidade e reinvenção, o complexo cultural La Villette explora a pluralidade de cerca de 60 artistas contemporâneos do continente africano na exposição "Afriques Capitales", em cartaz na capital francesa até 28 de maio. Temas como colonialismo, Primavera Árabe, apartheid, resistência cultural e política, fronteiras, feminismo, gênero e subversão se entrecruzam no caleidoscópio tecnológico de videoinstalações, fotografias, instalações e objetos desenvolvidos por diferentes gerações de criadores africanos.


Um mapa do continente africano em cor preta e alto-relevo, recortado como um quebra-cabeça que junta os mais de 50 países da África por meio de encaixes. Um baralho de cartas com nomes de cidades africanas é oferecido aos visitantes, que tentam dispô-las em seus devidos lugares. Quase ninguém consegue geolocalizar os espaços propostos. O enigma da obra “Africa Untitled”, da artista queninana Ato Malinda, poderia funcionar como uma metonímia da grande mostra coletiva “Afriques Capitales”, em cartaz no galpão principal do centro cultural La Villette, um dos maiores complexos multimídias de exposições e concertos de Paris, no 19° distrito da capital.

Voltando à “Africa Untitled”, a África sem Título, sem Nome: quantos de nós seríamos capazes de designar corretamente um continente tão vasto quanto desconhecido em suas particularidades? A obra de Ato Malinda, logo na entrada do salão principal, recusa-se a ignorar o processo colonizatório, que recorta e distribui o continente em pedaços, mas se propõe a redesenhá-lo: o público é convidado a reformular, renomear e reinventar a África. As definições nascidas no pós-colonialismo são desconstruídas, o continente está livre para ser repensado. O trabalho foi apresentado pela primeira vez durante a celebração do 125° aniversário da Conferência de Berlim, ocasião em que as potências coloniais compartilharam o continente africano, em pedaços.

A instalação interativa da artista queninana Ato Malinda traz um mapa do continente africano onde se tenta identificar os nomes dos países e cidades. Exposition Afriques Capitales © Nicolas Krief

O curador da mostra “Afriques Capitales”, Simon Njami, questiona: “como, dentro de um mesmo espaço geográfico, coabitam realidades contraditórias e completamente complementares? ”. “Nossa aposta foi tentar inventar a cidade de todas as cidades”, explica no texto de apresentação da exposição. “Uma cidade que não pertencesse a ninguém, mas onde cada um pudesse encontrar referências pessoais. Alguns tentarão localizar aquela cidade na África, aquela outra no mundo, quando, na realidade, estaremos mergulhados dentro de uma ficção, com o objetivo de fazer aparecer o essencial”, conclui.

Resistências

Resistir é a palavra de ordem da obra “Points de résistances” (“Pontos de resistências”) do artista Emo de Medeiros, nascido no Benin. “Falo da ideia de resistência, da noção transcultural e trans-histórica da resistência, são 64 pontos acompanhados de trechos sonoros. Em cada ponto, esculturas de papel-alumínio moldadas à mão são enganchadas no muro”, explica.

Entre os áudios selecionados por Emo, o “Chant des partisans”, o canto dos resistentes da Segunda Guerra Mundial; as vozes de Bob Marley - “Never give up the fight” (“Nunca desista da luta”) – e de Winston Churchill, “Never surrender” (“Nunca se renda”); o escritor americano James Baldwin que fala da resistência do artista para conservar sua integridade; o rapper Tupac, que fala da necessidade da resistência individual: “You need to do something” (“Você precisa fazer algo”); falas da feminista americana Gloria Jean Watkins, conhecida como Bell Hooks, e do ativista Harvey Milk, defensor da causa das minorias sexuais nos Estados Unidos, e até mesmo um trecho do discurso histórico do general francês De Gaulle, de 18 de junho de 1940: “a chama da resistência não deverá ser extinta e nunca se apagará”.

A pletora de resistências sonoras é acompanhada das esculturas em alumínio. “É um material que lembra o metal e que é ao mesmo tempo muito frágil. O público é convidado a criar seus próprios pontos de resistência. Algumas esculturas foram vandalizadas pelos visitantes, mas a gente se dá conta que, mesmo esmagando a resistência, ela se sedimenta, camada por camada. Ao mesmo tempo, não podemos destruir o alumínio, o que significa também que a resistência não pode ser corrompida”, afirma.

Trabalho interativo do artista Emo de Medeiros, do Bénin, fala sobre resistência política intercultural. Exposition Afriques Capitales © Nicolas Krief

“Num momento em que nós somos ameaçados por todos os tipos de totalitarismo, sejam eles religiosos ou políticos, neste retorno triunfante e descomplexado do pensamento totalitário, eu quis promover um ato estético, que é ao mesmo tempo ético, que seja para cada pessoa uma decisão de participar de uma obra artística, mas também de manifestar resistência contra o que está acontecendo hoje no mundo”, finaliza.

Sonho & Política

Uma espécie de nuvem composta de sacos plásticos brancos inflados e dispostos longitudinalmente sobre uma armação de arame invisível. A estrutura, suspensa no teto do galpão do La Villette, dá a impressão, num movimento estático, de transpassar um enorme círculo de arame farpado.

O trabalho “Un rêve” (“Um sonho”), do fotógrafo e artista egípcio Nabil Boutros, revisita o sonho e a decepção dos movimentos sociais que culminaram na famosa revolta da praça Tahir, no Egito, e os consequentes desdobramentos políticos do país dentro do contexto da Primavera Árabe.

“Este trabalho nasceu a partir da temática da Bienal de Dakar de 2016, “La Cité dans le jour bleu” [“A cidade na luz azul”, em tradução livre, uma frase do poeta senegalês Léopold Sédar Senghor]. É um tema político, e mesmo se não somos obrigados a fazer política de uma maneira literal, eu pensei imediatamente ao contexto egípcio de 2011, foi um momento [a Primavera Árabe], junto com outros países árabes, cheio de esperança, apesar de todos os problemas. Pensei também na decepção após esse momento, quando todas as instituições tradicionais reincorporam toda essa energia, e fizeram tudo para aniquilá-la. Prova de que nós não conseguimos nos libertar de nossas próprias amarras, ainda tropeçamos em nossos problemas", explica o artista.

“Eu me inspirei no desejo, que é uma coisa muito forte, poderosa, que eu imaginei como um animal, e tive vontade de representar isso como uma espécie de nuvem que se sobressai, uma coisa leve, aérea, frágil. Tive a ideia de fazer essa estrutura em forma de nuvem luminescente, de 10 metros, como um animal de circo que passa dentro desse aro em arame farpado. A ideia é fazer esse animal, o sonho, passar dentro de um aro que o fragiliza, uma espécie de metáfora onde falo de nossos próprios desejos”, conclui Boutros.

A “jangada da medusa”

Entre os artistas do continente africano, um franco-brasileiro se destaca, com uma obra que remete à África, mais especificamente a seu país de adoção, o Senegal. Alexis Peskine, filho de pai francês e mãe brasileira, se inspirou no famoso quadro do pintor romântico francês Théodore Géricault (1791-1824), “Le Radeau de la Méduse” (“A jangada da Medusa, em tradução livre) para criar uma videoinstalação provocadora, evocando conflitos coloniais em plena capital francesa.

“É um quadro que relembra o naufrágio histórico do navio [francês] Medusa, no litoral da Mauritânia. Dos cerca de 150 sobreviventes, que se equilibravam sobre essa jangada, apenas 15 foram salvos. Eram os burgueses franceses, que, perseguidos por Napoleão, vinham colonizar o Senegal e o resto da África ocidental”, detalha Peskine. “Quis criar um paralelo com as imagens que a gente vê na mídia dos migrantes que morrem atualmente no mar. Lemos sempre nos jornais os problemas trazidos pelos migrantes, mas não se fala nunca do colonialismo, da responsabilidade da França no empobrecimento de vários países africanos. É pouco honesto falar de problemas dos migrantes sem mencionar o fato da França só ter conseguido se tornar a 5ª economia mundial graças ao enriquecimento obtido vendendo armas e provocando conflitos dentro desses países”, provoca o artista. “Muitos franceses estiveram na mesma posição desses migrantes, há 50 anos”, afirma.

Durante a videoinstalação “A jangada da Medusa”, desfilam cenas de uma mulher negra, vestida em trajes africanos, que caminha por monumentos de Paris carregando uma criança loira de olhos azuis. Em outro momento, um homem negro, vestido com um traje feito por sacolas de feira e uma coroa de miniaturas da Torre Eiffel, passeia por pontos turísticos da capital francesa. “Essa mulher negra representa a África, fazendo uma referência a esse estereótipo da babá negra que cuida do menino branco, que representa a Europa. Ela está coberta por vestimentas [africanas] nobres, não é uma babá. Na cena onde ela alimenta a criança com arroz, quis mostrar que é a África que nutre a Europa, não o contrário. Sem a África, a França poderia ser como Portugal e a Grécia, sem os países africanos que ela explora”, contextualiza.

“Os personagens passeiam por monumentos que lembram batalhas históricas e guerras coloniais do passado. Há também um momento sutil onde se percebe um fio de ouro que corre do seio de uma estátua representando uma negra. Outras imagens mostram senegaleses que tentam ir para a França, um outro paralelo com o quadro de Géricault”, pontua Peskine, antes de finalizar: “deveríamos estender um tapete vermelho para essas pessoas [migrantes] quando eles chegam. Visitei 14 países africanos, gostaria de ter conhecido os 54 do continente. Nossa riqueza vem de lá”, afirma.

Corpo feminino & outras provocações

“Le Corps Pansant 1”, da artista marroquina Fatima Mazmouz. RFI/Márcia Bechara

Reforçando o time de artistas africanas, a marroquina Fatima Mazmouz apresenta o provocante “Le Corps Pansant 1”, algo como “O Corpo Enfaixado 1”, um trocadilho com a adjetivo “pensant”, ou “O Corpo que Pensa 1”, criando um duplo sentido de interpretações. A série de fotografias mostra a artista grávida, vestida com uma espécie de burca negra que deixa descoberta as pernas, barriga e braços da performer, em locais esdrúxulos como uma garagem mecânica, em cima de um trator.

Já o projeto videográfico “Super Oum”, também de Mazmouz, que visa questionar o corpo feminino durante a gravidez, mostra a artista correndo pelo jardim e pelo ambiente doméstico, realizando tarefas absurdas como cozinhar a cabeça de plástico de uma boneca infantil, andar de velocípede ou servir à mesa um cérebro de silicone, como numa desconstrução dos limites culturais impostos à mulher e seu corpo durante a gestação. Um corpo infantilizado incapaz de transpor o limite periférico doméstico.

Ainda no rol de artistas da exposição “Afriques Capitales” constam nomes como o celebrado artista sul-africano William Kentridge, que apresenta a videoinstalação “More Sweetly Play the Dance”. A projeção do filme em oito telões mostra um cortejo macabro de sombras, que recupera temas como a herança da colonização e o apartheid. O artista, natural de Johanesburgo, traz uma estética proveniente da história do cinema. O filme recupera também temas como os refugiados que fogem de uma guerra, ou a eclosão de uma ditadura.

Assista o teaser promocional da exposição "Afriques Capitales":