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Imigrantes Eleição presidencial francesa Extrema-Direita Marine Le Pen Frente Nacional

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Cidades governadas pela extrema-direita hesitam em votar em Marine Le Pen

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A prefeitura de Fréjus fica no centro medieval da cidade, ao lado da catedral do século 16. RFI/Adriana Moysés

Moradores de cidades administradas pelo partido de extrema-direita Frente Nacional (FN) na região de Saint-Tropez ainda estão em dúvida se Marine Le Pen seria uma boa presidente para a França. Quando questionados se votarão na candidata no dia 23 de abril, data do primeiro turno, muitos dizem que “ter um prefeito da Frente Nacional é uma coisa, eleger Marine à presidência é outra”.


Enviada especial à Riviera Francesa

O sul da França é uma região de voto tradicionalmente conservador. A reportagem da RFI Brasil esteve em Fréjus, Cogolin e Le Luc, três cidades administradas por prefeitos de extrema-direita desde as eleições municipais de 2014. Todas ficam próximas de Saint-Tropez, a badalada praia que atrai artistas e milionários na Riviera Francesa.

O prefeito de Fréjus, David Rachline, de 28 anos, é o diretor de campanha de Marine Le Pen. Ele tenta fazer de sua gestão à frente da cidade de 53 mil habitantes um modelo capaz de credenciar a extrema-direita a dirigir o país.

O prefeito de Fréjus, David Rachline, diretor de campanha de Marine Le Pen. RFI

No centro histórico de Fréjus, situado em uma colina na área medieval da cidade, o ponto de encontro é a praça onde ficam a catedral do século 16, o museu arqueológico e a sede da prefeitura, instalados em uma zona de pedestres animada por lojas, cafés e restaurantes. A reportagem tentou conversar com comerciantes locais, mas desde que foram questionados sobre o candidato escolhido para a eleição presidencial, a resposta foi evasiva. “Um lojista não deve se posicionar publicamente”, disse o dono de uma loja de queijos. O dono da padaria vizinha fez a mesma observação. Em outras palavras, é mais apropriado ficar calado para evitar represálias ou ferir suscetibilidades.

Os eleitores da Frente Nacional não falam com facilidade à imprensa e preferem omitir o sobrenome. Dizem que basta concordar com as propostas de Marine Le Pen para serem tachados de racistas. Os que aceitam falar, destacam que o partido presidido por Marine não é mais o mesmo criado pelo pai da candidata, Jean-Marie Le Pen, nos anos 70, composto de simpatizantes nacionalistas, neofascistas e antissemitas.

Le Pen ou Mélenchon?

Valérie M. mora há dois anos em Fréjus, depois de se mudar de sua região natal, o Vale do Loire (centro). Dona de casa, grávida do segundo filho, ela conversa em um café com duas amigas, cercada de crianças. Diz que deseja votar em Marine Le Pen, mas hesita por temer a repercussão de algumas propostas da candidata, como a saída do país da zona do euro, o retorno ao franco como moeda nacional e o isolamento da França na União Europeia. Se não votar na extrema-direita, Valérie e o marido vão optar por Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, outro candidato que, segundo ela, “reconhece as dificuldades da população e tem um programa de proteção aos mais pobres”.

Sem vacilar, a parisiense aposentada Violette D., moradora de Fréjus há 13 anos, declara que votará em Marine Le Pen. “Principalmente, porque ela vai fechar as fronteiras aos migrantes e estrangeiros.”

Racismo e islamofobia

A idosa Brigitte P., orgulhosa de nunca ter faltado a uma eleição, garante que votará à direita, no caso em François Fillon (Os Republicanos) no primeiro turno, mas, se ele não passar e Marine for ao segundo turno, irá pensar. “Nunca votei num candidato extremista, até lá preciso refletir”, diz. Sua vizinha, Corine D., ainda está indecisa, mas diz que gostaria de voltar a se sentir “em casa”. “A gente trabalha duro e vê aqueles homens sentados no café o dia todo [referindo-se aos imigrantes e descendentes do norte da África], sem fazer nada. Do que eles vivem? Da ajuda social que a gente dá. Ainda por cima olham para a gente de cima a baixo, não podemos mais vestir uma blusa decotada sem parecer aos olhos deles uma mulher da rua”, desabafa Corine.

Eleitor de Marine Le Pen residente em Le Luc, no sul da França. RFI/Adriana Moysés

Quarta-feira é dia de feira de artes e artesanato na pequena Le Luc, de 10,6 mil habitantes. Os irmãos portugueses Antonio S. e Isabel S., residentes no sul da França há 50 anos, aprovam as propostas da extrema-direita. “O Luc está muito bem com o prefeito da Frente Nacional. Agora, dão menos dinheiro para os árabes e para as associações que ajudam os estrangeiros. Antes, eles passavam na frente da gente”, diz Antonio, ex-eletricista. Sua irmã, Isabel, concorda: “Precisa parar de ajudar essa gente, eles ficam com tudo”, afirma. Alain G., aposentado, acredita que Marine Le Pen é “a única solução para levantar a França”.

“A França para os franceses”

Uma das propostas da candidata que é muito apreciada pelos franceses de baixa renda é a “prioridade nacional”, que prevê, por exemplo, a concessão de moradia social “em primeiro lugar” aos franceses.

O historiador Yvan Gastaut, da Universidade de Nice Sophia Antipolis, especialista em imigração e história local, explica que “a França para os franceses" foi um slogan criado pelos comunistas depois da Primeira Guerra Mundial. Com o declínio dessa corrente política, a mensagem foi oportunamente incorporada pela extrema-direita e o partido Frente Nacional. "Essa visão não é nova, ela ficou latente em um segmento da sociedade francesa durante décadas”, afirma.

O especialista nota que a “preferência nacional” agrada aos trabalhadores mais pobres, mais do que outros segmentos da sociedade. “Esse partido exerce uma atração entre pessoas que o identificam como o único recurso potencial que poderá garantir a eles um futuro mais agradável”, observa o historiador.

Em Cogolin, cidade de 11,7 mil habitantes a 10 km de Saint-Tropez, a quadra de bocha próxima da sede da prefeitura reúne, no final da tarde, aposentados e trabalhadores. Empregado sazonal no setor da construção civil, Michael T., diz que votará em Marine Le Pen porque “ela vai dar trabalho aos franceses, expulsar os estrangeiros e parar de sustentar os imigrantes”. Mas seu colega de quadra, Pierre B., diz que provavelmente fará uma escolha “menos arriscada”. “Ter um prefeito da Frente Nacional é uma coisa, eleger Marine à presidência é outra”, explica. O eleitor teme a inexperiência do partido no plano nacional e os danos à economia da França, se forem adotadas medidas protecionistas e anti-União Europeia.

Gastos com segurança em cidades sem registro de delinquência

As três cidades governadas pela Frente Nacional na região enfrentam críticas de cidadãos que rejeitam as teses populistas, principalmente a que aponta os imigrantes e trabalhadores de outros países europeus como bodes expiatórios do declínio francês.

A associação Fórum Republicano, que combate as ideias da extrema-direita, recrimina o prefeito de Fréjus, David Rachline, por ter vendido terrenos esportivos municipais no valor de € 29 milhões para abater dívidas e construir moradias populares. Para a associação, por trás dessa medida existe a vontade política de eliminar locais de convivência e de miscigenação social.

Das duas salas de exposição existentes na cidade, uma foi transformada em sala de leilões e a outra, que era gratuita para os artistas, agora cobra aluguel. A prefeitura também requisitou várias salas municipais que eram usadas por associações dedicadas a obras sociais e cortou subsídios.

Por outro lado, os cofres municipais investem maciçamente em segurança, com a instalação de 108 câmeras de vídeo nas ruas e a compra de armas para policiais, em contradição com a baixa delinquência local. Para realizar essas despesas sem elevar os impostos, o prefeito aumentou as tarifas de serviços, como a cantina escolar e suprimiu o estacionamento gratuito na hora do almoço. Resultado: as famílias que têm filhos em idade escolar foram penalizadas, e os residentes do centro histórico perderam o direito de estacionar seus carros perto de casa.

O prefeito de Cogolin, Marc-Etienne Lansade. RFI/Adriana Moysés

Em Cogolin, o prefeito Marc-Etienne Lansade é acusado de “incompetência administrativa” pela associação de cidadãos Place Publique. Ele lançou uma série de operações imobiliárias, entre elas a venda de um terreno municipal em área de mata e considerada de risco pela presença de minas desativadas. A prefeitura vendeu o terreno para uma construtora que não consegue obter a autorização das autoridades competentes para a construção de dezenas de apartamentos.

Lansade também é acusado de incitar o medo na população, para justificar gastos com equipamentos de segurança, em uma cidade que também não registra problemas de delinquência. Segundo o prefeito, “os franceses precisam de proteção”.

Em Le Luc, desde a eleição municipal de abril de 2014, dois representantes da Frente Nacional já renunciaram ao cargo – o primeiro se demitiu alegando problemas de saúde e sua sucessora, que ficou um ano no poder, também deixou o cargo depois de um racha no Conselho Municipal. Os moradores estão no terceiro prefeito, Pascal Verrelle, ex-diretor de penitenciária no norte do país.

Nessa cidade pobre, onde 57% da população não paga impostos por causa do fraco nível de renda, a extrema-direita é acusada por opositores de ter demitido 200 agentes municipais para enxugar a folha de pagamento, porém pagando indenizações que comprometem as finanças municipais a longo prazo. A prefeitura também contratou quatro policiais e vai armar o contingente em 2017.

Questionado se o município enfrenta crimes, o chefe de gabinete da prefeitura, Joris Varjabédian, afirma: “Durante muito tempo disseram que não havia terroristas em vilarejos, depois tivemos um padre degolado. O perigo está em todo lugar e é melhor adotar uma política de prevenção.”

Prefeito quer demolir mesquita

Desde que conquistou 11 munícipios em 2014, e visando a eleição presidencial, o partido Frente Nacional aplica o mesmo programa nas cidades que governa: controle dos gastos públicos, mesmo que isso signifique cortes de subsídios a associações sociais e culturais, e reforço ostensivo da segurança, partindo da premissa de que “os franceses estão ameaçados pelo fundamentalismo islâmico". Outra prática corrente nas administrações da sigla é estigmatizar os descendentes de imigrantes, principalmente muçulmanos, mesmo que sejam de quarta geração, como é o caso em Fréjus.

A mesquita de Fréjus, inaugurada em 2016, que o prefeito Rachline quer demolir. RFI/Adriana Moysés

Desde que tomou posse, o prefeito populista David Rachline luta para obter a demolição da única mesquita em funcionamento na cidade, construída com fundos privados. Inaugurada no ano passado, a mesquita teve seu alvará de construção concedido pela gestão anterior, de direita, mas apresentava irregularidades. O caso foi parar na Justiça, que condenou o ex-prefeito por fraude na concessão dos documentos. Mesmo assim, a decisão do tribunal administrativo rejeitou o pedido de demolição do templo religioso. O prefeito da Frente Nacional diz que vai levar o caso a todas as instâncias judiciais possíveis, até esgotar os recursos.

Para passar desapercebida na paisagem, a mesquita de Fréjus sequer tem um minarete, a torre que anuncia aos muçulmanos o início das orações. O edifício, com capacidade para acolher 650 fiéis, fica escondido dentro de um conjunto habitacional a vários quilômetros de distância da área turística de Fréjus.