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Eleição presidencial francesa Marine Le Pen Partido Comunista Voto

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Historiador explica migração de voto comunista para Marine Le Pen

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Yvan Gastaut, professor de História Contemporânea e especialista em imigração na Universidade de Nice. RFI/Adriana Moysés

Há muito tempo os franceses não viam uma corrida presidencial tão embolada a poucos dias do primeiro turno. Em entrevista à RFI, o historiador Yvan Gastaut, especialista em imigração na Universidade de Nice Sophia Antipolis, explica um fenômeno marcante nesta campanha: a oscilação de uma parte do eleitorado entre a extrema-esquerda e a extrema-direita.


Enviada especial à Riviera Francesa

Pela primeira vez em 60 anos na França, as duas correntes políticas dominantes no pós-guerra – a direita conservadora e a esquerda socialista – podem ser alijadas do segundo turno da eleição presidencial, reprovadas por um eleitorado que se desloca na direção de três forças minoritárias: o centro, representado pelo candidato liberal e pró-globalização Emmanuel Macron; a extrema-direita anti-União Europeia de Marine Le Pen; e a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, aliado do Partido Comunista e defensor de um programa de nacionalizações. Na reta final, Mélenchon empatou com o conservador François Fillon, envolvido em um processo judicial por nepotismo. Em compensação, o socialista Benoît Hamon despencou nas sondagens, abandonado pelos caciques do Partido Socialista.

Um fenômeno curioso é a polarização do eleitorado mais pobre, que envolve pequenos agricultores, trabalhadores que perderam o emprego nas regiões industriais afetadas pela globalização e jovens pouco qualificados. Nesses segmentos, muitas pessoas oscilam entre votar em Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon.

Mas como se passa de um lado a outro do espectro político com tanta facilidade, da esquerda radical à extrema-direita e vice-versa? O que há de comum no discurso dos dois candidatos que sensibiliza esses eleitores desencantados?

A cidade de Nice é um bom exemplo para contextualizar essa situação pendular. O professor de História Contemporânea Yvan Gastaut diz que é preciso retornar à França do século 19 e do início do século 20 para entender esse processo migratório de votos.

RFI – Como o partido de extrema-direita Frente Nacional conseguiu transcender a imagem de um partido xenófobo para se posicionar na cena política atual como um partido palatável, inclusive para uma parte dos jovens?

Yvan Gastaut – As ideias da Frente Nacional foram banalizadas. O racismo, a xenofobia, a preferência nacional foram aos poucos conquistando a opinião pública a tal ponto que, na maneira como Marine Le Pen se expressa, ela nem precisa mais defender ideias extremistas. Houve uma codificação da linguagem. As ideias mais chocantes, defendidas no passado pelo pai dela, Jean-Marie Le Pen, foram escamoteadas no discurso de Marine. Ela usa uma linguagem mais aceitável, explora sua dimensão feminina, mais leve, de forma que as pessoas, hoje, acreditam que ela está no centro da vida política. Esse aspecto é bem diferente do que representou o pai de Marine em sua época.

Ele sempre se posicionou de maneira marginal. Ela utilizou uma tática inversa. Enquanto o pai tentava arrastar os franceses para a marginalidade política, Marine tenta atrair para o centro, o que faz muita gente aderir às suas ideias, se deixando convencer que a dimensão racista evaporou. O eleitorado de Marine se engana, está errado em relação a isso.

RFI – Hoje, a Frente Nacional seduz a classe operária, que no passado votava à esquerda. Como a extrema-direita conquistou esses eleitores?

Y.G. – Historicamente, no século 19, os trabalhadores franceses eram racistas. Esse racismo foi moderado pelo surgimento dos sindicatos e pelos partidos políticos que emergiram ao final da Primeira Guerra Mundial, em torno de 1920, principalmente o Partido Comunista (PC). Foi nessa época que os trabalhadores, que já eram racistas, começaram a votar no PC. Mas com o desaparecimento do ideal comunista, a Frente Nacional passa a encarnar um discurso popular e até populista, o que faz com que hoje os trabalhadores mais pobres votem maciçamente em Marine Le Pen.

Essa dimensão é muito importante, porque Marine Le Pen recupera os votos que eram do Partido Comunista. Os trabalhadores mais pobres se identificam com a proposta da "França para os franceses”, um slogan que o PC utilizou no passado em algumas campanhas. Com o declínio dessa corrente política, a mensagem foi oportunamente incorporada pela Frente Nacional. Essa visão não é nova, ela ficou latente em um segmento da sociedade francesa durante décadas. A “preferência nacional” agrada aos trabalhadores mais pobres, mais do que outros segmentos da sociedade. Esse partido exerce uma atração entre pessoas que o identificam como o único recurso potencial que poderá garantir a eles um futuro mais agradável.

RFI – O fluxo de imigrantes para a França em 2015, de acordo com dados consolidados do Instituto Francês de Estudos e Estatísticas (Insee), foi de 0,3% da população, o equivalente a 67 mil pessoas. Por que Marine Le Pen é tão convincente quando afirma que o país está sendo inundado por imigrantes?

Y.G. – A questão da imigração é complicada para os franceses. Hoje, o país não é mais o destino preferido dos imigrantes, uma terra que acolhe estrangeiros, como já foi no passado. É uma situação paradoxal porque de um lado os franceses têm orgulho de se apresentar como acolhedores, mas ao mesmo tempo não querem mais saber de imigrantes ou de refugiados. Há 40 anos essa relação com o estrangeiro causa um problema de identidade nacional. Hoje, os franceses estão na dúvida se querem continuar com essa tradição histórica, que de certa forma é a essência do país, ou se querem romper com essa imagem. Existiram alguns períodos em que a França se fechou aos imigrantes.

Os franceses vivem um drama simbólico sobre a imagem do país. Esse drama chegou a um tal ponto de asperidade que os imigrantes não querem mais vir para cá. Mas isso gera um problema de liderança dentro da União Europeia. Se as pessoas não querem morar num determinado país europeu é porque ele não é suficientemente forte, atrativo. Isso não acontece com a Alemanha nem com o Reino Unido, mesmo depois do Brexit — a saída da União Europeia. Esses países continuam sendo muito mais atraentes do que a França. O recuo da França, esse fechamento sobre si mesma, cria um problema de liderança da nação na Europa.

RFI – Quem são os imigrantes mais indesejáveis para os franceses?

Y.G. – Há vários graus de estranhamento e rejeição em relação aos estrangeiros. No século 19 e até o começo do século 20, a França rejeitou ou tinha uma imagem ruim dos alemães, dos italianos – muito maltratados e vítimas de racismo –, dos belgas e dos ingleses. Essa rejeição foi apaziguada pela União Europeia. Hoje, a repugnância visa os imigrantes das ex-colônias francesas na África, asiáticos e ciganos. Todas as populações provenientes do exterior da Europa, que vêm de longe, são vítimas de racismo e discriminações. Mas a islamofobia atual não é um fenômeno francês. Ela se propaga em toda a Europa, por isso a explicação do passado colonial não é suficiente. A rejeição ao outro, àquele que vem de fora, é resultado de vários tipos de discriminação.

RFI – A direita e a extrema-direita fazem muito sucesso na região de Nice. Por quê?

Y.G. – Nice é uma cidade que deixou de ser cosmopolita. A cidade se tornou francesa recentemente, em 1860. Antes, uma parte dela pertencia à região de Piemonte, na Itália. Isso já cria localmente um distúrbio de identidade. Depois, a partir de 1860, a cidade e a região se construíram por meio de uma economia baseada no turismo, mas de classe alta. A elite europeia sempre veio se instalar na região em busca do clima agradável e das oportunidades de lazer. Ao valorizar esse potencial turístico, foi preciso construir uma infraestrutura eficiente de estradas, parque imobiliário e aeroportos. Foi necessário importar mão-de-obra de Portugal, Espanha, Itália e mais tarde do norte da África. A região atraiu ricos e pobres e ainda viveu um outro movimento migratório complicado durante a Guerra da Argélia, na década de 50. Essa composição da população fez com que durante muito tempo existissem dois partidos influentes na região, o da direita conservadora e o Partido Comunista. Com a queda dos comunistas, a Frente Nacional conquistou esses eleitores. Mas nunca houve mistura da população: existe a orla turística, bairros de classe média e bairros pobres. As pessoas não se misturam. O único bairro um pouco mais eclético é o bairro da Universidade, onde vivem estudantes, trabalhadores industriais e descendentes de imigrantes. Eu acredito que a extrema-direita faz muito sucesso na região porque a população vive uma relação turbulenta com seu histórico cosmopolita e isso ainda piorou com o atentado de 14 de julho do ano passado.

RFI – Quais as consequências do atentado para essa tensão social já existente?

Y.G. – O atentado mostrou que Nice não é exclusivamente uma cidade balneária e de lazer. Mostrou que a cidade pode ser o epicentro de tensões muito fortes entre as comunidades que nela habitam. Mostrou que havia bairros mais sensíveis e que o equilíbrio entre essas populações é muito frágil. A cidade vacilou e não sabe mais como funcionar. Existe atualmente uma agitação nervosa por causa do gosto amargo e do caráter trágico do atentado. Na minha opinião, é preciso investir em incentivo cultural e trabalhar com os moradores na compreensão do passado histórico.