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Eleição presidencial francesa Marine Le Pen Extrema-Direita Discriminação

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França: professora franco-portuguesa e ativistas animam movimento contra extrema-direita

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A professora franco-portuguesa Marie José de Azevedo, fundadora do Fórum Republicano, associação que combate as ideias da extrema-direita no sul da França. RFI/Adriana Moysés

A vitória do partido de extrema-direita Frente Nacional (FN) em 11 cidades francesas nas eleições municipais de 2014 incitou a criação de um movimento cidadão que monitora as ações dos prefeitos populistas em todo o país. Em Fréjus, a 38 km do badalado balneário de Saint-Tropez, a professora franco-portuguesa Marie José de Azevedo está à frente da associação anti-FN Fórum Republicano, extremamente ativa nessa campanha presidencial.


Enviada especial à Riviera Francesa

Falando em português, com um largo sorriso no rosto, Marie José conta que a eleição do prefeito extremista David Rachline (FN), em Fréjus, teve para ela o efeito de “um tapa na cara”. Na época, ela foi contatada pela União Nacional dos Estudantes Judeus (UEJF), que propôs a criação de um comitê para monitorar as ações dos prefeitos eleitos pela legenda. Rachline é o diretor de campanha da candidata à presidência Marine Le Pen.

No dia seguinte à posse do prefeito, Marie José fundou o Fórum Republicano (Forum Républicain Fréjus) com mais duas colegas. Quase simultaneamente, outros cidadãos engajados na defesa dos valores republicanos abriram associações semelhantes nas outras dez cidades governadas pelo partido populista. Hoje, eles atuam sob a Coordenação Nacional dos Coletivos Cidadãos (CNCC), em parceria com a ONG SOS Racismo e a UEJF, dos estudantes judeus. Toda a comunicação entre os participantes e o anúncio de eventos é feito pelas redes sociais.

“A gente constata no dia a dia que a Frente Nacional prega ideias xenófobas, racistas e totalitaristas, que excluem as pessoas que não aderem à visão do partido”, explica Marie José. “Nossa associação defende os valores republicanos, a coesão social, sem discriminação de religião, opinião política, sexo ou origem”, enfatiza a franco-portuguesa. Na região de Saint-Tropez, ela atua em parceria com Francis José Maria, da associação Praça Pública, de Cogolin, e Roger Depierre, um simpatizante comunista morador de Le Luc, outras duas cidades da região sob gestão da extrema-direita.

Prefeito tira bandeira europeia da Câmara Municipal

“A primeira ação de Rachline na prefeitura de Fréjus foi retirar a bandeira da União Europeia da Câmara Municipal. Depois disso, passamos a organizar uma grande festa da Europa no mês de maio, perto do feriado do dia 9, que celebra a criação do bloco. Com o pretexto de diminuir as dívidas do município, ele cortou 30% das verbas de manutenção das escolas elementares do sistema público, suprimiu 60% das subvenções dos três centros sociais da cidade e vendeu várias quadras municipais onde os jovens praticavam esportes. Mas ele contratou 13 pessoas na assessoria de comunicação da prefeitura. A gente está vendo onde estão sendo usados os € 29 milhões que ele arrecadou com a venda dos terrenos municipais”, critica Marie José.

Rachline foi aluno de Marie José no primeiro ano do ensino fundamental, quando tinha 6 anos. “Mas ele é o único dos meus ex-alunos que não se lembra que eu o ensinei a ler, a escrever e a fazer contas”, nota com ironia a professora franco-portuguesa. A associação de Marie José não defende nenhum candidato em particular ao Palácio do Eliseu.

“Queremos ficar neutros, mas lançamos uma campanha – A Frente Nacional é Contra o Povo (#FNContreLePeuple) – para alertar as pessoas a não votar no partido. A Marine Le Pen quer fechar as fronteiras, isolar a França, e quando vemos as ações dos presidentes Trump [EUA] e de Putin [Rússia], vemos que isso seria muito perigoso. A França precisa continuar na União Europeia para permanecer forte, ser solidária e enfrentar as ameaças exteriores. O país não tem força para se defender sozinho. Quando se vive em uma cidade governada pela extrema-direita, a gente vê que a única coisa que esse partido faz é dividir as pessoas. É difícil viver todos juntos, mas temos que continuar porque é mais rico assim. Quando se divide uma sociedade, a gente conhece o fim da história, é a guerra.”

A campanha, de acordo com Marie José, tem o objetivo de mostrar que a Frente Nacional “é uma legenda autoritária, que fere a liberdade de imprensa, administra mal as contas públicas, destrói a atividade cultural e discrimina as pessoas, agravando as dificuldades da população”.

Documentário anti-FN é censurado no cinema municipal

Na pequena Le Luc, desertada pelos comerciantes devido ao baixo poder aquisitivo da população, o simpatizante comunista Roger Depierre criou a associação Juntos pelo Luc (Ensemble pour Le Luc) .

No primeiro ano do mandato da extrema-direita, o único armazém solidário, que vendia produtos mais baratos para a população carente, fechou suas portas por pressão da prefeitura. “O prefeito também retirou a placa comemorativa da Revolução Francesa e proibiu a exibição do documentário “Chez Nous”, no cinema municipal, que ele considerou abertamente contra a Frente Nacional”, relata Depierre. O filme, do cineasta Lucas Belvaux, lançado neste ano, descreve a implantação caótica de um partido de extrema-direita no norte da França.

Depierre conta que o prefeito Pascal Verelle só fala em segurança e, como um ex-administrador de penitenciária, “cuida da cidade como uma grande prisão”.

Rua do centro de Le Luc onde a prefeitura organiza uma feira de artesanato e antiguidades às quartas-feiras. RFI/Adriana Moysés

Gestão financeira desastrosa

Em Cogolin, Francis José Maria, fundador da associação Praça Pública (Place Publique) e ex-diretor da agência metropolitana de distribuição de água, julga a gestão financeira do prefeito da Frente Nacional "desastrosa". “A equipe dele cria uma atmosfera de medo e insegurança para justificar a contratação de policiais e a compra de câmeras de vídeo. A aquisição desses materiais sai caro para os cofres municipais e, no final, como eles não têm um projeto de desenvolvimento para a cidade, vendem terrenos municipais para reequilibrar o orçamento que eles mesmos desequilibraram”, diz Maria. “A prefeitura gasta uma fortuna com canteiros de flores, fazendo uma política baseada na comunicação e em eventos, mas não atrai investimentos concretos em benefício dos habitantes”, lamenta o morador atualmente aposentado.

O prefeito de Cogolin, Marc-Etienne Lansade, rebate as críticas acusando os opositores de “esquerdistas”. Um dado que chama a atenção na implantação da extrema-direita no município é que Lansade chegou à cidade poucas semanas antes da eleição, em 2014. Ele nunca morou na região e afirma que se candidatou obedecendo a uma orientação de seu padrinho político, Louis Aliot, companheiro de Marine Le Pen e um dos vice-presidentes da Frente Nacional.

RFI/Adriana Moysés

“Ele não conhecia a cidade, disse que teve de usar o GPS para localizar Cogolin”, conta Maria, revoltado com o que considera uma atitude de desprezo de Lansade em relação aos habitantes do município. “Ele chegou falando em decretar toque de recolher, sendo que não temos problemas maiores de delinquência. Depois, disse que ia expulsar os estrangeiros e impedi-los de exercer atividades comerciais na cidade, como se fossem eles os responsáveis pelos problemas. A extrema-direita age assim, impondo uma visão artificial e ideológica que é a deles, mas que não corresponde à realidade econômica da cidade”, constata Maria.

Questionado sobre as razões que levaram os moradores a eleger um prefeito que sequer conheciam, Maria afirma que o prefeito anterior havia passado 19 anos no poder e enfrentava um certo desgaste. “Tiveram vontade de mudar o comando, frustrados com a crise econômica prolongada”, acredita.

Prefeito diz que sofreu infarto por perseguição da imprensa

Mães muçulmanas em frente à sede da prefeitura de Cogolin, cidade do Golfo de Saint-Tropez, governada pela extrema-direita desde abril de 2014. RFI/Adriana Moysés

O prefeito Lansade vem da região parisiense e vive sua primeira experiência política no comando de Cogolin, vilarejo típico da região da Provence, como aqueles que ilustram os cartões postais. Ele minimiza as críticas sobre sua falta de laços com a cidade dizendo que sempre passou férias na região.

Antes de decidir abraçar a política, Lansade era um empresário do setor imobiliário e ajudou Marine Le Pen a negociar a venda de uma grande propriedade familiar. Ao comentar sua experiência como prefeito, Lansade revela uma certa amargura. “A política transforma a pessoa. Desde que tomei posse, há três anos, envelheci pelo menos dez anos. Mais do que em outra atividade profissional, a política consome toda a sua atenção. Eu não tenho mais vida privada. Foi voluntário, mas depois que tive contato com uma certa realidade social do meu país, que conheci pessoas de um meio diferente do universo que eu frequentava, que levam uma vida mais dura, minha percepção do mundo mudou”, divaga o prefeito.

Lansade revela que sofreu um infarto em janeiro passado, após meses de “perseguição política de um jornal local” e da “pressão” em sua base de apoio, que resultou na renúncia de oito vereadores. O motivo foi uma série de empréstimos contraídos pela gestão de extrema-direita e a venda de bens municipais que comprometem o futuro financeiro da cidade. “Eu não dormia mais, vivia conectado para saber de onde viria o próximo ataque e como me defender”, relata o prefeito.

Para o fundador da associação de combate à extrema-direita Praça Pública, o que acontece em Cogolin é um exemplo do que pode acontecer no plano nacional se a Frente Nacional ganhar a eleição presidencial. “Seria a reedição das mesmas incompetências”, estima Maria. “O programa econômico de Marine Le Pen propõe medidas incoerentes e perigosas em um mundo social e economicamente aberto. Fechar as fronteiras e sair da zona do euro são medidas que vão se voltar, em primeiro lugar, contra os mais pobres. As famílias modestas serão as primeiras a serem punidas”, teme o ativista anti-FN.