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França Imigrantes Política Marine Le Pen Imigração

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Em periferia de Paris, esquerda luta contra Marine Le Pen e abstenção

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Militantes nas ruas de Saint-Denis tentam convencer eleitores a votar nas eleições presidenciais. Foto: RFI Brasil

Símbolo de cidade marginalizada e com forte presença de imigrantes, Saint-Denis, na periferia norte de Paris, virou reduto de partidos de esquerda que buscam mobilizar na reta final da campanha presidencial francesa um eleitorado profundamente desiludido com a política.


Apesar de ser a terceira maior cidade da região onde se encontra a capital da França, Saint-Denis convive com problemas crônicos relacionados à violência, ao tráfico de drogas e a um desemprego altíssimo, que atinge 23,4% da população ativa de acordo com o Instituto Nacional de Estatística da França (INSEE). A taxa é mais do que o dobro da média nacional, em torno de 10%.

Dos cerca de 110 mil habitantes, 40% tem origem estrangeira, segundo estimativas da administração local. São mais de 140 nacionalidades representadas em uma cidade conhecida por abrigar a Basílica onde estão enterrados os reis da França, e que se transformou em uma região popular, operária e cosmopolita com a chegada maciça de diferentes ondas de imigração a partir do século 19.

Decepção com governo socialista e com a campanha eleitoral

Descendentes de árabes, de países europeus, do norte da África e de ex-colônias francesas circulam pelo mercado coberto central, que se expande às ruas nas terças e nos finais de semana. Em meio a barracas de frutas, legumes, roupas, militantes de diversos partidos políticos aproveitam o movimento para distribuir panfletos e programas dos candidatos.

O esforço visa lutar contra o risco de uma forte abstenção do voto popular e operário, traduzindo uma desconfiança dos políticos em geral e a decepção com o governo socialista do presidente François Hollande.

Denis Cittanova, professor de História e Geografia de ensino médio, está nas ruas para divulgar a campanha da candidata do partido Luta Operária, Nathalie Artaud, que aparece com 0% nas intenções de voto. Mas ele não desiste: “Decidi panfletar aqui, onde vivo e trabalho. É uma cidade popular, de trabalhadores, de várias origens e estão do nosso lado. São os que sofrem os efeitos negativos de uma sociedade capitalista e que acreditamos, são os únicos capazes de mudar a situação. São eles que criam mas não se beneficiam da riqueza. É a bandeira que empunhamos nessa eleição, os trabalhadores devem ser ouvidos”, afirma.

Ele credita o desinteresse de boa parte dos eleitores da cidade pela “grande decepção” com o governo Hollande. “Todo mundo viu que seu governo obedeceu as ordens do empresariado”, criticou.

A cidade de Saint-Denis tem moradores de mais de 140 nacionalidades, segundo a administração local. RFI/ E. RAMALHO

A poucos metros de distância, mesma constatação de Julien Attal, responsável da sede do Partido Comunista em Saint-Denis. “A abstenção é um grande problema nos bairros populares. Nos bairros chiques a mobilização é maior. Tentamos mobilizar aqui, mas as pessoas estão de ‘saco cheio’, com a impressão de qua nada foi feito para eles. A vitória da esquerda em 2012 criou muita esperança. Eles se sentem traídos por Hollande e pelo Partido Socialista”, constata o jovem que conhece bem a cidade e o sentimento dos moradores de Saint-Denis.

“As pessoas estão cansadas de serem catalogadas como imigrantes, muçulmanos. Eles têm vontade de serem vistos como cidadãos e fazerem parte do debate e serem tratados como cidadãos”, diz, em defesa do candidato Jean-Luc Mélenchon, do movimento A França Insubmissa, que defende entre outras propostas relacionadas à imigração, o direito de voto “para todos”.

“É preciso superar tudo isso e mostrar que a esquerda ainda tem possibilidade de fazer várias coisas, que há combates que valem a pena serem defendidos e eles (os imigrantes) têm lugar nesse projetos, são cidadãos plenos e não se deve dividir os franceses”, aposta. “É preciso reconquistar a confiança, mas não é fácil, estamos em um período de crise, as pessoas não estão abertas nem esperançosas”, admite Julien.

Rejeição à extrema-direita

Os partidos de extrema-esquerda e da esquerda radical ocupam com cartazes pregados e o corpo a corpo junto aos eleitores um espaço aparentemente abandonado pelos partidos que defendem uma política dura em relação aos imigrantes.

Não há sinais aparentes de campanha da candidata Marine Le Pen, que defende um controle das fronteiras francesas e a interrupção da chegada de imigrantes ao país. Muitos moradores se recusam a falar sobre a líder da Frente Nacional, e com acenos de mão e de cabeça expressam rejeição à candidata que faz campanha com um discurso xenófobo.

“Marine Le Pen pode ter reações muito conservadoras, de pessoas que vão achar que o problema é o imigrante, que eles são o problema aqui. Mas, em geral, ela é detestada aqui com seu discurso anti-imigrante, em uma cidade formada pela imigração há mais de um século,”, garante a franco-brasileira Silvia Capanema, conselheira departamental de Saint-Denis. “O discurso anti-xenofobia das esquerdas é o que interessa mais a população”, acredita.

Militantes de vários partidos de esquerda fazendo panfletagem nas ruas de Saint-Denis, periferia norte de Paris. Foto: Elcio Ramalho/RFI

A marroquina Fatima Leschkar não tem nacionalidade francesa como seus filhos, mas decidiu se engajar na campanha em favor de um candidato da esquerda radical. “Infelizmente não voto, mas sou militante. Sinto que a França é meu país. E defendo o que acho melhor para o meu país” diz, seduzida pelo discurso do movimento A França Insubmissa, de Mélenchon, que promete uma política de acolhida aos imigrantes e de maior abertura para regularizar a situação dos que se encontram em situação ilegal.

“Mélenchon é um bom orador, é muito bom. Não é uma questão de ser comunista ou não. Ele sabe falar”, ressalta um argelino que prefere não se identificar. Ele lamenta que muitos outros conterrâneos não possam ir às urnas pois apenas possuem permissão para residência no país, sem direito a voto. “Vamos votar por todos da comunidade e por outros estrangeiros que não podem”, afirma.

"O tema dos imigrantes ficoou opaco nesta campanha"

Instalado na França desde 1972, um aposentado sérvio que trabalhou construção civil, revela seu desgosto pela atual campanha, marcada por escândalos envolvendo principalmente o candidato de direita François Fillon, indiciado e investigado pela justiça por supostos empregos fantasmas de familiares.

Ao comparar com outras eleições presidenciais, ele resume: “Há muita confusão, muitos candidatos que não valem nada, com exceção do Mélenchon. Suas propostas são as melhores”, afirma. O aposentado lamenta ainda o tratamento ao assunto da imigração durante os debates e a campanha: “Eles trataram o tema dos clandestinos, mas não da gente”.

Não longe dali, um pintor de origem haitiana, que preferiu não se identificar, também não viu nenhuma proposta para melhorar a vida de comunidades estrangeiras na França. “O tema sobre imigrantes ficou opaco. Um assunto que passou e não foi verdadeiramente abordado”, disse.

“É uma campanha cheia de escândalos. Esperava uma campanha de um nível mais alto, com discussão de assuntos que poderiam nos convencer, mas não foi o caso. Foi uma pena, ainda estamos esperando alguma coisa”, observou.

No reduto eleitoral de Saint-Denis, nem todos os eleitores se identificam com os candidatos da esquerda radical ou da extrema-esquerda. Constantin Regent, 70 anos, ex-militar e aposentado, declara seu voto em Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha, que divide com Marine le Pen a liderança nas pesquisas e o favoritismo para estar no segundo turno.

“Vou votar Emmanuel Macron porque ele não é de direita nem de esquerda. Ele é jovem e acho que ele vai dirigir bem a França”, justifica. “Mas quando digo que vou voltar nele sou insultado, agredido, mas eu aceito”, afirma. “Meu pai perdeu sangue no solo deste país, não vou me intimidar. Tenho sangue francês no meu corpo, não me intimido”, insiste Constantin, que é filho de pai francês e mãe togolesa.

Boicote às urnas e campanha contra abstenção

Se os aposentados e a geração que vivem há várias décadas em Saint-Denis parecem mais interessados em buscar alternativas, não é difícil encontrar eleitores jovens dispostos a boicotar as urnas para mostrar um descontentamento com a classe política.

“Não vou votar. Nem fui buscar meu título de eleitor. Nenhum deles representa o povo. Estou muito decepcionado”, confessa Gerald Campos, 33 anos, enquanto aguarda a chegada de clientes em sua banca de peixes.

Na barraca ao lado, que oferece carnes e frios, a comerciante franco-portuguesa Elisabeth Santos, de 23 anos, também parece decidida a não comparecer nas urnas nem no primeiro turno, no dia 23 de abril, nem no segundo, no dia 7 de maio.

“Com todas as polêmicas que existem, é um bocado difícil”, diz. “Na minha opinião, são todos iguais. Fazem as coisas só para eles e não para o povo. Não vou votar, nem no primeiro turno, nem no segundo. Estou decidida”, diz, convicta. “Há muitos jovens que conheço que, como eu, não vão votar”, garante.

Para Elisabeth, a França deve urgentemente mudar seu modelo social. “Quem mais deveria receber ajuda é quem trabalha, e não quem quer ficar em casa, receber sem trabalhar. Quem hoje está no seguro-desemprego tem mais ajuda do que as pessoas que trabalham. Isso deveria mudar”, sugere.

Elisabeth Santos, franco-portuguesa, vai se abster na votação por não acreditar em nenhum candidato à eleição presidencial. RFI

É com o objetivo de convencer eleitores como Girald e Elisabeth que o coletivo francês “2017 Avec Nous” decidiu intensificar sua campanha nos redutos mais populares por toda a França. O grupo foi criado para tentar convencer os indecisos e os decepcionados com a política a comparecer às urnas e diminuir a taxa de abstenção, particularmente alta nos bairros populares.

Professor e militante voluntário do coletivo, o franco-haitiano Excelent Dieunor, faz o seguinte diagnóstico do desinteresse manifestado por boa parte do eleitorado de origem imigrante.

“Eles não se sentem representados pelos políticos atuais. Eles têm a impressão de não serem ouvidos, que a opinião deles não conta. Eles viram que as promessas de François Hollande não foram cumpridas e existe uma verdadeira decepção, além dos escândalos do caso Fillon e de outros candidatos. Há uma desilusão geral das pessoas com a política”, constata.

“Muitos ainda não sabem em quem vão votar ou pior, se vão votar. Por isso fazemos essa campanha na reta final para incitar as pessoas a votar e, no nosso caso, barrar a Frente Nacional”, afirma.