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Franceses não sabem se querem eleger um 'pai da nação' ou criar um novo sistema político

Por Adriana Moysés

A ONG Vox Public atua na campanha presidencial francesa de 2017 auxiliando associações da sociedade civil a obter compromissos dos candidatos de combate às desigualdades sociais, às discriminações e à corrupção. Em entrevista à RFI, o diretor da Vox Public, Jean Marie Fardeau, que também dirigiu durante oito anos a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW), comentou a fragmentação do eleitorado a três dias do primeiro turno, no próximo domingo (23).

A campanha oficial termina nesta sexta-feira (21). Segundo uma sondagem do instituto Harris Interactive divulgada hoje, o centrista Emmanuel Macron lidera as intenções de voto junto com a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, mas Jean Luc Mélenchon, da esquerda radical, e o conservador François Fillon aparecem em terceiro e quarto lugares, muito próximos do empate técnico com os adversários. Um quarto dos eleitores continuam indecisos, criando uma atmosfera inédita nessa reta final.

Os analistas não arriscam prognósticos. Fardeau diz que ainda é cedo para saber se as denúncias de desvio de dinheiro público de Fillon, indiciado num processo por nepotismo, e de Marine Le Pen, investigada por ter pago auxiliares de seu partido Frente Nacional com recursos do Parlamento Europeu, serão suficientes para excluí-los do segundo turno. Ele considera que apenas Macron e Mélenchon apresentaram uma visão diferente daquela defendida pelos políticos tradicionais, mas nem isso garante que recebam o carimbo de passagem para o duelo final.

"Esta eleição mostra que a esquerda socialista e a direita tradicional, que dominaram o país nos últimos 50 anos, não conseguem mais estruturar a vida política francesa. Já a extrema-direita soube aproveitar as diferentes crises econômicas e sociais dos últimos 30 anos, e hoje capta um voto de protesto contra as políticas públicas", destaca.

Macron e Mélenchon traçaram visão de futuro

O fato de Macron e Mélenchon terem conseguido nesta campanha criar um movimento novo, não significa, na opinião do especialista, que a cultura política francesa tenha entrado em uma fase de renovação. Quem quer que seja eleito para o Palácio do Eliseu no dia 7 de maio, data do segundo turno, precisará compor uma base parlamentar de apoio nas eleições legislativas marcadas para o mês de junho.

Os movimentos "Em Marcha!", de Macron, e "França Insubmissa", de Mélenchon, vão provavelmente apresentar novos quadros para concorrer ao Parlamento. Mas, como sublinha Fardeau, "os novos representantes não vão necessariamente se comportar de forma diferente dos políticos antigos". "É uma questão de cultura política. Ainda vai demorar um tempo para que se estabeleça um diálogo reforçado entre os políticos e a sociedade civil", estima Fardeau.

O diretor da Vox Public lembra que os franceses gostam do debate e da contradição. "Não é um povo consensual. É difícil reunir a população em torno de um projeto político com uma visão para o país. Os dois últimos presidentes, Nicolas Sarkozy e François Hollande, não foram capazes de traçar um rumo. Isso deu espaço para o surgimento de candidatos como Macron e Mélenchon, que pelo menos apresentaram visões do futuro", observa.

Fardeau nota que os franceses estão atualmente em uma posição contraditória, "sem saber se querem continuar com um presidente que encarna o pai da família", como propôs o general Charles De Gaulle na década de 60, ou um sistema mais participativo, que daria mais poder à população e ao Parlamento. "Essa contradição ainda não foi resolvida. Os franceses estão em dúvida se querem voltar às raízes do general De Gaulle, com uma pessoa que realmente represente o país, ou se querem construir um novo sistema político", conclui.

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