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França Primeiro Turno Eleição presidencial francesa Jovem estudantes

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Jovens franceses vão às urnas decepcionados com os candidatos à presidencial

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Os estudantes do quinto ano de Odontologia na Universidade de Nice Thibaud (à esquerda), Lamjed (centro) e Laura (à direita) vão votar na direita no primeiro turno da eleição presidencial. Foto RFI/Adriana Moysés

O voto dos jovens é disputado pelos candidatos nesta eleição presidencial francesa. Os dois principais postulantes da esquerda, Benoît Hamon (Partido Socialista) e Jean Luc Mélenchon (movimento “França Insubmissa”), tentam seduzir os eleitores de 18 a 25 anos com a promessa de um auxílio social de € 600 a € 800, algo em torno de R$ 2 mil a R$ 2,7 mil. Mas não é só a proteção do Estado que conta para os estudantes: eles querem mais empregos, condições justas de trabalho e uma política ambiciosa de preservação do meio ambiente.


Enviada especial à Riviera Francesa

Quentin, 20 anos, vai votar pela primeira vez para presidente. Ele cursa Sociologia e Economia na Universidade de Nice Sophia Antipolis e está inclinado a votar no primeiro turno, no próximo domingo (23), na esquerda radical. “Na minha opinião, Mélenchon tem o programa mais interessante. É uma pessoa que sabe se expressar, tem carisma e experiência”, diz o estudante. "Ele foi o melhor nos debates na TV", afirma. Apesar de não concordar com todas as propostas de Mélenchon sobre a União Europeia, o que mais agrada o estudante no programa do movimento "França Insubmissa" é a preocupação com a igualdade social e o combate às desigualdades. "Mélenchon é o candidato mais coerente”, destaca Quentin.

Inês, estudante de Sociologia e Economia em Nice, está indecisa. Foto: RFI/Adriana Moysés

Inês, de 20 anos, colega de turma de Quentin na faculdade, acredita que só o engajamento dos cidadãos pode mudar o rumo da sociedade. Votar, para ela, é uma atitude tão importante que a estudante defende que se torne obrigatório. “Muitas pessoas morreram para a gente conquistar esse direito. As pessoas reclamam da falta de mudanças, mas ao mesmo tempo não votam”, constata a estudante apontando uma contradição. Até a semana passada, Inês fazia parte dos 30% de eleitores indecisos. “Estou decepcionada com a política. Ainda não sei em quem votar porque não houve debate aprofundado nesta campanha. Os candidatos perdem tempo com ataques, como se estivessem no jardim da infância, e não discutem assuntos importantes, como, por exemplo, o futuro da União Europeia”, lamenta a estudante.

Marine Le Pen, da extrema-direita, é a candidata que representa para Inês o maior risco de retrocesso, “com seu projeto protecionista e de fechamento das fronteiras”. Depois de militar durante um ano no partido da direita republicana, ela se declara decepcionada e descarta um voto em François Fillon. O centrista Emmanuel Macron, do movimento "Em Marcha!", parece ter o melhor programa econômico na opinião de Inês, "mas é inexperiente na arena política”. Resultado, por exclusão, Inês pensa em votar em Mélenchon, mesmo salientando que ele pode mergulhar o país “em uma situação de muita instabilidade”. Inês garante que não vai votar em branco, “para não desperdiçar a ocasião”.

Os amigos Thibaud, Lara e Lamjed cursam o quinto ano de Odontologia na Universidade de Nice. Thibaud explica que escolheu seu candidato de acordo com o critério do interesse profissional. Ele descarta os postulantes da esquerda e irá votar na direita, em Fillon ou Le Pen, “por serem os únicos que oferecem garantias para a cobrança de honorários livres na profissão”. O governo socialista limitou os rendimentos dos dentistas, o que Thibaud considera injusto “para quem investiu em seis anos de estudos”.

Laura vai votar em Fillon, convencida de que o candidato conservador tem o melhor programa para recuperar a economia francesa. Ela não se incomoda com as denúncias de corrupção envolvendo o ex-primeiro-ministro e afirma que ele foi “linchado pela mídia”. Se Fillon não passar para o segundo turno, Laura gostaria de ter a opção de votar em Macron. Questionada sobre a possibilidade de eleger Le Pen, a recusa foi categórica. “Considero inadmissível votar na extrema-direita. Nós somos jovens, temos 20 anos, precisamos ter o espírito aberto. Votar na extrema-direita é como se nunca tivéssemos estudado história”, diz a estudante, referindo-se às propostas xenófobas do partido populista Frente Nacional.

Lamjed, de 24 anos, hesita entre engrossar a fila dos abstencionistas ou votar em Fillon. “A França está em uma situação muito difícil e precisa de um líder que tenha coragem de tomar medidas duras”, estima Lamjed.

Descrentes mas atentos

A socióloga Anne Muxel, que trabalhou em uma ampla pesquisa europeia ("Generation What") sobre as expectativas dos jovens no continente, notou "uma desconfiança imensa na política" entre os entrevistados de 18 a 25 anos. De acordo com o levantamento, 99% dos jovens franceses disseram que os políticos do país são "mais ou menos" corruptos e 87% não confiam na política. "Mas isso não quer dizer que os jovens não acreditam na ação política", ressalta a socióloga.

A França tem pouco mais de 2,5 milhões de jovens matriculados no ensino superior. A influência desse público e sua capacidade de mobilização nas redes sociais foram captadas em particular por dois candidatos: Macron e Mélenchon. O representante da esquerda radical se distingue dos concorrentes pela comunicação adaptada aos novos hábitos de informação dos jovens. Ele largou na frente com um canal no Youtube dedicado à apresentação de suas propostas e a um diálogo com os eleitores. Sua equipe também surpreendeu com o uso do holograma, um recurso tecnológico que permite a Mélenchon realizar comícios simultâneos, passando a imagem de um candidato desenvolto na era digital.

Macron, também muito ativo nas redes sociais, se apoia em estudantes e jovens militantes que percorrem o interior do país em caravanas, numa estratégia do porta a porta, para explicar a nova dinâmica que ele quer imprimir à vida política francesa com seu movimento "Em Marcha!", focado na força do trabalho, em uma política econômica liberal progressista e na França integrada à União Europeia.